Voluntariado

O voluntariado não é só dar de si aos outros é também uma aposta no desenvolvimento pessoal e profissional e um fator de coesão das comunidades. A reflexão de Furtado Fernandes.

Os nossos talentos

“É como um homem que, ao partir em viagem, chamou os seus servos e entregou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois, e a outro um, a cada um de acordo com a sua capacidade” (Mt. 25, 14 e segs.).

O mesmo se passa com cada um de nós; a todos outorgou Deus capacidades que nos compete administrar com zelo e espírito de serviço.

Evidentemente que usufruímos delas para podermos angariar os meios necessários ao nosso bem-estar material, suprindo assim necessidades pessoais e familiares.

Contudo, precisamos de ir mais além para superarmos as armadilhas da sociedade materialista.

“O progresso material por si mesmo nunca pode preencher as aspirações do homem, nem dar a felicidade quando constitui a coluna vertebral da vida. (…) a tentação da opulência conduz gradualmente ao individualismo (…) êxito, dinheiro, poder, avidez de sensações, curiosidade em relação a tudo sem pretensões de melhoria…” (Enrique Rojas, O Homem Light).

Neste contexto emerge a relevância do voluntariado, como fator potenciador da coesão das comunidades.

“Procurando especificar em que consiste a experiência de amar, que Deus torna possível com a sua graça, São Tomás de Aquino explicava-a como um movimento que centra a atenção no outro «considerando-o como um só comigo mesmo». A atenção afetiva prestada ao outro provoca uma orientação que leva a procurar o seu bem gratuitamente. Tudo isto parte duma estima, duma apreciação que, em última análise, é o que está por detrás da palavra «caridade»: o ser amado é «caro» para mim, ou seja, é estimado como de grande valor. E «do amor, pelo qual uma pessoa me agrada, depende que lhe dê algo grátis» ” (Papa Francisco, Fratelli Tutti).

O voluntariado e o desenvolvimento pessoal e profissional

Há uns largos anos atrás, tendo eu falado dos benefícios do voluntariado, alguém me replicou: “Prefiro morrer de frio a trabalhar para aquecer”.

Mentalidades deste tipo, pela sua mesquinhez, são necessariamente contestáveis.

Efetivamente, até nos processos de recrutamento e seleção de pessoal, é comum perguntar-se se os candidatos desenvolveram ações de voluntariado. Obviamente que este procedimento considera ser o voluntariado uma mais-valia para o desempenho profissional por razões que, a título exemplificativo, enumeramos:

  • Aumenta a empatia, na medida em que se torna mais fácil “calçar os sapatos do outro”;
  • Facilita o trabalho de equipa, porquanto facilita o relacionamento pessoal;
  • Alarga horizontes, porque enriquece a experiência de vida;
  • Incentiva o sentido de missão, o que, naturalmente, tem um impacto positivo na assunção de compromissos;
  • Fomenta um clima de saudável otimismo, na verdade quem faz voluntariado confia que é possível obter resultados benéficos;
  • Em síntese, o voluntariado contribui para o desenvolvimento da inteligência emocional – autoconhecimento, consciência e controle emocionais, automotivação e competências relacionais.

Recebemos de graça, damos de graça

Como dissemos anteriormente somos meros administradores, é o Senhor que com a Sua graça. nos capacita com os mais diversos talentos – cada um de nós é uma pessoa única e irrepetível.

O voluntariado é, pois, nas suas mais diversas modalidades, uma alternativa imprescindível para pormos em prática um ideário personalista, num tempo assolado pelos horrores da guerra em que tanta gente anseia por solidariedade.

Furtado Fernandes
j.furtado.fernandes@sapo.pt
Artigo da edição de maio de 2023 do Jornal da Família


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