“Casados à Primeira Vista” promove uma “banalização do casamento”, diz Igreja

Coordenador da Pastoral Familiar do Patriarcado de Lisboa e professor universitário alertam: este é um programa “sem qualquer ética", que "banaliza o casamento" e promove a "instrumentalização do outro".

O padre Rui Pedro Trigo Carvalho não vê o bem que um programa como “Casados à Primeira Vista” pode trazer ao público. O formato, criado na Dinamarca e depois importado por vários outros países, como Austrália, Reino Unido, Espanha, França, entre outros, é produzido pela Shine Iberia Portugal e assume-se como uma “experiência de televisão completamente inovadora”.

O objetivo é ajudar pessoas solteiras a encontrar o “par ideal”, com a ajuda de “especialistas do mundo do ‘coaching’ e das ciências psicológicas e neurociências”.

Confiando nestes “especialistas”, os concorrentes aceitam casar com um estranho escolhido como “ideal” para eles. Depois, durante aproximadamente dois meses, os recém-casados vivem juntos. No final desta experiência, cada casal tem de tomar uma decisão: ficar casado ou pedir o divórcio.

Para o coordenador da Pastoral Familiar do Patriarcado de Lisboa, este é um programa “sem qualquer ética”, que banaliza o casamento, uma “célula fundamental da sociedade a partir da qual se formam as famílias”, transformando-o num jogo.

“É pena que o único critério das nossas televisões seja economicista, para dar audiência, para dar lucro”, lamenta o sacerdote. “Quando o critério da audiência e do dinheiro se tornam o único critério, estamos a minar bases fundamentais da nossa sociedade. O casamento é um alicerce fundamental da nossa sociedade.”

Para este responsável da Igreja, que trabalha de perto com muitas famílias, o programa da SIC promove uma “instrumentalização do outro”.

“O outro não é uma coisa, não é um eletrodoméstico que eu compro, não é como um carro. Eu posso ir a um stand e dizer ao vendedor que estou à procura de um carro com estas características. No amor, isto não tem lugar. O outro não é um objeto que eu adquiro. É um encontro de pessoas que vão crescendo nesse encontro”, considera o sacerdote.

O facto de, no fim, os concorrentes terem de escolher entre “ficar” com a pessoa que lhes calhou na sorte ou pedir o divórcio é, para este responsável da Igreja, prova disso. “Tal como eu adquiro, descarto. Tem um tempo de utilização e se não agradar devolvo”, critica.

O pe. Rui Pedro sublinha, neste ponto, que “uma pessoa não se devolve”. “Quando me entrego a alguém, entrego-me. O amor é esta entrega de vida a outro.”

Além da instrumentalização, há também uma idealização do outro que é enganadora, na opinião do pe. Rui Pedro Trigo Carvalho. “Eu caso-me com o ideal que eu criei do outro. Não me caso com aquilo que ele é, por isso, à mínima fricção, ele vai-me desiludir. E é normal, porque eu ia iludido e naturalmente desiludo-me. Se me caso com uma suposição, claro que não vai dar certo”, afirma.

No programa, o pe. Rui Pedro não vê só uma idealização do outro, mas “também uma idealização de mim mesmo”. “Quando me apresento ao outro, apresento-me com aquilo que eu gostava de ser, não como aquilo que sou realmente. Às vezes as pessoas nem têm bem consciência daquilo que são realmente”, lembra.

“Só no quotidiano da vida, na convivência, é que se revelam. Tudo o resto são ideais. Um ‘eu’ ideal, um ‘outro’ ideal, mas que não são reais. Um casamento fundado em suposições não pode dar certo.”

Para o coordenador da Pastoral Familiar do Patriarcado de Lisboa, no casamento, os especialistas são os próprios esposos. “As compatibilidades também se constroem. Há muita coisa no outro que me atrai, e muitas vezes a relação começa aí, mas depois também há coisas que não me atraem. Eu sou chamado a amar isso, aquilo que não me atrai. Essa é a base de um casamento, a aceitação do outro”, diz.

O padre e professor Ismael Teixeira considera mesmo o programa “ridículo”. “É brincar aos casamentos e aos divórcios. Juntar duas pessoas desta forma, há 90 e tal por cento de hipóteses de a coisa dar para o torto e dar em divórcio. É um casamento com divórcio anunciado”, diz à Renascença

O sacerdote, que tem formação em Psicologia e “coaching”, diz que os “especialistas” que entram neste programa não podem ser profissionais sérios. “Muitas vezes nas relações em dificuldade, os profissionais, os psicólogos, os psicoterapeutas, os “coaches”, têm um papel muito importante, ajudam de facto a que as relações melhorem e voltem a ser reforçadas”, diz o padre. “Mas têm de ser profissionais que não queiram brincar ao amor, fazer das relações uma brincadeira, um jogo”.

“Não vale tudo, o que é que vale a um homem ganhar um mundo inteiro?”, questiona o pe. Ismael. “Estas pessoas são bem pagas, estão a ser compradas para dar força ao programa”, considera.

O padre Rui Pedro Trigo Carvalho considera que “Casados à Primeira Vista” descredibiliza altamente o papel do psicólogo, “como se fosse uma espécie de guru, de cartomante”.

“Não é essa missão do psicólogo. Quando muito, o psicólogo pode-me ajudar a discernir, não me pode substituir. No programa, os concorrentes abdicam do seu discernimento para entregarem isso a outros”.

Ao público católico, os dois padres apelam ao sentido crítico. Ismael Teixeira aconselha todos a não verem o programa, a “criticarem esta brincadeira, a não calarem a voz”. E a seguirem a doutrina da Igreja, que é claramente contra “experiências” desta natureza.

Já o padre Rui Pedro lembra que “nós também somos aquilo que consumimos. Tal como na comida aquilo que como me faz mal, também aquilo eu vejo pode fazer mal. Não sou indiferente àquilo que vejo”.

“Não me cabe a mim dizer se devem ou não ver mas sei que isto é verdade. Este tipo de programas, aos poucos, vão banalizando também a consciência que temos do próprio casamento”, remata.

Fonte: Rádio Renascença

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