A família é uma força

Juan Ambrosio continua a reler os artigo do Jornal da Família de há 60 anos. E não para de encontrar temáticas que traçam linhas de leitura para o momento atual.

O título que encabeça estas linhas é copiado de um artigo da primeira página do nº 6 (1962) do nosso Jornal, que começava assim:

“Andam os homens dos governos preocupados com muitos problemas e está bem, porque a vida moderna é complicadíssima e as coisas surgem de muitos lados e por muitas razões.”

É obvio que o parágrafo tem a marca do tempo, e, certamente, hoje, não o teríamos escrito assim. Mas, apesar disso, a temática para que aponta, se bem que na altura se revestia de contornos diferentes, continua a traduzir bem o momento atual. Para todos nós é hoje evidente como os governantes de todo o mundo tentam lidar com esta situação absolutamente extraordinária em que nos encontrámos, e que traduz bem a complexidade das sociedades que fomos construindo, bem como a complexidade dos nossos estilos de vida. Cada um parece viver centrado nos seus interesses (indivíduos e nações) e, no entanto, a interligação de tudo aparece-nos como uma evidencia que é impossível negar.

A este respeito não posso deixar de destacar aqui a reflexão que o papa Francisco faz na Encíclica Laudato Si (2015), insistindo, com veemência, no facto de tudo estar interligado. Essa insistência, que na altura aparecia já bem sustentada pela realidade, revela-se agora ainda mais atual e premente. No momento em que, por proposta do próprio Francisco, nos encontramos já a celebrar o ano Laudato Si não podemos ignorar esta realidade. Os desafios que temos pela frente terão de ser enfrentados em conjunto, como uma só família humana, se quisermos verdadeiramente encontrar um outro rumo.

Nesse horizonte a família deve ser promovida, acarinhada e sustentada, como um dos pilares nos quais essa comum família humana, poderá encontrar as forças necessárias, para levar a bom porto a enorme tarefa que tem pela frente.

E volto de novo 60 anos atrás para reler o artigo que me guia:

“Daí os cuidados que está a merecer aos responsáveis a família, pois é lá que se passa uma grande parte da vida dos homens e o que o homem vive na família marca-o pela vida fora.”

Confesso que não estou totalmente certo de que esta seja uma das preocupações centrais dos responsáveis das nações. É verdade que os discursos e as proclamações, com frequência, referem a família, mas, depois, vemos como as concretizações acabam por perder esse foco. 

A situação que ainda estamos a viver foi deixando claro a importância da vida e da solidariedade. Foi por causa da vida que se parou praticamente tudo aquilo que não era indispensável à vida. Nesse sentido foi bom ver como o critério central foi a vida das pessoas, Foi também bom ver, apesar de tanta incerteza e sofrimento, como as redes de solidariedade se fortaleceram por causa dessa mesma vida das pessoas, Essa centralidade não pode agora ser posta de lado, quando de novo queremos retomar as atividades paradas. A economia, de facto, não pode parar e tem de ser revitalizada. Mas os critérios para presidir a essa retoma, têm de estar centrados nas pessoas.

Aqui reside a força da família, que não deveria ser esquecida. Durante este tempo, apesar das muitas dificuldades e das tensões que certamente existiram, o lar e o núcleo familiar revelaram-se como suportes de vida absolutamente fundamentais. De repente a orientação quase que se inverteu. Fazíamos muitas coisas para depois podermos viver em família, acabando por ocupar, no entanto, mais tempo e despender mais energias nessas muitas coisas. Agora a vida em família revelou-se como pilar e verdadeira razão de ser dessas muitas outras coisas.

É muito importante que nas decisões urgentes que temos de tomar para revitalizar a vida das pessoas não percamos este foco. Temos de abrir fronteiras, revitalizar a economia, ajudar as empresas, promover o turismo, fortalecer o emprego, reforçar todos aqueles setores que são mesmo importantes para a nossa vida, mas não podemos deixar de sublinhar a centralidade das pessoas. Nessa linha a família deveria igualmente de estar no centro das preocupações dos governantes e de todos os que, neste momento, são chamados a tomar decisões, muitas das quais não serão certamente fáceis.

Destacar esta centralidade e chamar a atenção para ela tem de continuar a ser hoje, como o tem sido desde o início, uma das razões de ser deste Jornal.

Juan Ambrosio
juanamb@ft.lisboa.ucp.pt
Artigo da edição de julho do Jornal da Família

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