Os abusos sexuais e a sua abordagem às crianças

“Como falar destas questões às crianças?”, pergunta Jorge Cotovio. A resposta(s) é “extremamente difícil de dar”, reconhece, mas é um assunto que deve ser abordado no seio da família.

Quando abril clama pela Páscoa, é incontornável falar-se do calvário dos abusos sexuais a menores dentro da Igreja católica. Como se estes atos repugnantes, só por si, não infligissem na Igreja um duríssimo golpe, a intervenção pública (e privada) da maioria dos bispos não foi nada feliz. Perante problemática tão sensível e fraturante, e perante uma comunicação social desejosa de polémica (e de guerras), podemos questionar por que razão “as vozes autorizadas da Igreja” não se prepararam adequadamente, rodeando-se de especialistas, mormente nas áreas do direito e da comunicação… Resta-nos a esperança de aprendermos com os erros e de sabermos gerir o longo e penoso processo de “reparação” (que nunca será em pleno). E depois, saber como evitar no futuro estas situações, cuidando amiúde dos cenários mais problemáticos, formando e sensibilizando os clérigos, assim como os agentes pastorais que mais lidam com menores e adultos vulneráveis.

A recuperação da imagem da Igreja, ademais quando é nítida a perda do seu impacto na sociedade, depende de todos nós – depende também de mim –, nesta Igreja sinodal que queremos construir. Além de rezarmos – porque somos, efetivamente, muito fracos – precisamos, cada um de nós, de fazer o nosso “Trabalho Para Casa” (TPC). Pelo menos os poucos que vão trabalhando em tarefas eclesiais devem dar um bocadinho mais de si mesmos para “reconstruir” a Igreja. E procurar contagiar/ convocar outros para a messe, pois os trabalhadores são (muito) poucos. Neste processo, será determinante o nosso testemunho de alegria, de simpatia, de humildade, de simplicidade. Também de competência, eficácia e sabedoria. E, acima de tudo, de “Fé transbordante”!

Tendo sido um assunto tão debatido em termos mediáticos, como falar destas questões às crianças (por exemplo, entre os seis e os 12 anos)? Confesso que é uma pergunta muito pertinente e com resposta(s) extremamente difícil de dar. Talvez por isto, nunca ouvi/ li nenhum comentador fazer esta abordagem…

Se, acaso, os pais têm promovido uma sã “educação sexual”, a tarefa estará mais facilitada. Mas se o “sexo” é assunto tabu para a família, ou esta abordagem é pretexto para uma primeira educação sexual, ou então é o cabo dos trabalhos. Em qualquer dos casos, será de evitar um aprofundamento do tema (entrando em detalhes), pois ainda não têm maturidade suficiente para entender todos os seus contornos. Mas, acima de tudo, deve aproveitar-se esta ocasião para, com naturalidade, avisar as crianças para terem cuidado, para alertarem os pais se tiveram alguma abordagem suspeita, para serem prudentes na utilização dos dispositivos móveis, sobretudo nas redes sociais.

E depois, tranquilizá-las: os padres abusadores ou já morreram ou são muito poucos os que ainda estão em atividade pastoral. Podem confiar, pois, à vontade, nos sacerdotes. Podem (e devem) continuar a confessar-se (um hábito, infelizmente, em desuso, até nos adultos “praticantes”). Podem confiar nos catequistas, nos chefes de escuteiros, nos educadores docentes e não docentes dos infantários e das escolas católicas. A Igreja, criada por Jesus Cristo e a trilhar caminhos sob o olhar providencial do Espírito Santo, é uma instituição credível, “confiável”, mau grado ser formada por pessoas imperfeitas. Que esta mensagem de serenidade e de confiança “passe” para as nossas crianças – e também para os jovens, para os adultos, para a sociedade.

Em plena Quaresma rebenta esta bomba (há muito anunciada!). Mas a Páscoa deve fazer-nos “ressuscitar”, dar um novo ânimo, um novo ardor às nossas vidas, às nossas pastorais. Que a Igreja transforme este momento deveras difícil numa excelente oportunidade de renovação de pensamentos, de linguagens, de práticas, de hábitos, de rotinas. Que cada um de nós ganhe um novo alento e não esmoreça.

Que o Espírito de Deus – com sopros tão discretos e enigmáticos que nem os “entendidos na matéria” às vezes os perscrutam – nos inspire, nos ilumine, nos entusiasme neste esforço de mudança, para sermos (novamente) farol para a sociedade e porto de abrigo para os mais necessitados.

Jorge Cotovio
jfcotovio@gmail.com
Artigo da edição de abril de 2023 do Jornal da Família

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