Deixar o prato vazio

Grande parte dos problemas ambientais resulta dos hábitos de consumo. Carlos Campos reflete sobre o desperdício alimentar na edição de maio do Jornal da Família.

As perdas de bens alimentares a nível mundial atingem anualmente cerca de 1,3 mil milhões de toneladas. A quantidade de perdas divide-se em partes quase iguais entre os países em vias de desenvolvimento e os países industrializados, mas por razões diferentes. Nos países em vias de desenvolvimento, as perdas ocorrem entre a produção e o retalho, devido ao atraso das técnicas agrícolas, à falta de meios de transporte e armazenamento eficientes, de embalagem, de rede de frio e também devido aos conflitos armados e à corrupção. Nos países industrializados, há também uma parte significativa de perdas que ocorre na fase do retalho e do consumo. Em palavras simples: os consumidores desperdiçam e deitam fora parte dos bens alimentares que compram. Todos os anos, os consumidores dos “países ricos” desperdiçam 222 milhões de toneladas de alimentos, estima a FAO, a organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação. Para termos uma ideia do eu essa quantidade representa, basta dizer que é quase tanto quanto toda a produção alimentar na África subsariana (230 milhões de toneladas).

Sobre esta realidade, há várias reflexões a fazer. Em primeiro lugar, destaca-se a situação de desigualdade entre os dois mundos. Nos “países pobres”, o problema está sobretudo na produção, na logística, na economia e na política. O consumo de alimentos é da ordem dos 460 kg/hab/ano. A densidade populacional é mais elevada e existe fome. Os “países ricos” têm o dobro do consumo capita – 900 kg/hab/ano. Apesar de terem tecnologias e economias mais desenvolvidas, estes países têm perdas entre a produção e o retalho similares (em kg per capita) às dos “países pobres” e ainda se dão ao luxo de desperdiçar anualmente 95 a 115 kg/hab de alimentos nas etapas do retalho e do consumo. Se aplicarmos estes números a Portugal, podemos estimar que em cada semana desperdiçamos 20 000 toneladas de alimentos nas nossas lojas e nas nossas casas!

Em segundo lugar, deveremos considerar o duplo impacto ambiental das perdas de bens alimentares: no ser humano e nos recursos naturais. A coexistência de perdas e desperdícios de alimentos com a fome é inaceitável sob todos os pontos de vista. Por uma fração do que se gasta na apresentação (merchandising) de alimentos que vão ser desperdiçados, seria possível financiar programas de erradicação da fome. Por outro lado, o desperdício de alimentos traduz-se num consumo inútil de recursos naturais (água, terra, energia) e humanos (trabalho, capital, tecnologia) e num acréscimo evitável de danos ambientais (poluição, emissões de gases com efeito de estufa). Em palavras simples: cada vez que desperdiçamos comida estamos a contribuir para as alterações climáticas…

Em terceiro lugar, deveremos reconhecer que o problema das perdas alimentares é, nos países industrializados, um dos resultados da chamada “cultura do descarte”, do “usar e deitar fora”. Nos “países ricos”, as normas de qualidade (que são necessárias) tendem a sobrevalorizar a aparência e levam por vezes a descartar produtos só porque não têm a mesma aparência (dimensão, côr, etc.). Os consumidores “ricos” optam por comprar a mais e deitar fora o que sobra… Neste contexto “culpar o crescimento demográfico em vez do consumismo desenfreado e seletivo de alguns é uma forma de não enfrentar os problemas” (Papa Francisco, Carta Encíclica Laudato Si sobre o Cuidado da Casa Comum, 50).

Para mudar este estado de coisas, são necessárias vontades e ações determinadas no sentido de tornar a produção, a tecnologia e a logística mais eficiente. “É preciso que as sociedades tecnologicamente avançadas estejam dispostas a favorecer comportamentos caraterizados pela sobriedade” (Bento XVI, Mensagem para o Dia Mundial da Paz de 2010, 9). “Chegou a hora de aceitar um certo decréscimo do consumo em algumas partes do mundo, fornecendo recursos para que se possa crescer de forma saudável noutras partes” (Papa Francisco, Carta Encíclica Laudato Si sobre o Cuidado da Casa Comum, 193).

A revolução começa em cada consumidor, ou seja, nos hábitos de cada pessoa e de cada família. O consumidor da era do descarte tem mais olhos que barriga. Gasta dinheiro até ficar obeso e gasta dinheiro para emagrecer. Vêm a propósito exemplos como a austeridade de São Francisco ou as regras de jejum e abstinência, que também podem ter um “novo” sentido ecológico”. Afinal, jejuar não é só exibir o cumprimento de uma regra. É “aprender a modificar a nossa atitude para com os outros e as criaturas: passar da tentação de «devorar» tudo para satisfazer a nossa voracidade, à capacidade de sofrer por amor, que pode preencher o vazio do nosso coração” (Papa Francisco, Mensagem para a Quaresma de 2019).

Na minha infância, quando me ensinaram a servir o meu próprio prato, deram-me uma regra simples: tudo que puseres no prato é para comer. Ossos e espinhas à parte, a regra continua a fazer sentido.

Carlos Campos 
Advogado

(Artigo da edição de maio de 2019 do Jornal da Família)

Partilhar:

Facebook
Twitter
Pinterest
LinkedIn
Relacionado

Outras Notícias

O amor no matrimónio: entre a beleza e os desafios

O Capítulo IV da ‘Amoris Laetitia’ ganha vida na voz de João dos Santos Silva e de Maria Margarida Bogalheiro, que revelam um matrimónio construído na entreajuda diária, na amizade e na fé que lança “uma corda” quando “o barco está a afundar”. Há dias que “não são fáceis” e reconhecem que já se deitaram “sem fazer as pazes”. Mas o amor salva o matrimónio.

Ler Mais >>

A Grandeza da Pessoa Humana

A ‘Magnifca Humanitas’ convoca-nos para a “apaixonante missão de dar forma ao nosso tempo”, afirma Juan Ambrosio na análise que faz da primeira Encíclica do Papa Leão XIV. Para o professor de teologia da Universidade Católica Portuguesa o documento papal convida-nos a construir uma história onde “a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justiça seja promovida e a fraternidade seja possibilitada”, onde “o progresso deve estar ao serviço da pessoa e nunca contra ela”.

Ler Mais >>

A secularidade consagrada vivida no coração do mundo secularizado como presença da Igreja sinodal

Num tempo em que a fé parece afastar-se do espaço público, a secularidade consagrada emerge como um sinal discreto da presença da Igreja no coração da sociedade. Vivendo plenamente inseridos nos ambientes profissionais, culturais e familiares, os consagrados seculares tornam visível uma Igreja sinodal que escuta, dialoga e participa ativamente na construção de um mundo mais humano.

Ler Mais >>