Este é o tempo…

Para um desenvolvimento sustentável. A família no centro da transmissão de novos estilos de vida às novas gerações. A reflexão de Juan Ambrosio.

As campainhas de alerta já soam por todos os lados e são cada vez menos, se bem que ainda haja vozes que gritam muito alto, aqueles que não reconhecem a evidência das alterações climáticas. Dizem os especialistas que estas alterações se irão intensificar e acelerar. Dizem também que elas acabarão por ter consequências drásticas nos nossos estilos de vida. E o tempo parece estar a esgotar-se. Ou começamos agora a mudar os nossos estilos de vida ou já não iremos a tempo de evitar as graves consequências para a vida no planeta terra, a nossa casa. E como sempre os que mais sofrerão com isto – já estão a sofrer – serão os mais pobres.

Em 2015, com a Encíclica Laudato si’, o papa Francisco lançava um apelo profético:

“O urgente desafio de proteger a nossa casa comum inclui a preocupação de unir toda a família humana na busca de um    desenvolvimento sustentável e integral, pois sabemos que as coisas podem mudar. O Criador não nos abandona, nunca recua no seu projeto de amor, nem se arrepende de nos ter criado. A humanidade possui ainda a capacidade de colaborar na construção da nossa casa comum.” (nº 13) 

Desde então para cá a sua voz nunca mais se deixou de ouvir nesse sentido, apelando constante e veementemente para a necessidade de mudanças de estilos de vida, promovendo a reflexão, o diálogo e o encontro para procurar aquelas soluções que permitam um desenvolvimento sustentável e integral.

Ainda na recente mensagem para a celebração do dia mundial pelo cuidado da criação (1 de setembro) volta a lembrar insistentemente:

“Este é o tempo para voltar a habituarmo-nos a rezar imersos na natureza, onde espontaneamente nasce a gratidão a Deus criador.”

“Este é o tempo para refletir sobre os nossos estilos de vida, verificando como muitas vezes são levianas e danosas as nossas decisões diárias em termos de comida, consumo, deslocação, utilização da água, da energia e de muitos bens materiais.”

“Este é o tempo de empreender ações proféticas.”

Na linha destes gestos proféticos incluo o Sínodo pan-amazónico que irá decorrer de 6 a 27 de outubro naquela região. O título do mesmo – Amazónia: novos caminhos para a Igreja e para uma Ecologia Integral – disso nos dá clara conta. 

O instrumento de trabalho distribuído a todos os participantes também não deixa, a este propósito, margem para dúvidas:

“Uma Igreja profética é aquela que ouve os gritos e cantos de dor e de júbilo. O cântico revela as situações dos povos, ao mesmo tempo que inspira e intui possibilidades de solução e transformação. […]. Em síntese, uma Igreja profética na Amazônia é aquela que dialoga, que sabe procurar acordos e que, a partir de uma opção pelos pobres e de seu testemunho de vida, busca propostas concretas a favor de uma ecologia integral. Uma Igreja com capacidade de discernimento e audácia face aos atropelos dos povos e à destruição de seus territórios, que responda sem demora ao clamor da terra e dos pobres.” (nº 42)

Este é mesmo o tempo que temos disponível para, com gestos proféticos, mudarmos os nossos estilos de vida. E, neste campo, as famílias têm um lugar absolutamente indispensável, pois esses novos estilos de vida têm de ser transmitidos também às novas gerações, como garantia do desenvolvimento sustentável e integral que precisamos construir.

A mensagem atrás referida termina exatamente nesse sentido, desafiando cada um a realizar já o bem que é preciso, sem esperar que sejam outros a começar, porque este é o tempo…

“Cada fiel cristão, cada membro da família humana pode contribuir para tecer, como um fio subtil, mas único e indispensável, a rede da vida que a todos abraça. Sintamo-nos implicados e responsáveis por tomar a peito, com a oração e o compromisso, o cuidado da criação. Deus, amante da vida (cf. Sb 11, 26), nos dê a coragem de realizar o bem, sem esperar que sejam outros a começar, sem esperar que seja demasiado tarde.”

Juan Ambrosio
juanamb@ft.lisboa.ucp.pt

Artigo da edição de outubro do Jornal da Família

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