José, na 1.ª pessoa

Um olhar atento sobre a vida de São José. Jorge Cotovio coloca-se na pele do “humilde carpinteiro” para, na 1ª pessoa, traçar o perfil de um homem cumpridor da vontade de Deus. (Foto: Imagem de São José nos aposentos do Papa Francisco)

Quem me conhece sabe que gosto pouco de falar, muito menos de falar em público. Mas estando nós a viver um ano especialmente dedicado a mim – uma honra que não merecia – acedo a escrever umas linhas. Vou, pois, deixar o meu coração falar. Peço, desde já, as minhas desculpas, por não ter um discurso fluente e erudito, pois sou apenas um humilde carpinteiro, e não um teólogo ou um escriba…

A minha vida não foi nada fácil, como imaginam. Quando novo, apaixonei-me por uma jovem encantadora – Maria. Comprometemo-nos a viver juntos toda a vida, e quando tudo parecia estar a correr bem debato-me com uma gravidez incompreensível. Como era possível? Como ultrapassar estes momentos perturbantes e dramáticos? Valeu-me a confiança em Deus. Olhem, enquanto dormia, senti uma inspiração divina, e tudo me pareceu mais claro. Não totalmente claro porque houve coisas que não entendi muito bem, mas confiei. 

A partir daqui, fui aos poucos e poucos compreendendo o plano que Deus tinha para mim e Maria. Assustámo-nos – o caso não era para menos! – mas fomos aceitando. Fui educado para aceitar a vontade de Deus e quando assim é, é Ele que nos conduz.

Mas os sustos e as inquietações não ficavam por aqui… Não foi fácil, em Belém – uma cidade onde não nos movimentávamos à vontade –, encontrar um local digno para o nascimento do nosso filho. Valeu-nos uma gruta e o apoio de pastores que vinham ter connosco para visitar o nosso menino, aclamando-o. Sinceramente, não entendíamos bem o que eles diziam dele, mas guardámos tudo isso nos nossos corações. 

Na semana seguinte, mais um facto que nos deixa intrigados: na apresentação do nosso menino no Templo, cumprindo a Lei, ouvimos Simeão e Ana e ficámos admirados com o que eles disseram a respeito de Jesus.

Mal estava refeito destas estranhezas, eis que, de noite, enquanto durmo, pareço ouvir a voz de Deus a pedir para me levantar rapidamente, tomar omenino e sua mãe e fugir para o Egipto. Imaginam bem a minha inquietação, as dúvidas, os medos. Mas o apelo interior era muito forte e fomos embora com o pouco que tínhamos. Caminhada árdua, sobretudo quando atravessamos o deserto, ademais com uma criança recém-nascida. 

Felizmente não estivemos por lá muito tempo. Pela 3.ª vez sinto um impulso interior a dizer-me que podia regressar. Nova caminhada, mas com mais entusiasmo, pois íamos para a nossa Terra, Israel. 

Numa noite, mais uma vez num sonho, sinto um novo apelo. E esquecemos o nosso plano de ir para a Judeia, fixando-nos em Nazaré, numa humilde casa. Mas como fiquei amargurado quando soube pelos vizinhos o que Herodes fez na nossa ausência! Reconheci, então, em todas as vicissitudes por que passámos, a presença efetiva do Deus de Abraão e dos nossos pais na nossa vida. Será que éramos uma família especial, questionei eu tantas vezes enquanto serrava ou pregava…

Curioso, como este Deus me pareceu sempre falar durante a noite, enquanto dormia. Confesso-vos, a este propósito, que sempre gostei muito de dormir (até a sesta!), pois descansamos o corpo e a mente, e também temos ideias inspiradoras… E, na minha humildade, fiquei muito lisonjeado quando soube que o Papa Francisco – calculem! – tem na sua mesa de trabalho uma pequena estátua de eu próprio a  dormir; e quando tem um problema ou uma dificuldade, parece que escreve num papelinho que depois coloca por baixo da estatueta, para que eu sonhe sobre isso… Que ternura! Sinceramente, eu não mereço esta veneração, nem os muitos gestos de apreço que recebo de tanta gente e de tantas instituições. Mas rezo muito a Deus por todos.

O dia-a-dia penoso fez-me esquecer estes factos estranhos e surpreendentes. Jesus era igual a qualquer outra criança (mas, modéstia à parte, muito bem educado!), tal como eu e Maria éramos semelhantes a tantos outros casais que procuravam amar-se e a adorar a Deus sobre todas as coisas.

Todavia, quando Jesus fez 12 anos, novo acontecimento nos perturbou. Fomos, como era hábito, a Jerusalém, à Festa da Páscoa. E não é que perdemos o rapaz? Confesso que eu e Maria nos desentendemos mais a sério, pois culpámo-nos um ao outro. Com muita dificuldade fomos encontrá-lo, uns dias depois, no Templo, tranquilamente a falar com os doutores da lei. Como era possível? E mais espantados ficámos com a resposta pronta que nos deu: «Não sabiam que devia estar em casa de meu Pai?». Nem eu nem Maria entendemos, mas calámo-nos e, mais uma vez, guardámos isto no coração. Só muito mais tarde eu entendi estas coisas (suponho que a minha mulher, mais atenta, mais perspicaz, mais crente, entendeu muito antes de mim…).

Toda esta série de acontecimentos fez-me olhar de outra forma para o meu filho, até porque ele passava muito tempo comigo a ajudar-me. E eu via-o crescer em sabedoria, em estatura e em graça. Como isto me deixava feliz!

À medida que eu ia envelhecendo e o rapaz crescendo, fui-me retirando ainda mais do “espaço público”. Deixei que Jesus fizesse o que entendesse, garantindo que a sua mãe estivesse sempre mais ou menos por perto, pois ele era muito imprevisível (e, por vezes, um pouco estranho…). Tinha a consciência tranquila: cuidei da família, fui trabalhador, fui humilde, procurei ser justo e sempre pronto a cumprir a vontade de Deus. Fui um marido fiel, terno e paciente (como não era perfeito, às vezes irritava-me mas depressa pedia desculpa a Maria). 

E fui um sonhador! Tive quatro sonhos que tiveram consequências extraordinárias para a humanidade. E sonhei também com um mundo melhor, que cumpra a Aliança feita por Deus a Abraão, a Moisés, aos profetas. Que cumpra o mandamento do Amor que Jesus pregou e viveu.

Jorge Cotovio
jfcotovio@gmail.com
Artigo da edição de abril do Jornal da Família

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