O regresso… para crescer e brincar ao ar livre

Foi uma adaptação e uma reinvenção de espaços e conteúdos pedagógicos. A pandemia veio alterar as dinâmicas no Centro de Cooperação Familiar, O Botãozinho, em Carcavelos.

Primeiro chegaram os mais pequenos e só mais tarde os mais velhos. As várias etapas estabelecidas para o desconfinamento gradual  trouxeram primeiro os meninos da Creche e só duas semanas depois os meninos do Pré-escolar. Mas nada voltou a ser como antes. 

No Centro de Cooperação Familiar (CCF), o Botãozinho, em Carcavelos, a cargo das Cooperadoras da Família, definiram-se “zonas limpas” e corredores de “zonas sujas”. Aproveitaram-se todos os espaços exteriores e a Creche e o Pré-escolar passou , sempre que possível, a ser ao ar livre, com menos risco de contágio.

Às primeiras horas da manhã começam a chegar as primeiras crianças. A todas é medida a temperatura e os sapatos não entram. Também  os pais deixaram de poder entrar nas chamadas “zonas limpas” onde circulam as crianças. 

Os colaboradores entram por outro espaço e são submetidos ao mesmo processo: medição de temperatura, mudança de calçado antes de entrarem, passagem pelo tapete de desinfeção e claro… todos com máscara. 

Já antes as Educadoras tinham pedido aos pais que familiarizassem  as crianças com este novo acessório. Na hora de voltar  à escolinha tudo correu muito bem. “As crianças não deram importância às máscaras e todas nos reconhecem facilmente”, conta a Educadora Isabel Pereira. 

“No início estávamos com alguns receios. Um misto de preocupação e alegria por, passados dois meses, irmos receber as crianças. Mas tem corrido tudo muito bem”, explica a Cooperadora Maria dos Prazeres Teixeira, Diretora do Centro de Cooperação Familiar.

Redefiniram-se espaços e métodos de trabalho. Agruparam-se as crianças por faixas etárias e dividiram-se pelos vários pátios ao ar livre. Para explorar a diversidade de espaços, todas as semanas, cada grupo de crianças, muda de espaço. Apenas as crianças da Creche ficam sempre no mesmo local. “Cada espaço tem as suas particularidades e eles assim podem desfrutar de todos os meios que a instituição tem e das potencialidades de cada local”, afirma Prazeres Teixeira.

Sair de uma dinâmica de sala para uma dinâmica ao ar livre exigiu criatividade à equipa educativa do Centro de Cooperação Familiar mas o projeto educativo para este ano intitulado “Crescer e brincar ao ar livre” veio facilitar o processo. “É o  reinventar a brincadeira de rua, brincar com as chamadas tralhas, com as madeiras, os paus, os panos, brincar com terra, com areia. É, no fundo, desconstruir o brinquedo, desconstruir a brincadeira e promover a criatividade”, explica Filomena Santos Silva, psicóloga do CCF. 

Por entre os vários espaços as crianças metem literalmente as mãos na terra, em areia, na madeira, em pequenas pedras e muitos outros materiais com os quais vão desconstruindo e construindo o seu próprio mundo. 

O jardineiro da casa transformou paletes e  com a ajuda da Cooperadora Custódia, que aos 92 anos ainda forrou os colchões,  transformaram-se as paletes em autênticos sofás  que proporcionam bibliotecas ao ar livre onde agora os meninos folheiam os livros. “Os meninos chegam,  ficam lindamente e estão muito felizes”, conta Filomena Santos Silva.

Num ambiente em que tudo se passa no exterior, inclusive as refeições, há quem tenha saudades da sala de aula, por isso os espaços estão pautados por algumas mesas onde se fazem desenhos ou por cavaletes onde os artistas da casa vão construindo as suas obras de arte por baixo das sombras das árvores. “Às  vezes vamos com pequenos grupos às salas porque eles têm muitas saudades. Ao início nós dizíamos que íamos à sala quando chovesse. Ao terceiro dia eles já estavam a pedir para chover”, conta a Educadora Paula Cunha. Mas as educadoras tentam explicar que brincar ao ar livre é a melhor solução para eles não ficarem doentes.

“O que nós tentámos foi fazer grupos que estão sempre juntos e  nunca se juntam com outros grupos, de maneira que se  houver algum caso num grupo seja  possível isolar só esse grupo, não havendo necessidade de fechar toda a escola”, explica Filomena Santos Silva.

Toda a metodologia foi discutida com os pais, que ainda em período de confinamento acompanharam todo o processo com a equipa educativa. Agora é com confiança que aqui vêm deixar os filhos. “Sinto que estão reunidas todas as condições de segurança. Fizeram um esforço enorme para se reinventarem e as crianças têm todas as condições para estarem aqui”, afirmou o pai Bruno Costa ao deixar diariamente três filhos nesta instituição.

Com a abertura da Creche, a 18 de maio, o Botãozinho recebeu apenas 10% dos meninos inscritos mas os números têm vindo a aumentar. A 1 de junho começaram a  chegar os meninos do Pré-Escolar e na segunda semana de abertura já havia entre 60 a 70% dos inscritos. Em agosto, e pela primeira vez, “O Botãozinho” vai continuar de portas abertas para acolher as crianças cujos pais, devido aos constrangimentos da pandemia, tiverem de trabalhar no mês de agosto. Em setembro “O Botãozinho” espera ter de regresso todas as crianças.

Artigo da edição de julho do Jornal da Família

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