E depois da pandemia?

“A sociedade está cansada e não tem tempo”, afirma Cristiana Moreira numa reflexão sobre a empatia, ou a falta dela, num tempo em que as vidas voltaram a ser “engolidas pela rotina”.

No decorrer da tão recente e já esquecida pandemia por COVID-19, fomos obrigados a mudar a nossa forma de estar e viver em sociedade. Todos nós vivemos as consequências da doença, não só diretamente na saúde pessoal ou a de familiares e amigos, mas também indiretamente pela transformação que o nosso contexto laboral e social sofreu. Regras, distanciamento, quarentena. Pareciam ser todos eles ingredientes para a solidão e para o desinvestimento nas relações interpessoais. O tempo quase parou para muitos de nós, com trabalhos em suspenso, encontros desmarcados, portas de casa fechadas. Abriram-se, no entanto, janelas. A janela para o vizinho com quem nunca falámos, para olhar o céu com a calma que não costumamos ter, para cumprimentarmos quem traz as compras à porta de casa, para nos sentarmos na varanda e vermos fotografias da família com quem não estamos há alguns anos, de rezar a oração que a avó nos ensinou. A empatia voltou a ser o que não é nas vidas engolidas pela rotina. 

Estamos agora já a alguns meses do considerado fim da pandemia. E, olhando à minha volta, temo que a empatia criada se possa ter finado com ela. Antes queríamos dar sorrisos mas eram impedidos pelas máscaras; agora não temos máscaras mas também já quase não temos sorrisos. A sociedade está cansada e não tem tempo. Mas sorrir ao vizinho enquanto se abre a porta de casa demora o mesmo tempo que não o fazer; por cumprimentar o empregado que nos serve o café todas as manhãs não pagamos a mais na conta; ligar à família enquanto se caminha para o trabalho ou agradecer em oração o regresso a casa dão, provavelmente, ânimo para o resto do dia. A empatia é o único meio de ainda nos compreendermos. De compreendermos que só seremos capazes de ser individualmente, sendo em conjunto. 

Cristiana Moreira
Artigo da edição de novembro de 2023 do Jornal da Família

Partilhar:

Facebook
Twitter
Pinterest
LinkedIn
Relacionado

Outras Notícias

Sinais de esperança, sinais proféticos

Não basta apelar à esperança, há que ser testemunha e agente dessa esperança. “O texto da Bula de Proclamação do Jubileu 2025 identifica alguns sinais de esperança que, neste momento, é urgente protagonizar”, afirma Juan Ambrosio que nos guia pelo itinerário traçado pelo Papa Francisco.

Ler Mais >>

A caminho de El Rocío

Cristiano Cirillo passou por terras da Andaluzia e não podia deixar de peregrinar à Romaria da Virgem de El Rocío. Um olhar atento à história, à devoção mariana que ali se vive e a toda a festa que envolve a peregrinação.

Ler Mais >>

Dia dos Irmãos

“Se não formos fraternos, não somos humanos”, escreve a Comissão Episcopal do Laicado e Família na mensagem para o Dia dos Irmãos que se celebra a 31 de maio.

Ler Mais >>