Morte: o último tabu

“Para que a morte não seja um tabu – o último tabu – é preciso aprender a morrer”, afirma Furtado Fernandes num artigo que nos dá pistas para aprendermos a viver e a morrer.

“É bem possível que, para se perceber uma sociedade, mais importante do que saber como é que nela se vive é saber como é que nela se morre e se trata a morte. Facto é que as nossas sociedades desenvolvidas, tecnocientíficas, do primado do ter sobre o ser, da eficácia, da vertigem do poder, do tempo digital e da aceleração, são as primeiras na história a fazer da morte tabu. Mais: assentam a sua realidade no tabu; para serem o que são, têm de fazer da morte tabu” (Padre Anselmo Borges in Diário de Notícias, 2015).

Este tabu é, como se compreende, alimentado pelo materialismo e pelo hedonismo, ou seja, pela confusão que muitas vezes se estabelece entre prazer e felicidade.

Evidentemente que a morte, neste contexto, é um absurdo que importa exorcizar.

Obviamente que tal não é possível, a morte é a decorrência inelutável da vida.

“Jung notou, depois de muitos outros, que «são os mesmos jovens que têm medo da vida que mais tarde terão medo da morte». O risco da morte é participação e a participação é vida. O medo da vida é o medo da morte e o medo da morte é o medo da vida. Viver é assumir o risco de morrer” (Edgar Morin in O Homem e a Morte).

Para que a morte não seja um tabu – o último tabu – é preciso aprender a morrer.

O Cardeal D. José Tolentino de Mendonça, em recente ensaio publicado no Jornal Expresso, dedicado a este tema, citando o teólogo Carlo Molari, apresenta cinco recomendações para “aprender a morrer aprendendo a viver”:

  • “Chegarmos a ser plenamente nós próprios, isto é, cumprimo-nos como criaturas”;
  • “Cultivar o desprendimento, pois só assim se alcança a generosidade pura”;
  • “Amar, pois devemos chegar à morte saciados de presenças”;
  • “Transfigurar esse amor em amor oblativo, que nos interpela como oferta e dom, encaminhando-nos para a radical entrega de nós próprios à história dos outros”;
  • “Confiar tanto na vida que aceitamos perdê-la. Confiar tanto em Deus a ponto de nos abandonarmos a Ele”.

É exatamente esta sublime confiança que é documentada num filme que vi em 2010 – Dos Homens e dos Deuses.

Trata-se de uma história real passada num mosteiro de Argel, onde viveram oito frades católicos.

A sua presença era muito apreciada pelos habitantes da região, porquanto cuidavam dos doentes e, além disso, inspiravam segurança a uma população ameaçada pelos ataques da guerrilha antigovernamental.

Um dia o próprio mosteiro foi atacado, numa clara ameaça que os terroristas fizeram para pressionarem os frades a abandonarem a Argélia. Inclusivamente, as autoridades argelinas pediram-lhes para que eles, por razões óbvias, saíssem do País.

Contudo, depois de um processo de aturado discernimento, resolveram ficar por considerarem que essa era a sua Missão.

Como diz Sofia de Mello Breyner:

“Vimos o mundo aceso nos seus olhos
E por os ter olhado nós ficámos
Penetrados de força e de destino.
Ele deu carne àquilo que sonhámos,
E a nossa vida abriu-se, iluminada
Pelas paisagens de oiro que ele vira,
Veio dizer-nos qual a nossa raça,
Anunciou-nos a pátria nunca vista,
E a sua profissão era o sinal
De que as coisas sonhadas existiam”.

De facto, é Cristo que nos dá a força para cumprirmos uma Missão de entrega e de serviço a Deus e aos irmãos – desse modo aprendemos a viver e a morrer.


Furtado Fernandes
j.furtado.fernandes@sapo.pt
Artigo da edição de janeiro de 2023 do Jornal da Família

Partilhar:

Facebook
Twitter
Pinterest
LinkedIn
Relacionado

Outras Notícias

Retalhos de amor que dão vida

No Centro de Cooperação Familiar | Lar Betânia, em Fátima, as marchas dos Santos Populares não são apenas uma festa: são um encontro de memórias e afetos que continuam a dar vida aos dias. Este ano, sob o lema “Vidas com História – Retalhos de Amor”, os utentes desfilaram no espaço exterior da instituição levando consigo meses de dedicação, figurinos feitos em conjunto e, sobretudo, pedaços das suas próprias histórias. São fragmentos de coragem, perdas, fé e superação que emocionaram colaboradores e famílias.

Ler Mais >>

Férias com afetos

As férias passam depressa, mas aquilo que vivemos em família permanece. Neste verão, queremos mais do que destinos e fotografias: queremos pais e filhos juntos, presentes, atentos uns aos outros, a criar memórias que o tempo não apaga. Porque as melhores férias são sempre as que fortalecem o afeto que nos une.

Ler Mais >>

A Santa Sé perante a crise do multilateralismo

Num tempo em que o multilateralismo parece perder fôlego perante a fragmentação global, Murillo Missaci propõe uma leitura do papel da Santa Sé na diplomacia contemporânea. Sem depender de poder económico ou militar, o Vaticano mantém-se como voz de diálogo e de equilíbrio, recordando que a credibilidade das instituições internacionais nasce da fidelidade à pessoa humana e da perseverança na cooperação.

Ler Mais >>

A secularidade consagrada refrescada pela ‘Magnifica Humanitas’ de Leão XIV

A secularidade consagrada ganha hoje um novo fôlego, iluminada pela visão humanista e missionária da ‘Magnifica Humanitas’. Num tempo marcado pela busca de sentido, pela necessidade de diálogo e pela urgência de reconstruir vínculos humanos, os consagrados seculares surgem como testemunhas de uma Igreja que se faz próxima e que assume a missão de humanizar cada espaço onde a vida acontece.

Ler Mais >>

Livros e leituras

A leitura acompanha Juan Ambrosio no trabalho e na vida, mas ganha novo sentido nos momentos partilhados com o neto. Entre livros que alargam o pensamento e histórias que despertam a imaginação, Juan Ambrosio sublinha a importância de criar nas crianças o gosto pelos livros.

Ler Mais >>