100 anos do CNE – Escutismo Católico Português

O Corpo Nacional de Escutas (CNE) comemora este mês o centenário da sua fundação. Octávio Morgadinho percorreu a história deste movimento mundial onde o respeito pela identidade e fé do outro ajudou a que se espalhasse por diversas culturas e religiões.

O CNE – Corpo Nacional de Escutas – comemora neste mês de maio, em Braga, o centésimo aniversário da sua fundação. De facto, foi o então Arcebispo de Braga, D. Manuel Vieira de Matos, o dinamizador do grupo que preparou a fundação e institucionalização do Corpo Nacional de Scouts Católicos Portugueses. A primeira reunião de D. Manuel com os seus colaboradores na fundação do CNSP realizou-se no nº 20 da Praça do Município no dia 24 de maio de 1923. Nela teria sido trabalhada a redação final dos primeiros estatutos do Corpo Scouts Católicos Portugueses que foram aprovados em 26 de Maio.

Hoje, com cerca de 72 000 escuteiros em 1100 agrupamentos locais no território continental, Açores e Madeira, o CNE é a maior associação escutista e a maior associação de juventude portuguesa. Prestigiada e em franco crescimento continua a formar jovens ativos para a família, a sociedade e a Igreja.

O escutismo surgiu nos primeiros anos do séc. XX, graças à intuição educativa e capacidade empreendedora do oficial do exército inglês Robert Baden-Powell que se distinguiu especialmente nas campanhas coloniais da África do Sul. As limitações das tropas regulares obrigaram-no a improvisar na formação de jovens cadetes para tarefas de apoio: cozinha, comunicações, primeiros socorros, vigilância e exploração (scouting). As notas dessa experiência valeram-lhe quando regressou a Inglaterra famoso pelos seus feitos militares. Publicou-as e verificou que as escolas se serviam delas como textos de formação para os alunos adolescentes. Da sua sistematização surgiu o livro Escutismo para rapazes que ainda hoje constitui referência obrigatória na formação dos Escuteiros de todo o mundo. Como era homem de ação, Baden-Powell passou à mobilização dos jovens iniciando a formação de grupos, já não para tarefas militares mas em atividades lúdicas para observação e exploração da natureza, sobrevivência e socorro. Pretendia desenvolver nos jovens adolescentes, através do jogo, a cooperação, a criatividade e o espírito de serviço necessárias para a vida ativa na família e na sociedade.

Em 1907, Baden-Powell passou do projeto à ação: mobilizou um grupo de amigos e vinte rapazes dos 12 aos 16 anos para realizar, na ilha de Brownsea, um acampamento onde transmitiu conhecimentos técnicos de primeiros socorros, observação, técnicas de segurança para a vida na cidade e na floresta, e semelhantes. O seu êxito determinou o futuro do Movimento escutista mundial. Em 1920, o primeiro acampamento mundial – Jamboree – reuniu 20 mil jovens que aclamaram o fundador como Chefe Mundial.

Os princípios do escutismo e o seu método adaptou-se a todas as culturas e espalhou-se pelo mundo inteiro. A diversidade das religiões não impediu a colocação da fé em Deus e a profissão duma religião no centro da pedagogia escutista. «O homem de pouco vale, se não acreditar em Deus e obedecer às suas leis. Por isso todo o escuteiro deve ter uma religião.» declara Baden-Powell, no Escutismo para Rapazes, trad. port, 2007 (p. 287).

A crença em Deus, na dignidade de cada pessoa e a fraternidade humana universal constituem princípios estruturantes das relações humanas dentro do universo escuta e na relação com todos os outros. Estes princípios têm de ser tomados como universais evitando o universalismo abstrato do deísmo e do moralismo. O princípio da fé em Deus significa que o escutismo é compatível com a profissão duma confissão religiosa individual e coletiva dos seus membros, exigindo-se apenas o respeito pela sua identidade, coerência e o respeito pela fé dos outros. Digo mesmo: a fé em Deus no escutismo concretiza-se nas várias opções religiosas dos seus membros. Isto significa que o escutismo católico será coerente com a sua fé em Jesus Cristo e se apoiará nos valores fundamentais da convivência inter-religiosa e do ecumenismo. O escutismo católico não é uma forma de proselitismo mais ou menos encapotado.

Em Portugal o Escutismo deu os primeiros passos em Macau em 1911 e deu origem à fundação,  em 1913, em Lisboa, à Associação dos Escoteiros de Portugal. O Corpo Nacional de Escutas, Escutismo Católico Português, apareceu 10 anos mais tarde, em 27 de maio de 1923, na cidade de Braga. O CNE faz parte da Conferência Internacional Católica do Escutismo (CICE) que foi criada mais recentemente, em 1948. A CICE é um espaço internacional de encontro, reflexão, partilha e comunhão dos Escuteiros Católicos, com um estatuto consultivo junto da Organização Mundial do Movimento Escutista.
As Finalidades da Conferência Internacional Católica do Escutismo são: Contribuir para o desenvolvimento e o fortalecimento da dimensão espiritual do Escutismo, consciente da unidade e diversidade do Movimento Escutista Mundial; Promover uma participação ativa dos Escuteiros Católicos na missão da Igreja; Facilitar a comunicação entre a Igreja Católica e o Movimento Escutista Mundial.

“A lei escutista, atraindo os jovens para a via das virtudes, convida-os à retidão moral e ao espírito de ascese, e assim orienta-os para Deus e chama-os a servir os seus irmãos; ao empenharem-se em fazer o bem, eles tornam-se homens e mulheres capazes de assumir responsabilidades na Igreja e na sociedade. No seio duma patrulha, nos campos e noutras circunstâncias, os escuteiros descobrem o Senhor através das maravilhas da criação, a cujo respeito são chamados. Deste modo, fazem uma experiência preciosa da vida eclesial, encontrando-se com Cristo na oração pessoal, com a qual se podem familiarizar, e na celebração eucarística. Além disso, a unidade escutista oferece aos jovens a ocasião para fazerem o aprendizado da vida em sociedade, no respeito de cada um”.

Mensagem de João Paulo II por ocasião do 50º aniversário da “Conferência Católica Internacional do Escutismo” de 13 de setembro de 1998.

Octávio Morgadinho
Artigo da edição de maio de 2023 do Jornal da Família

Foto: CNE

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