O dom da paz

Para alcançar a paz, Furtado Fernandes defende “um empenhamento persistente que se projete” a nível pessoal, a nível familiar e a nível dos direitos dos povos.

«Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz; Eu não vo-la dou como a dá o mundo. Não se perturbe o vosso coração, nem se atemorize; ouviste o que Eu vos disse: Vou, mas virei a vós”» (Jo 14, 27-8).

“Esta paz, peçamo-la com ardentes preces ao Redentor divino que no-la trouxe. Afaste ele dos corações dos homens quanto pode pôr em perigo a paz e os transforme a todos em testemunhas da verdade, da justiça e do amor fraterno. Ilumine com a sua luz a mente dos responsáveis dos povos, para que, junto com o justo bem-estar dos próprios concidadãos, lhes garantam o belíssimo dom da paz. Inflame Cristo a vontade de todos os seres humanos para abaterem barreiras que dividem, para corroborarem os vínculos da caridade mútua, para compreenderem os outros, para perdoarem aos que lhes tiverem feito injúrias. Sob a inspiração da sua graça, tornem-se todos os povos irmãos e floresça neles e reine para sempre essa tão suspirada paz” (Papa S. João XXIII, Carta Encíclica PACEM IN TERRIS).

A paz que almejamos neste “tempo de chumbo” em que a guerra tanto sofrimento tem causado – não só na Ucrânia, mas, também, noutros teatros de operações porventura “esquecidos” – reclama, para ser construída com solidez, um empenhamento persistente que se projete nos vários níveis da nossa vida.

1. Nível pessoal

Num curioso livro publicado recentemente – Jay Shetty in Pensa como um Monge – o autor apresenta atitudes que são, seguramente, sementes de paz:

  • Vive a vida com intenção e consciência;
  • Sê compassivo, caridoso e cooperante;
  • Cultiva o entusiasmo, a determinação e a paciência;
  • Compromete-te com uma missão, uma visão e um objetivo;
  • Trabalha para eliminar a negatividade e os medos;
  • Cuida de ti para melhor cuidares dos outros

Atentemos, mais uma vez, no que nos diz o Papa Francisco numa das suas homílias: “Não existe família perfeita. Não temos pais perfeitos, não somos perfeitos, não nos casamos com uma pessoa perfeita nem temos filhos perfeitos. Temos queixas uns dos outros. Decepcionamos uns aos outros. Por isso, não há casamento saudável nem família saudável sem o exercício do perdão. O perdão é vital para a nossa saúde emocional e sobrevivência espiritual. Sem perdão a família torna-se uma arena de conflitos e um reduto de mágoas. Sem perdão a família adoece”.

2. A nível familiar

Em síntese podemos afirmar, com toda a propriedade, que sem perdão não há paz.

Guardar ressentimento – não ter a coragem de perdoar – é pernicioso, desde logo, para os que se sentem ofendidos.

Marian Rojas Estapé, in Como Fazer para Acontecerem Coisas Boas, apelida o ressentimento (re-sentimento) como um ingrediente tóxico, porque é “a repetição de um sentimento e de um sentimento de forma recorrente e prejudicial”. Daí ela afirmar, noutra passagem do seu livro, que “perdoar é ir ao passado e voltar são e salvo”.

3. A nível dos direitos dos povos

Na situação particularmente conturbada em que vivemos, está dramaticamente em causa os direitos dos povos; deve, por isso, enfatizar-se que “o magistério recorda que o direito internacional «se baseia no princípio de igual respeito, por parte dos Estados, do direito à autodeterminação de cada povo e da sua livre cooperação em vista do bem comum superior da humanidade». A paz funda-se não só no respeito pelos direitos do homem, mas também no respeito pelo direito dos povos, sobretudo o direito à independência” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja).

Furtado Fernandes
Artigo da edição de julho 2022 do Jornal da Família


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