Bom dia, meu irmão!

Jorge Cotovio andou por terras de missão. Passou duas semanas na missão católica da cidade das Neves, distrito de Lembá, em S. Tomé e Príncipe, a cargo das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição – CONFHIC. Uma experiência que partilhou no Jornal da Família.

Leio desde jovem a revista Além-Mar, dos Missionários Combonianos. Com ela fui aprendendo a viver em terras de missão, tais são os relatos vivos (e tantas vezes impressionantes) que lá surgem. Mas agora vivi a realidade, não tão radical como algumas, mas suficiente para avaliar, no terreno, as dificuldades enfrentadas por muitos povos, em pleno séc. XXI.

As duas semanas vividas intensamente na missão católica da cidade das Neves, distrito de Lembá, República Democrática de S. Tomé e Príncipe, confiada às Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição (CONFHIC), perdurarão, certamente, na minha memória, até ser velho e a perder…

Confesso que, durante estes dias, foram muitas as vezes em que tive a sensação de viajar no tempo e regressar às nossas aldeias da década de sessenta do século passado: muita pobreza (vê-se gente descalça ou com chinelos de pôr no dedo bem gastos); estradas com pó ou com lama; energia elétrica com falhas; (quase) inexistência de água canalizada; ausência de sistemas de saneamento básico; deficiente recolha de resíduos (tarefa atribuída às galinhas, aos cães, à cabras e aos porcos, que só não comem os plásticos e as latas…); modelo de família patriarcal e com muitos filhos (a maioria dos jovens constitui família cerca dos 20 anos); muitas crianças nas ruas e a brincar (também com o arco e com brinquedos por elas construídos); lavagem da roupa no rio (uma oportunidade para as mulheres porem as notícias em dia…); mulheres a carregar cestos na cabeça; anciãos estimados e valorizados (comummente tratados por “pai”, pela gente nova); economia muito assente na agricultura; fogões a lenha; hábito de cumprimentar todas as pessoas (os mais idosos costumam saudar de uma forma muito evangélica: “Bom dia, meu irmão”); muito convívio entre vizinhos; existência de tavernas e mercearias; hábito de dar boleia, mesmo a desconhecidos; escolas com poucas condições; baixo nível de literacia, sobretudo entre os mais idosos; impacto significativo da Igreja (prática dominical elevada, manifestações exteriores de muita fé, autoridade reconhecida aos padres e às freiras, etc.); motorizada como meio de transporte mais vulgar; pouca atenção às questões de higiene e de segurança; muita emigração; autarquias com poucos recursos; governantes muito distantes do “povo”; muito conformismo e pouco empreendedorismo.

Mas estas semelhanças já sofrem distorções, devido à globalização, designadamente: poucos casamentos e muitas “uniões de facto”; telemóveis nas mãos de muitos jovens; escolaridade obrigatória de 9 anos; proliferação de seitas e crescimento das Igrejas protestantes (afetando as Igreja católica, também ela já afetada pela secularização); pais permissivos/ negligentes (e que também desautorizam a escola). E com mais estas diferenças: muito verde por todo o lado; temperaturas tépidas, mesmo no inverno; muita humidade; paisagens muito naturais; água do mar com temperatura fantástica…

Nestes dias, aprendi a viver com pouco e em condições próprias do terceiro mundo. Efetivamente, tive de arranjar engenho e arte para, em certos dias, tomar banho com pouco mais do que 1 litro de água; para, quando chovia, caminhar sem me atolar na lama; para, quando me deslocava à “cidade” (como é conhecida a capital, S. Tomé), não cair em buracos (às vezes a estrada é um buraco único…); ou para evitar as pedras que caiam na via, vindas das encostas encharcadas…

E aprendi a ver crianças alegres com pouca coisa, ficando felizes com uma saudação, normalmente acompanhada de um toque na nossa pele (como se sentem curiosos de “palpar” a nossa pele, diferente da deles…), e a proclamar em coro, diariamente, no início das aulas, as palavras mágicas do Papa Francisco, bem destacadas em cartazes nas salas de aula de todas as turmas, desde os 3 anos: bom dia, boa tarde, boa noite, desculpa, por favor, com licença, obrigado (além de duas vezes por semana, no meio de uma série de rotinas/ canções, cantarem o hino nacional).

E aprendi a ver professores – maioritariamente jovens – a fazerem “milagres”, ensinando com pouquíssimos recursos, pois nem os alunos possuem qualquer manual (também eles aprenderam desta forma). Reina o quadro preto, o giz branco (uma preciosidade!), o caderno de linhas, um lápis (outra preciosidade), a borracha. A era da Internet na escola ainda não chegou (e estamos na 2.ª maior cidade do país, não no meio do “mato”), embora já esteja perto. A grande aposta de quem quer ajudar na prioritária área da educação situa-se, pois, na formação de professores, no estímulo para eles enriquecerem os conhecimentos (acedendo a recursos que lhes fornecemos e aproveitando as parcerias com escolas portuguesas) e na iniciação às TIC, potenciando os dispositivos móveis que vão tendo (basicamente é o telemóvel, rudimentar em muitos casos, e os poucos computadores que vão sendo oferecidos).

Toda esta envolvência gera nos santomenses algum conformismo e pouco ânimo empreendedor. “Nós” temos de lhes fazer ver – com amor, com paciência, com humildade –  que são capazes, que têm inteligência e energia para fazer coisas novas e desenvolver o país.

O papel da Igreja neste sentido é extraordinário. A garra da Ir. Lúcia Cândido – a líder do projeto – contagiou outras irmãs africanas, os padres nativos, os políticos e os governantes. E a obra – que acolhe para cima de 2200 alunos dos 3 meses ao 12.º ano (2 cursos profissionais e, a partir de dezembro, também um polo ligado à Universidade estatal, com o curso de professores dos 1.º e 2.º ciclos), tem um centro de costura (com 16 pessoas), uma escola de carpintaria (com 14 aprendizes) e um lar de idosos (que apoia 240 utentes) – é um sucesso, tendo sido visitada, em 2018, pelo nosso atual Presidente da República (a Ir. Lúcia já tinha sido condecorada pelo anterior Presidente).

Só posso agradecer a Deus a experiência fantástica que vivi – que vivo, pois continuarei a acompanhar, a distância (e no coração), o projeto. Não esquecerei, pois, os muitos contactos que estabeleci, as reuniões com professores e pais, as sessões com os grupos de catequese de adultos ou da pastoral familiar (uma maravilha!), as brincadeiras com os alunos nos recreios, os “bom dia, meu irmão” dos anciãos, as missas de duas horas cheias de gente, cânticos, animação, fervor e alegria, a aventura cada vez que, no jipe, entrávamos S. Tomé adentro ver (antigas) roças ou conhecer o povo das aldeias distantes.

E não esquecerei o carinho recebido e os muitíssimos olás vindos das crianças, sempre ávidas de um sorriso, de um toque. São elas – cada uma destas crianças, “filhas de Deus” –, o futuro deste país, também o futuro da Igreja!

Jorge Cotovio
jfcotovio@gmail.com
Artigo da edição de dezembro de 2022 do Jornal da Família

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