Caminhar juntos numa Igreja de escuta e diálogo

No mês em que se inicia a caminhada sinodal da XVI Assembleia do Sínodo dos Bispos, Octávio Morgadinho traça no artigo deste mês do Jornal da Família o percurso da cultura sinodal na Igreja.

O Concílio Vaticano II respondeu à tarefa de aggiornamento da Igreja proposto pelo Papa João XXIII que o convocou. Para atingir esse objetivo adotou uma orientação pastoral que marcou a sua metodologia, desenvolvimento e decisões. O termo italiano aggiornamento tem uma conotaçãodinâmica difícil de traduzir no português atualização. A Igreja tem a tarefa prática de tornar atual continuamente a proposta da mensagem evangélica que lhe foi confiada, de forma a ir ao encontro da situação real e diversificada dos homens, sociedades e culturas dos seus destinatários continuamente em evolução. Para isso impõe-se uma cultura de escuta e diálogo, de inserção e participação nos processos e situações vividas nas relações pessoais, dentro e entre comunidades, de acordo com o seu nível de complexidade desde o face a face de cada comunidade local até à Igreja Universal – católica – que as congrega a todas. Esse foi o modo de proceder assimilado pelos discípulos de Jesus e adotado pelas comunidades cristãs desde os começos. “Decidimos, o Espírito Santo e nós, não vos impor…” (At 15, 28)– é o teor da mensagem confiada aos representantes da Igreja de Antioquia que apelaram para a Igreja de Jerusalém para, em Concílio (Sínodo) –, dirimirem o conflito que opunha judaizantes e recém-convertidosdo paganismo: os primeiros queriam impor a observância da Lei e costumes judaicos aos pagãos convertidos; os segundos com Paulo à frente consideravam essa ordem ultrapassada pela nova Lei da liberdade em Cristo para os que, renascidos pelo Batismo, haviam recebido o Espírito Santo (Conf. Atos, cap. 15).

Este processo de caminhar juntos na fé, de “fazer caminho, caminhando,” tornou-se usual nas comunidades cristãs dentro de cada uma, na comunicação e relações mútuas entre elas e com a Igreja universal (Católica). A palavra grega para o designar é um composto do prefixo sun(com)+oidos (caminho). Sínodo designava quer o processo, quer a instituição e a estrutura nas Igrejas orientais de língua grega. O termo Concílio com composição idêntica na língua latina passou a designaro mesmo na Igreja de Roma.

Na sequência do Concílio Vaticano II, a Carta Apostólica-Motu-proprio Apostolica sollicitudo do Papa Paulo VI instituiu o Sínodo dos Bispos em 15 de setembro de 1965. Segundo este documento, o Sínodo constituído por Bispos “escolhidos das várias partes do mundo” para prestar “uma ajuda eficaz ao Pastor supremo da Igreja” é “ uma instituição eclesiástica central, representante de todo o episcopado católico”, “de natureza perpétua”, “com uma estrutura de funcionamento exercida de forma temporária e ocasional”.

 O Sínodo dos Bispos pretende dar continuidade à dinâmica operacional do Concílio que definiu a Igreja como Povo de Deus (Conf. Lumen Gentium, cap II).

Segundo a ConstituiçãoDogmática Lumen Gentium (A luz dos Povos), na Igreja, Povo de Deus os fiéis – todos e cada um –“incorporados em Cristo pelo Batismo”, participam “da função sacerdotal, profética e real de Cristo, exercem, pela parte que lhes toca, a missão de todo o Povo cristão na Igreja e no mundo” (LG 31).

 Os Bispos, “sucessores dos Apóstolos” “estão unidos entre si com o Romano Pontífice, sucessor de Pedro” como “por instituição do Senhor, S. Pedro e os restantes Apóstolos formam um colégio apostólico”. “A natureza colegial da ordem episcopal é claramente comprovada pelos Concílios ecuménicos celebrados no decurso dos séculos” […] “nos quais se decidiram em comum coisas importantes, depois de ponderada a decisão pelo parecer de muitos (Conf.LG, 22).

O Concílio Vaticano II, superando a conceção da Igreja como estrutura hierárquica centralizada rígida reforçada pelo Vaticano I, abriu caminhos para a implantação de práticas de natureza sinodal que manifestassem mais coerentemente a natureza das relações e exercício do magistério e autoridade na Igreja.

 A instituição do Sínodo dos Bispos visava dar continuidade à participação mais próxima dos Bispos e em geral do compromisso de todo o Povo de Deus, naquilo que fora a preocupação da Igreja com o Concílio Vaticano II: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada por homens, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos”(conf. Constituição Pastoral Gaudium et Spes, 1).

Resumindo, quando aqui falamos de Sínodo e do adjetivo sinodal, seu derivado, designamos uma tradição de que já abordámos os primórdios, uma forma de ser e estarem comum na Igreja e no mundo. O caminho sinodal concretiza-se em processosde leitura da realidade à luz do evangelho sob a inspiração do Espírito Santo para traçar caminhos de comunhão e participação que responsabilizam todos e cada um de acordo com os seus dons e vocação na missão da Igreja. 

atualização  da Igreja proposta pelo Concílio Vaticano II apela para uma nova cultura, para uma nova forma de ser e estar da Igreja que remonta às suas origens: “Caminhar juntos não é uma invenção, um acontecimento do presente, mas um modo de ser da Igreja como a comunidade e a missão.” – declara Mons. Marini, subsecretário do Sínodo dos Bispos. Depois de uma longa tradição de centralização da Igreja, implantar a cultura sinodal exige uma verdadeira conversão. O percurso dos vários Sínodos revelou a necessidade refletir sobre o envolvimento de todo o Povo de Deus no seu processo. A Igreja esforçou-se por estar atenta aos novos problemas e situações. Refletiu, doutrinou, legislou. Nem sempre escutou. Foi-se dando conta que “não escutou e não deu a palavra suficientemente” – confessa o padre salesiano Rossano Sala, Consultor da Secretaria do Sínodo dos Bispos. É tempo de dar a palavra e a iniciativa a todo o Povo de Deus, na parte que toca a cada um.

O Papa Francisco sempre oportuno na tarefa de atualização permanente na Igreja, convocou agora a XVI Assembleia do Sínodo dos Bispos subordinada ao tema: “Para uma Igreja sinodal: comunhão, participação e missão”. 

A abertura do Sínodo terá lugar neste mês de outubro de 2021: em Roma, a 9 e 10 ; em cada diocese, a 17. Abrange uma fase diocesana (outubro 2021-abril 2022) e uma fase continental (setembro 2022-março 2023). A Assembleia final será em Roma em outubro de 2023, nos moldes habituais.

O objetivo do Sínodo não é produzir documentos e a participação requerida não deve limitar-se a elaborar relatórios. ((DP, 32). O objetivo do Sínodo é fazer da Igreja essa comunidade de discípulos que caminham juntos, atentos à inspiração do Espírito Santo, escutando-se mutuamente, em diálogo franco, participando responsavelmente na tarefa contínua de anunciar e implantar na vida e nas instituições a dinâmica do Evangelho.  

“Uma interrogação fundamental impele-nos e orienta-nos: como se realiza hoje, a diferentes níveis (do local ao universal) aquele “caminhar juntos” que permite à Igreja anunciar o Evangelho, em conformidade com a missão que lhe foi confiada; e que passos o Espírito nos convida a dar para crescer como Igreja sinodal?” (DP, 2).

Octávio Morgadinho
Artigo da edição de outubro de 2021 do Jornal da Família

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