Entre a rotina e a novidade

“Rotina e novidade” são os termos em torno dos quais gira o artigo de Juan Ambrosio na edição de outubro do Jornal da Família. Uma reflexão sobre a “rotina e a novidade” que trespassam a nossa vida mas também a vida da Igreja.

Estamos já no outono e para um grande número de pessoas a vida retornou às suas rotinas habituais, depois do também habitual tempo de férias. Em bom rigor, não há nada de mal na rotina e no hábito. Pelo contrário, são essas realidades que nos permitem enfrentar os desafios da vida e desenvolver as tarefas a ela inerente de um modo mais tranquilo. Se assim não fosse, facilmente poderíamos sucumbir à ansiedade e à pressão que o desconhecido e a novidade parecem sempre trazer consigo. O hábito e a rotina parecem-me, pois, dimensões importantes da vida. Mas se isso é verdade, não o é menos o facto de reconhecermos a necessidade da novidade e da criatividade na experiência da vida. Se tudo fosse só rotina, se tudo se resumisse ao habitual, certamente que a vida corria o risco de um certo cinzentismo, tornando-se cada vez mais pesada, por ser sempre igual, por não abrir a novas possibilidades, a novos horizontes, a novas experiências.

Julgo bastar esta simples observação para ser facilmente percetível a importância que a rotina e a novidade ocupam nas nossas vidas. Digo isto em tempo de outono, porque se bem este possa simbolizar, para nós, este tempo de rotinas tão indispensáveis e necessárias, ele pode ser também tempo de gestação da novidade que, apesar de ainda não ser vista, pode começar a desenvolver-se de modo que, no momento oportuno, quando já esteja o suficientemente madura, possa marcar a vida renovando-a e robustecendo-a.

Ao nível da vida da Igreja esta leitura ajuda-me também a entender a Assembleia Sinodal que está a decorrer durante este mês de outubro. Nela vão estar presentes rotinas e hábitos, mas nela também se irá certamente procurar a novidade com criatividade. Nela seremos, igualmente, capazes de identificar tensões existentes entre rotina e novidade, entre hábito e criatividade. Porventura, algumas dessas tensões vão até provocar perplexidade levando muitos a interrogar-se sobre o futuro. Tudo isto deveria talvez ser assumido com uma certa naturalidade, porque a vida necessita, como já foi dito, da rotina e da novidade. Da novidade que nos ajuda a avançar, a ver diferente, a ousar novos caminhos, a fazer novas descobertas, a ensaiar outras possibilidades permitindo que a vida aconteça e avance, mesmo que seja no meio de alguma incerteza, porque sabemos que não podemos ficar parados a fazer sempre o mesmo e do mesmo modo, uma vez que a própria existência e a história mudam e vão exigindo novas respostas. Da rotina, porque a vida também exige uma certa estabilidade e segurança, porque os passos que somos chamados a dar também têm de ser firmes e requerem um solo consistente que seja conhecido, porque não é possível estar sempre a tentar, sem nunca consolidar e aprofundar, porque a vida tem também de ser rotina para ter um sabor que possa persistir e não seja sempre passageiro.

Em certo sentido, se pensarmos bem, rotina e novidade exigem-se e reclamam-se mutuamente até para poderem ser compreendidas e desenvolverem as suas dinâmicas. A novidade só é no meio de uma certa rotina. Se tudo for só novidade, então a novidade passaria a ser rotina. A rotina, por seu lado, pode mais facilmente ser percebida, quando a novidade nela irrompe. Sem o novo, dificilmente se poderia perceber e reconhecer a importância da estabilidade para o exercício da existência.

Novidade e rotina são dimensões fundamentais e indispensáveis para que a vida se possa verdadeiramente desenvolver em toda a sua plenitude. Como seria bom nesta etapa da vida da Igreja percebermos isso, para não cairmos em lutas e confrontações estéreis, que acabam por não levar a lado nenhum.

Talvez muito do que possamos ouvir e ver nesta Assembleia Sinodal possa parecer que tem as tonalidades e os sons do outono. Se assim for, não faz mal, desde que tenhamos a capacidade de perceber que o outono também pode ser belo, porque nele se começam a forjar as dinâmicas e as forças que, depois, serão capazes de sustentar a necessária novidade de que a vida (também a da Igreja) precisa.

Juan Ambrosio
juanamb@ucp.pt
Artigo da edição de outubro de 2023 do Jornal da Família

Partilhar:

Facebook
Twitter
Pinterest
LinkedIn
Relacionado

Outras Notícias

Pessoas que vivem com demência

Estantes que abanam, memórias que caem, emoções que permanecem. Foi esta simples metáfora que marcou Juan Ambrosio num encontro dedicado ao tema da demência. Viver com demência é perder memórias, sim, mas é, acima de tudo, continuar a ser pessoa. E, nesse território frágil, o carinho, a presença e a ternura deixam marcas que a doença não apaga.

Ler Mais >>

O elogio milagroso

“Um elogio justo e honesto” pode ser milagroso. A convicção é da professora Goretti Valente, que em época de exames convida a redescobrir o poder de dizer “Tu podes! Tu consegues!”, para levantar ânimos, fortalecer relações e transformar ambientes.

Ler Mais >>

Família é “terreno fértil” para uma cultura do cuidado

O Vaticano publicou o documento ‘A ecologia integral na vida da família’, reafirmando que “os valores que crescem na família são o terreno fértil de onde brota a vida da sociedade”. A nova publicação, fruto do trabalho conjunto de dois dicastérios, quer ajudar as famílias a “viver melhor o cuidado da Criação e de cada pessoa”.

Ler Mais >>

Inteligência artificial e educação – Que pensar? Que fazer?

A inteligência artificial (IA) entrou na escola com as suas potencialidades, mas também com riscos que não podemos ignorar. Entre o artificial e o natural, torna se essencial refletir sobre o lugar desta tecnologia na educação. E, sobretudo, recordar que nenhuma inovação pode substituir a relação humana que sustenta o ato de ensinar e aprender. A reflexão é do professor Carlos Campos.

Ler Mais >>