A ação concreta e a dinâmica familiar

“A dinâmica familiar pode ter um efeito multiplicador da eficácia de escolhas mais amigas do ambiente”, afirma Carlos Campos na rubrica “A Terra e os Homens” na edição de novembro do Jornal da Família.

Quanto mais globais são os problemas, maior a necessidade da ação concreta local e pessoal. Quando ouvimos falar de alterações climáticas, de alarme ambiental, devemos pensar não só no que deve ser feito ao nível dos governos e das organizações, mas também no que podemos e devemos fazer no nosso dia a dia. Os problemas do ambiente estão ligados com os problemas sociais, como a pobreza, a exclusão e o desemprego. E todos esses problemas estão em risco de agravamento com a crise sanitária da COVID-19.

A ação concreta deve ser pensada e planeada ao nível individual e familiar. A dinâmica familiar pode ter um efeito multiplicador da eficácia de escolhas mais amigas do ambiente. Alguns exemplos concretos: evitar o desperdício de alimentos, racionalizar os consumos de água e energia, separar os resíduos de forma a aumentar a reciclagem, etc..

Hoje já possível e relativamente fácil verificar periodicamente os consumos de água e eletricidade, e estabelecer objetivos de redução, sem deixar de usufruir do que é necessário. As torneiras deixadas abertas desnecessariamente, as luzes acesas em salas vazias, etc. representam um potencial de poupança significativo. Reduzir estes consumos beneficia a economia familiar, faz bem ao planeta e até pode permitir criar um mealheiro para gestos de solidariedade…

Se a dinâmica familiar pode favorecer o ambiente, a inversa também é verdadeira: o planeamento de medidas concretas de economia, de reciclagem e de redução favorece a dinâmica familiar e pode gerar cumplicidades que unem gerações. Só o facto de a causa ambiental ser motivo de diálogo da família já é positivo. Outra possibilidade a explorar é a do conhecimento. Para fazer escolhas, para definir as medidas e os comportamentos mais amigos do ambiente, é preciso procurar informação e fundamentação. Isso significa que preocupação com o ambiente pode e deve ser um incentivo para a educação e a cultura. Na nossa sociedade, há muitas formas de desperdício. Também se perde tempo e faculdades pessoas com temas frívolos, rumores, escândalos e toda a espécie de inutilidades…

Por vezes, somos levados a pensar que a ação ambiental é conservadora por natureza e avessa à inovação e à tecnologia. No entanto, se pensarmos melhor, o que se passa é o contrário: para defender a Terra e o Ambiente, é necessário transformar as pessoas e a sociedade. As pessoas e as sociedades devem ser solidárias, não devem deixar ninguém para trás, nem devem construir muros. Já não há lugar para dúvidas: a defesa do ambiente, a erradicação da pobreza e a exclusão deixaram de ser causas ideológicas – são imperativos éticos confirmados pela ciência. A ideia de que “a pobreza é inevitável” é um disparate. Há muito que os economistas constataram e demonstraram que a erradicação da pobreza é um objetivo alcançável (O livro “The End of Poverty”, de Jeffrey Sachs, economista do Banco Mundial, foi publicado em 2005). 

A economia ainda vive demasiado amarrada à ideologia da tonelada e do descarte e é hoje vítima das assimetrias do crescimento e das ameaças ambientais. Os imperativos sociais e ambientais não podem continuar a ser “externalidades”. Devem ser incorporados, “internalizados” na nossa vida diária e nas políticas económicas. Como disse o Papa Francisco numa comunicação recente (10 de outubro), “a própria economia não pode ser limitada à produção e distribuição. Deve necessariamente considerar o seu impacto sobre o meio ambiente e a dignidade da pessoa. Poderíamos dizer que a economia deve ser criativa em si mesma, nos seus métodos, no modo como atua. Criatividade. Gostaria de vos convidar a empreender juntos uma viagem. Uma viagem de transformação e de ação. Feita não só de palavras, mas sobretudo de ações concretas e inadiáveis… Mas o objetivo é claro: construir, na próxima década, um mundo onde possamos responder às necessidades das gerações presentes, incluindo todos, sem comprometer as possibilidades das gerações futuras”.

A resposta a este convite bem pode ser dada ao nível pessoal e familiar. Escolher o que é importante (a vida, a dignidade humana, a educação e a cultura), economizar, ser solidário e precaver o futuro – eis os termos simples da ecologia global, que podem ser aplicados nas nossas rotinas domésticas.

Carlos Campos
Artigo da edição de novembro do Jornal da Família

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