“…é possível ser feliz seguindo por um caminho ‘diferente’ e que preenche o coração”

Fez a Oblação Perpétua no passado dia 15 de agosto. Em entrevista ao Jornal da Família, Angélica Galvão fala da opção de vida “diferente” e dos desafios que a esperam no seio do ISCF e da sociedade.

Jornal da Família (JF) – É o culminar de uma caminhada que já leva 10 anos. Em 2012 iniciou um percurso de Discernimento e Formação no Instituto Secular das Cooperadoras da Família. Dia 15 de agosto fez a Oblação Perpétua neste Instituto de vida consagrada, ou seja, a entrega definitiva da sua vida a Deus. Que balanço faz desta caminhada?

Angélica Galvão (AG)
– Antes de mais gostaria de fazer um pequeno reparo: fazer a Oblação Perpétua não significa uma entrega definitiva, no sentido fechado, terminado, não significa apenas uma festa que aconteceu no passado. A Oblação – a entrega da vida – nunca está concluída, é um caminho de todos os dias, é uma resposta reclamada a cada instante no quotidiano da vida. Precisando, a Oblação Perpétua é um compromisso público com Deus para toda a vida.
Mas respondendo à sua pergunta: destes 10 anos de caminhada faço um balanço muito positivo, de crescimento a vários níveis: não só espiritual, mas também humano. Foi um caminho muito bonito no meio do mundo, a partir do mundo, em Igreja, nem à frente, nem atrás, nem isolada. Foi um processo que permitiu descobrir quem eu sou, conhecer-me, ganhar uma maior profundidade na oração, crescer na relação com Jesus e descobrir quem é esta Igreja com a qual eu quero cooperar e que sociedade é esta que necessita de Deus.

JF – Os primeiros cinco anos foram de Discernimento e Formação, os últimos cinco, após a 1ª Oblação, foram de um trabalho mais consistente com as Cooperadoras da Família. O que destaca destas duas grandes etapas que a trouxeram até aqui?

AG – Na verdade, a Formação iniciou-se quando entrei no Instituto, mas deve prolongar-se por toda a vida. Mas compreendo a sua pergunta! Da Etapa da Formação Inicial, isto é, dos primeiros 5 anos, destaco a redescoberta da vocação (no seu sentido lato) e da identidade de consagrada secular, concretamente da identidade da Cooperadora da Família. Nos últimos 5 anos, destaco o sentido de responsabilidade que adquiri como consagrada secular, como quem já não é em nome próprio, singular, mas que tem como missão ser um sinal vivo de Cristo no meio dos homens, deixar um rasto concreto dessa pertença ao Seu Corpo.

JF – O que descobriu nesta caminhada que mais a surpreendeu?

AG –
Descobri que é possível viver a radicalidade do Evangelho no meio do mundo e das famílias. Descobri que é um grande desafio, mas que não é uma missão impossível. Acho que isso foi sem dúvida a grande surpresa para mim, pois eu achava que viver em pobreza, castidade e obediência era só para pessoas especiais – os santos – e só era possível estando “separada” do mundo. Depois desta caminhada, quando penso na minha vocação de consagrada secular penso na vontade de Deus em estar no meio dos homens para lhes mostrar o amor que tem por cada um e revelar a verdadeira alegria, aquela que não se esgota, nunca. É com essa vontade que eu me identifico e, por isso, se torna agora o meu caminho, o meu projeto de vida no meio do mundo. Para mim uma surpresa que se tornou desafio e graça, interrogação e resposta.

JF – Fez os votos perpétuos no ISCF no ano em que, se tudo correr bem, termina o mestrado em Contabilidade, Fiscalidade e Finanças Empresariais.  É a prova que a vocação profissional pode coexistir com uma vocação de consagração?

AG – Não diria que a minha opção de vida é essa prova, porque essa foi dado por Jesus há mais de dois mil anos atrás (risos). Como referi na pergunta anterior, Deus quer estar no meio dos homens, é um Deus de proximidade, de companhia no caminho da vida. Fez-se Homem para responder aos anseios mais profundos do coração humano, para trilhar com cada homem um caminho da felicidade com gestos concretos de amor.
Creio que é nesta busca pela felicidade, nesta escuta atenta do projeto que Deus sonha para a vida de cada um, que vocação de consagração e “vocação” profissional se podem encontrar e podem coexistir. Poderia ser uma vocação ao matrimónio e sentir-me vocacionada para desempenhar determinada profissão. Quanto a mim: a minha resposta é fruto desta tensão entre o humano e o divino, entre ação e contemplação, entre ler e entender o Evangelho hoje e este Deus que se faz presente aí onde estamos.

