Prática religiosa, missas e crianças

Os pais devem habituar os filhos a participar na Eucaristia, desde a mais tenra idade. O apelo é deixado por Jorge Cotovio para contrariar a tendência decrescente da prática dominical, que a pandemia veio agravar.

Mesmo sem números oficiais, é por demais evidente que a prática religiosa, que tem na participação da Missa dominical um fundamental indicador, tem vindo a decair há décadas. E a pandemia ainda veio agravar mais esta tendência, pois muitos dos idosos que, com algum esforço, mantinham esta rotina, habituaram-se a “ver a missa” na televisão, comodamente sentados e sem riscos de contágio. E não é invulgar ouvirem-se comentários do género: “em casa, pela TV, até ouço melhor a missa e estou com mais atenção”. E o pior é que esta opção também é escolhida por muitos cristãos tradicionais de meia idade, ainda bem capazes de se deslocarem para todo o lado.

Desta forma, temos cada vez menos gente a participar nas Eucaristias, sinal de que a fé (e o cristianismo) é muito “líquida”, não assentando em alicerces sólidos.

Neste verão, tive oportunidade de participar em missas em diversos locais. (In)felizmente, tive sempre lugar para me sentar. Mas em muitas delas vi crianças muito novinhas, com 2, 3, 4 anos, acompanhadas dos pais (ou avós). É claro que fazem sempre algum “ruído”. É claro que causam sempre alguma distração. É claro que há sempre olhares intolerantes de cristãos mais radicais. Mas vale a pena os pais habituarem os filhos à participação na Missa, desde muito pequenos.

A este propósito, partilho duas mensagens enviadas aos meus pais da catequese familiar (com um intervalo de umas 2 semanas).  

Caros pais

Hoje tivemos a missa das 10:30 com a especial participação das crianças dos 1.º e 2.º anos. A mãe Catarina e o pai João, estando por cá, foram à Missa, acompanhados pela Clara e pelos seus dois irmãos mais novos. Não é que estes se portassem mal, mas, compreensivelmente, ainda tão novinhos, não aguentaram toda a missa com a “devida atenção”. Por sinal, estavam pertinho de mim. E acham que me “ralei”? “Nadinha”. P’lo contrário. Como fiquei sensibilizado pelo extraordinário testemunho que deram! Qualquer casal, nestas circunstâncias, até teria uma monumental desculpa para ficar em casa. Mas eles vieram. “Mas então as crianças não distraíram as pessoas?” – perguntará, quiçá, um ou outro cristão mais devoto que estivesse por ali perto. Sim, eventualmente. Mas a mim, não. A mim só me “concentraram” no essencial (que o celebrante, Pe. Jorge, falou várias vezes): estarmos juntos, em comunidade, em espírito fraterno, sentindo-nos “Igreja” (= “assembleia”).

Como estava aflita (e cansadíssima) a mãe Catarina (e o pai João) quando no final falámos. Como os descansei: “Mãe Catarina, pai João, tragam-nos sempre. Que belo exemplo”!

É claro que este Deus se divertiu imenso com as traquinices naturais do Tiago e do Miguel. E ficou felicíssimo com a presença da família na Missa.

É assim que, não só a Clara, mas também os irmãozitos, vão treinando o “gosto” de ir à Missa, mesmo que não percebam (quase) nada do que se diz e canta e prega e faz. “Isto” também fará parte do “mistério” da Santíssima Trindade que hoje, com alegria, celebramos.

Uma boa semana para todos!

Caros pais

Eu e a minha mulher fomos hoje à missa com a Margarida (4 anos e pouco) e o Guilherme (2 anos e pouco), numa igreja em Lisboa. É claro que o Guilherme levava um carrito e eu, subtilmente, um outro brinquedo, caso fosse necessário… Havia mais umas 7 crianças na igreja (que não comportava mais do que umas 150 pessoas). Uma delas, quiçá com uns 2 anos, portou-se efetivamente mal. Várias pessoas – muito “ortodoxas” – viravam-se para trás denunciando o seu desagrado.

Felizmente, a Margarida e o Guilherme teriam uma nota 4 na escala de 1 a 5… Mas no final já andavam a limpar o pavimento (mas em silêncio), como ilustram as fotos…

O sacerdote, antes da bênção final, salienta a importância de termos crianças nas igrejas, mesmo que possam distrair outras pessoas. E disse também aquilo que já vos “garanti”: Deus fica imensamente satisfeito por ver crianças nas missas.

Tal como os nossos párocos, em S. José e S. João Baptista, também este, acabada a missa, saúda cada pessoa à saída da igreja. E saudou efusivamente os meus netos, perguntando-lhes os nomes. E eu dei-lhe os parabéns pela atitude que teve relativamente às crianças nas missas.

Cara mãe Catarina, caras mães e caros pais, levem os vossos filhos à missa, por mais pequenos que sejam. Garanto-vos que Deus vos recompensará.

Saudações amigas, e uma boa semana.

Durante as férias, levei diversas vezes os meus netos à Missa. Quando o Francisco, com 2 anos, ia sozinho parecia um santinho. E quando a homilia era mais comprida, até adormecia, só acordando na comunhão… Quando iam todos, é claro que a santidade desaparecia e prevalecia a brincadeira (mais ou menos contida). Mas como é bonito ver os pais com os filhos na igreja! E como isto é verdadeiramente educar na fé! Aos poucos, a semente desabrocha porque o Espírito a alimenta. Lentamente, discretamente, criando raízes profundas.

Na esteira do Papa Francisco, prefiro uma missa com choros e risos e irrequietudes (controladas) de crianças, do que uma missa onde impera o silêncio e a inatividade, porque sem elas. E tenho absoluta certeza que o nosso Deus é da minha opinião…

 Tudo isto para que os números da prática religiosa – que nos deviam incomodar sobremaneira (e até envergonhar) – encetem uma tendência de crescimento.

Jorge Cotovio
jfcotovio@gmail.com
Artigo da edição de outubro de 2022 do Jornal da Família

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