“É na minha vida que realizo a minha missão” – Sandra Sousa

Procura viver de forma a que a sua “presença não seja notada” mas que a sua ausência “seja sentida”. Sandra Sousa tem 41 anos, 19 dos quais de entrega ao Instituto Secular das Cooperadoras da Família.

Procura viver de forma a que a sua “presença não seja notada” mas que a sua ausência “seja sentida”. Sandra Sousa tem 41 anos, 19 dos quais de entrega ao Instituto Secular das Cooperadoras da Família.  A história de um vocação no âmbito do Dia do Consagrado que a Igreja celebra a 2 de fevereiro.

Jornal da Família (JF)  –  Como começou a sua vocação e porquê o Instituto Secular das Cooperadoras da Família?

Sandra  Sousa (SS)  Olhando para trás, nasci e cresci numa família cristã, repleta de valores. Tive uma infância e juventude “normal” inserida na minha comunidade cristã, que me recebeu no dia do meu batismo e me acompanhou e fez crescer na Fé. O Senhor de “mansinho”, com muita ternura, ia poisando em mim o seu olhar de Amor, ia-me conduzindo onde me queria levar. Os caminhos de Deus são autênticos Mistérios de Amor. Ao longo da minha juventude, inserida num grupo de jovens, vive momentos de convívio, de partilha, de escuta, de oração, únicos. Mas à medida que participava sentia que a minha missão não estava completa, sentia que Deus me pedia mais, por outro lado também me sentia muito fraca. No meio deste emaranhado de dúvidas, incertezas, rezei, rezei e fui compreendendo que o Senhor apenas me queria fazer feliz. Ao mesmo tempo entendi que só poderia ser feliz ao (procurar) escutar a sua vontade sobre mim.

Fui caminhando de coração aberto, procurando estar atenta aos sinais. A dada altura, senti que Deus me tocou e com a Sua voz doce me segredou: “Sandra amo-te e preciso de ti”. Como precisei de Maria, de Pedro, de J. Paulo II, e tantos outros, preciso de ti. Também tu queres ser canal para Me levares a outros? Preciso de ti, aceitas o convite? Não quis acreditar no que sentia. Sentia-me tão pequena, tive medo, lutei, resisti, afastei-me e quis mesmo fugir. Tudo era desculpa para não escutar: porquê eu? Não sou capaz, etc. Mas a Sua voz continuava a queimar dentro. O tempo foi passando e ia vivendo a minha vida de cada dia, e a Sua voz continuava a queimar dentro. Mas como? Onde me queres Senhor? Procurei quem me ajudasse, fui vendo, lendo, etc.

Um dia chegou-me às mãos uma homilia do papa João Paulo II noVII Fórum Internacional da Juventude, de 17de agosto de 2000.

“3. No Evangelho que há pouco escutámos, o Ressuscitado faz a Pedro a pergunta que determinará toda a sua existência:  “Simão, filho de João, tu amas-Me?” (Jo 21, 16). Jesus não lhe pergunta quais são os seus talentos, os seus dons, as suas competências. Nem sequer pergunta àquele que pouco antes O tinha traído, se de agora em diante Lhe será fiel, se já não vai vacilar. Pergunta-lhe a única coisa que conta, a única que pode dar fundamento a um chamamento:  tu amas-Me?

Hoje, Cristo dirige a mesma pergunta a cada um de vós: tu amas-Me? Não vos pergunta se sabeis falar às multidões, se sabeis dirigir uma organização, se sabeis administrar um património.

Pede-vos que O ameis bem. O resto virá como consequência. Com efeito, caminhar nas pegadas de Jesus não se traduz imediatamente em coisas a fazer ou a dizer, mas antes de tudo no facto de O amar, de permanecer com Ele, de O acolher completamente na própria vida.”

O texto parecia responder a todas as minhas questões. A pergunta me desarmou por completo: “Amas-Me?”

Em agosto de 2002, disse Sim a Deus no Instituto Secular das Cooperadoras da Família.

Na vida nada acontece por acaso. O Instituto porque, mesmo sem saber nada sobre as cooperadoras da família, me atraiu a alegria, o acolhimento, a discrição, toda a forma de viver. 

JF– O facto de ser um Instituto de vida consagrada que permite conciliar a missão com o desempenhar de uma profissão na sociedade influenciou a sua escolha?

Completamente. Poder ser um sinal, junto dos “meus”, deixar uma marca, é um desafio gigante e duma beleza extraordinária. Sem nada mudar de lugar, tudo muda. Poder viver em pleno mundo, procurando com a minha simples existência colaborar para o crescimento e progresso do mundo, conforme a vontade de Deus, com os homens do hoje, acolhendo, amando, servindo…

JF– Como concilia a sua missão de Cooperadora com a sua missão como profissional? 

A missão é uma só. É na minha vida que realizo a minha missão. Profissionalmente trabalho na administração de uma empresa e é lá que sou chamada a ser um testemunho. No meio dos colaboradores, com clientes e fornecedores, na comunidade. É na forma de ser, de estar e de agir com rigor e inteireza. É procurar ser um canal: levar os homens a Deus e trazer Deus aos homens. Procuro fazer a diferença nas pequenas coisas. Viver de forma que a minha presença não seja notada, mas a minha ausência seja sentida. Peço que Deus lance sobre mim o Seu olhar, para que eu possa realizar o meu ideal, colocando todos os meus dons ao serviço da construção da vida e da esperança.

JF–  Quais são os principais desafios que, na sua opinião, se colocam às Cooperadoras da Família no presente e no futuro próximo.

SS– Hoje são muitos os desafios que colocam à família. Ora se o centro da nossa missão é a família, para ela dirigimos o nosso olhar. 

Desde o nascer ao pôr-do-sol da existência. Hoje são muitos os obstáculos que a vida diária apresenta às famílias. Em palavras simples, para mim, é preciso re-cor-dar à família e à sociedade quem (a família) é. O ser humano precisa de (re)aprender a Amar, para se sentir amado e ser capaz de amar. Penso que temos de voltar ao início. Trazer à família a experiência do berço, do acolher, do colo, do amor. É preciso ensinar e aprender a solidariedade, a partilha. Ninguém é uma ilha. É preciso aceitar as diferenças. Temos assistido a um grande avanço tecnológico acompanhado de um retrocesso nas relações pessoais. Todos precisamos de aprender a Educar para a empatia. É necessário criar limites. É urgente perdoar.

Na fidelidade à forte intuição do Fundadordo Instituto – “Salvemos a família e salvaremos o mundo”- enquanto cooperadoras da família o maior desafio é discernir que prioridades atender no vasto campo da família.

JF – Que convite faria para encaminhar outros jovens para esta missão de serviço à família e à sociedade no ISCF?

SS– Aos jovens diria que, sem medo e com coragem, perguntassem no seu coração “Senhor, que queres que eu faça” E ao sentir o toque de Deus, escutem atentos, abram as portas do coração, procurem ajuda e entreguem-se generosamente, muitos precisam de vós. Na certeza de que Deus não escolhe os capacitados, Ele capacita os escolhidos. 

A vocação é sempre para a missão. O Missão do Instituto é tão ampla e tão bela, tão urgente, que todos terão trabalho. 

Artigo da edição de fevereiro do Jornal da Família

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