A pandemia como tempo de aprendizagem

“A epidemia tornou claro que a nossa independência, a nossa liberdade é interdependência mútua”. Octávio Morgadinho na edição deste mês do Jornal da Família.

“Há nos homens mais coisas a admirar do que coisas a desprezar”. Adotei este dito como expressão duma crença, dum valor que enforma o otimismo das minhas relações humanas, do meu encontro com o outro com quem partilho o mesmo espaço social e enfrento o mesmo destino radical na convivência diária. 

Sabia que o tinha colhido numa das minhas leituras. Tive agora oportunidade de retornar à sua origem, localizar a sua procedência e contexto. O despertar da presente epidemia evocou a curiosidade de voltar a um livro que me marcou e, pensei, poder ajudar-me a situar reflexivamente numa situação que deixou de ser apenas imaginária e se tornou experiência que me afeta pessoalmente, todos os que me envolvem e se sentem ameaçados na sobrevivência pessoal, estilo de vida e confiança nas instituições da sociedade e desafia a tomar opções que a consciência da instabilidade e imprevisibilidade do próximo futuro impõem. Trata-se de A Peste de Albert Camus ( La Peste, 1947, Paris, Éditions Gallimard). 

Ao concluir a sua re-leitura, deparei com a justificação do Dr. Rieux para escrever a crónica dos acontecimentos que ele e seus amigos partilharam por ocasião da peste que assolou Oran então cidade francesa da costa argelina. O Dr. Rieux é o protagonista (fictício) a quem Albert Camus atribui a redação da crónica (fictícia) da trama do livro. Escreveu esta crónica, confidencia ele, “para testemunhar a favor destes pestíferos, para deixar pelo menos uma recordação da injustiça e da violência que lhe tinham sido feitas, e para dizer simplesmente o que aprendemos no meio dos flagelos, que há nos homens mais coisas a admirar do que coisas a desprezar” (p.331). 

Lera La Peste, há mais de sessenta anos, no tempo da minha formação. Mergulhara então em força na leitura de romances para encontrar, nas ”variantes imaginativas” da literatura de ficção uma aproximação alternativa da realidade humana e da experiência concreta das situações de vida e das pessoas que nelas participam. Nessa altura procurava confrontar-me com outras experiências de fé e testemunhos de compromissos que, diferentemente motivados, correspondessem a idêntica procura de realização pessoal e exercício da responsabilidade cívica na relação solidária com o outro, meu próximo, na construção duma sociedade mais de acordo com os valores humanos que partilhava e partilho. 

Nunca me interessaram as discussões teóricas dos diversos “ismos”, nem me mobilizaram as ideias abstratas de “Humanidade”, de “Homem” e dos “ideais”, doutrinas e utopias em seu nome. Fui mais sensível às interpelações e testemunhos vividos de “personagens” de histórias à minha dimensão com quem convivi e alguns admirei. A minha fé, as minhas convicções e prática dos valores foi sempre e continua a ser questionante, relacional, dialogante com os que põem idênticas perguntas ou dúvidas que possam contribuir para esclarecer as minhas e se comprometem em práticas que me interpelam e são testemunho vivo e desafiante ao exercício da minha missão e responsabilidade social. 

Nesse diálogo encontrei como interlocutores na vida real aqueles que viviam semelhantes preocupações, que enfrentaram comigo situações semelhantes ou dependiam da minha responsabilidade educativa e partilharam decisões e compromissos. Foram sempre também companheiros os modelos imaginários das biografias que li, das personagens bíblicas – algumas também imaginárias, descobri – dos filósofos e santos, com relevo para os contemporâneos cujas vivências, dramas e problemáticas foram mais próximas. Nessa galeria se inserem personagens de romances, de teatro e cinema que me ofereceram “variantes imaginárias”. Foram aproximações alternativas da realidade que constituíram modelos experimentais e referência para responder com o necessário distanciamento crítico às situações que defrontava. 

Quando li pela primeira vez A Peste estava longe de imaginar que voltaria à sua leitura motivado por uma situação real de peste. O romance aproximou-me agora da realidade que estamos a viver, da alteração da normalidade das situações, para ser mais preciso, da nova normalidade e formas de relacionamento que estão surgindo no confronto direto com os problemas existenciais da fragilidade humana, da proximidade iminente do sofrimento e da morte. Há em A Peste personagens e situações a que gostei de voltar porque continuam a ser referência e me ajudam hoje a confrontar com a mudança de situações e reações, de padrões de atitudes e valores. 

As epidemias fazem parte da experiência histórica da humanidade. Há um conhecimento empiricamente adquirido e tradicionalmente transmitido que ajuda a lidar com elas, a detetar os seus sintomas, o processo de transmissão e terapia. O processo de defesa que se considerou no presente surto mais eficaz e determinante, o confinamento social, é o mais antigo. Em cada epidemia manifestam-se processos idênticos que ajudam a lidar com ela e aspetos específicos como a sua natureza, origem e terapia própria que obrigam a procurar os meios mais adaptados de combate eficaz. As epidemias são simultaneamente esperadas e temidas como ameaça. Mudou o enquadramento da sociedade medieval, mas o pânico que invadiu a nossa sociedade tecnológica na eclosão da atual epidemia partilha da mesma irracionalidade, desorientação, sentimento de impotência e medo da morte das epidemias que deixaram rasto na história. 

A peste, a epidemia não está hoje confinada a uma cidade ou região. A mobilidade, a facilidade de deslocações e multiplicidade e variedade de relações, a dimensão e a complexidade das nossas cidades, contactos e ocupações, a interdependência e partilha de atividades implicadas no exercício da profissão, ocupações e responsabilidades sociais tornou praticamente impossível isolar os indivíduos, controlar e barrar os processos de contágio, personalizar e monitorizar a aplicação das terapias tradicionais aprendidas nas múltiplas pestes e epidemias da história. 

A epidemia tornou-se pandemia, ameaça global, galopante, universal que nivela todos os seres humanos e os confina na dependência mútua. Todos somos ameaça para todos, todos nos defendemos, defendendo os outros, defendendo-nos dos outros. Todos dependemos de todos qualquer que seja a condição, poder, estatuto social e económico. A minha sobrevivência, não obstante as variáveis pessoais, depende daquilo que o outro faz por mim, protegendo-se a si próprio. A epidemia tornou claro que a nossa independência, a nossa liberdade é interdependência mútua. 

Octávio Morgadinho – Edição de maio do Jornal da Família

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