JF – De que forma os seus estudos académicos podem ser uma mais-valia para o Instituto Secular das Cooperadoras da Família?

AG – Sendo um Instituto Secular, qualquer estudo académico é uma mais-valia, pois permite-nos estar inseridas em vários setores da sociedade. O padre Brás queria Cooperadoras bem formadas e que acompanhassem a evolução dos tempos e, por isso, penso que a diversidade na educação é das riquezas maiores do Instituto.
Nesta linha, num momento de mudança nas estruturas da Igreja e de alguma reorganização, onde se espera uma administração mais transparente e uma gestão mais criteriosa, penso que, sem dúvida, os meus estudos serão uma mais-valia.

JF – Tem, com certeza, consciência que a sua opção de vida é incompreendida por uma sociedade materialista que mede o sucesso através do dinheiro, da fama ou da estabilidade da vida familiar. Como olham os seus colegas de curso para esta sua opção?

AG – Visivelmente não tenho nada que me distinga deles. A minha opção de vida, passa por viver o quotidiano da vida e aí ser um sinal de Deus, um sinal diferente, pois a sociedade aponta para muitas outras opções.  
Atualmente, as pessoas podem não entender bem esta minha opção de vida pelos votos que professei – Pobreza, Castidade e Obediência – mas penso que numa sociedade mais aberta e mais tolerante às opções de vida de cada um, olham para a minha opção de vida com respeito. Sei que vou ter sempre quem olhe dessa forma, com respeito e admiração, mas claro que haverá alguns que pensam que é impossível viver uma vida assim. Contudo, creio que esses são os olhares que têm mais expectativas sobre nós e que mais nos desafiam a viver uma vida de Perfeição. Estou certa de que a minha fidelidade pode ser o maior sinal nestes tempos! O meu papel passa também por aí: por ser sinal concreto de que é possível ser feliz seguindo por um caminho “diferente” e que preenche o coração.

JF – A sua entrada no Instituto é um sinal de que Deus e, neste caso, o carisma específico do Padre Brás continua a “chamar”, mas poucos são os que “ouvem” a Sua voz. Como olhas para a grande Obra de Mons. Alves Brás face à diminuição de vocações?

AG – Apesar dessa diminuição que refere, não posso deixar de ter um olhar de esperança, pois acredito efetivamente que o Carisma e o Instituto são obra de Deus. Uma das coisas que mais me inspira e que me apaixonou na vida de Monsenhor Brás é que ele foi verdadeiramente um homem de Deus e da humanidade com visão, diria até inovador na forma de olhar a construção da sociedade a partir da família. E isso é mais do que nunca atual e urgente. Voltar aí, à fonte! Muitos dos desafios que nos chegam pelas notícias, pequenos problemas relacionais entre gerações, abuso de menores, até aos maiores, como uma guerra, resultam de alicerces familiares muito fracos, desviados daquilo que é o plano de Deus sobre as famílias, e que não garantiram a construção de personalidades sólidas em valores, com maturidade e liberdade. Estes são os verdadeiros sinais de Deus a chamar. Por isso, olho com esperança e confiança. O lema que escolhi para a minha Oblação Perpétua diz isso mesmo: «Olhai os lírios do campo» (Mt 6, 28)

JF – Optou por um Instituto de vida consagrada secular que tem como foco a família. Que desafios a esperam nesta área?

AG – Não me poderei queixar de falta de ‘trabalho’ e o maior desafio sempre será o de entender o que Deus me está a querer dizer através daquela situação e o que é que quer que eu faça ali, num acompanhamento próximo, atual e contínuo. As famílias têm muitas “feridas” e isso exige da Igreja e, concretamente das Cooperadoras da Família, isto: alguém que traduza numa linguagem comum e compreensível, uma resposta que as ajude a “sarar” essas feridas e lhes dê força para continuar a construir esse projeto de vida – a Família. Creio que o grande desafio é ter o olhar de Jesus, ter um olhar mais largo sobre as famílias e sobre a sociedade, limpo de julgamentos e preconceitos, na certeza de que Ele está aí, em tudo isso, sempre.

Artigo da edição de outubro de 2022 do Jornal da Família

Galeria de imagens da Oblação Perpétua de Angélica Galvão

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