A família, sujeito da pastoral familiar

No capítulo VI da Exortação Apostólica Pós-Sinodal Amoris laetiti, intitulado Algumas perspetivas pastorais, o papa Francisco parte de uma constatação inicial que é fruto, como o mesmo explicitamente refere, da longa caminhada de preparação iniciada, como sabemos, dois anos antes:

“Os debates do caminho sinodal puseram a descoberto a necessidade de desenvolver novos caminhos pastorais, que procurarei agora resumir em geral. As diferentes comunidades é que deverão elaborar propostas mais práticas e eficazes, que tenham em conta tanto a doutrina da Igreja como as necessidades e desafios locais.  […].” (nº 199)

O desafio é, pois, lançado com toda a clareza, cabendo às comunidades locais encontrar os caminhos para lhe responder, mantendo-se fiéis à sua identidade, o que implica ter sempre presente o projeto de Deus para a humanidade e a realidade concreta em que essa mesma humanidade vive. A tarefa não é fácil e traz consigo uma certa carga de novidade, uma vez que as comunidades cristãs nem sempre foram preparadas para serem elas a tomar o protagonismo do discernimento e da ação, estando mais disponíveis e preparadas para concretizar as orientações que lhes eram dadas. Agora não se trata só de serem criativas ao nível dessa concretização, mas também de participarem no próprio processo de discernimento e de decisão para a ação, o que, convenhamos, ainda que muitos o não queiram dizer, acarreta a novidade atrás referida. É precisamente a este nível que encontro um dos grandes desafios deste texto.

E porque é consciente disso o Papa partilha e propõe alguns critérios que poderão ajudar na resposta a esse desafio. Nessa linha destaco aqui três orientações que me parecem muito claras nesse sentido. A primeira,  que retiro do nº 200 e que me parece de superior importância – “Os Padres sinodais insistiram no facto de que as famílias cristãs são, pela graça do sacramento nupcial, os sujeitos principais da pastoral familiar”, ajuda-nos a perceber como as famílias, mais do que serem destinatários da pastoral familiar, devem ser, em primeiro lugar, os principais protagonistas e responsáveis. A segunda, retirada também do nº 200 – “Não basta inserir uma genérica preocupação pela família nos grandes projetos pastorais; para que as famílias possam ser sujeitos cada vez mais ativos da pastoral familiar, requer-se «um esforço evangelizador e catequético dirigido à família», que a encaminhe nesta direção.” -, alerta-nos para o facto de que a este nível não chegam as declarações gerais de intenção, ou seja, não basta dizer que a família é importante, mas é preciso, é mesmo urgente diria eu, que a pastoral da Igreja seja essencialmente pensada e realizada a partir da realidade familiar. Finalmente, a terceira orientação, retirada do nº 201 – “«Por isso exige-se a toda a Igreja uma conversão missionária: é preciso não se contentar com um anúncio puramente teórico e desligado dos problemas reais das pessoas». A pastoral familiar «deve fazer experimentar que o Evangelho da família é resposta às expectativas mais profundas da pessoa humana.” -, volta a lembra-nos que nesta missão não é possível ignorar a vida concreta das pessoas.

O que se pede às famílias e às comunidades cristãs acarreta consigo a necessidade de repensar, como também se afirma no texto, a formação dos futuros ministros ordenados, bem como a dos leigos que sejam chamados a assumir responsabilidades na pastoral familiar. Esta formação, diz-se ainda, não pode de modo nenhum prescindir dos contributos das diversas áreas de reflexão humana, tais como a psicologia, a sociologia, a sexologia, a medicina, a pedagogia, bem como a teologia e a orientação espiritual com toda a sua riqueza. Chama-se também a atenção para o facto de que esta ação pastoral deve ser pensada e estruturada de modo a acompanhar as famílias em todas as suas fases da vida, referindo-se explicitamente o caminho de preparação para o matrimónio (205-216), o acompanhamento nos primeiros anos da vida matrimonial (217-230), as situações de crises, angústias e dificuldades (231-252) e a experiência da morte (253-258).

Por tudo isto é necessário assumir com coragem, como diz Francisco neste capítulo, que “hoje, a pastoral familiar deve ser fundamentalmentemissionária, em saída, por aproximação, em vez de se reduzir a ser uma fábrica de cursos a que poucos assistem.” (nº 230).

Texto: Juan Ambrosio/Jornal da Familía – junho 2017

Partilhar:

Facebook
Twitter
Pinterest
LinkedIn
Relacionado

Outras Notícias

Pessoas que vivem com demência

Estantes que abanam, memórias que caem, emoções que permanecem. Foi esta simples metáfora que marcou Juan Ambrosio num encontro dedicado ao tema da demência. Viver com demência é perder memórias, sim, mas é, acima de tudo, continuar a ser pessoa. E, nesse território frágil, o carinho, a presença e a ternura deixam marcas que a doença não apaga.

Ler Mais >>

O elogio milagroso

“Um elogio justo e honesto” pode ser milagroso. A convicção é da professora Goretti Valente, que em época de exames convida a redescobrir o poder de dizer “Tu podes! Tu consegues!”, para levantar ânimos, fortalecer relações e transformar ambientes.

Ler Mais >>

Família é “terreno fértil” para uma cultura do cuidado

O Vaticano publicou o documento ‘A ecologia integral na vida da família’, reafirmando que “os valores que crescem na família são o terreno fértil de onde brota a vida da sociedade”. A nova publicação, fruto do trabalho conjunto de dois dicastérios, quer ajudar as famílias a “viver melhor o cuidado da Criação e de cada pessoa”.

Ler Mais >>

Inteligência artificial e educação – Que pensar? Que fazer?

A inteligência artificial (IA) entrou na escola com as suas potencialidades, mas também com riscos que não podemos ignorar. Entre o artificial e o natural, torna-se essencial refletir sobre o lugar desta tecnologia na educação. E, sobretudo, recordar que nenhuma inovação pode substituir a relação humana que sustenta o ato de ensinar e aprender. A reflexão é do professor Carlos Campos.

Ler Mais >>