Construir um mundo mais solidário, justo e pacífico

Os desafios e as oportunidades da Inteligência Artificial. A questão não é apenas tecnológica, é também ética. O olhar de Juan Ambrosio a partir da Mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial da Paz.

A mensagem do papa Francisco para do dia Mundial da Paz (1 janeiro de 2024) tem como título a Inteligência Artificial e a Paz. Nela, o Papa aborda uma das questões que, simultaneamente, representa um enorme desafio e uma enorme oportunidade, como se pode ler no texto:

“Justamente nos alegramos e sentimos reconhecidos pelas extraordinárias conquistas da ciência e da tecnologia, graças às quais se pôs remédio a inúmeros males que afligiam a vida humana e causavam grandes sofrimentos. Ao mesmo tempo, os progressos técnico-científicos, que permitem exercer um controle – até agora inédito – sobre a realidade, colocam nas mãos do homem um vasto leque de possibilidades, algumas das quais podem constituir um risco para a sobrevivência humana e um perigo para a casa comum.”

Por isso mesmo, como diz o Papa, “torna-se necessário interrogar-nos sobre algumas questões urgentes: quais serão as consequências, a médio e longo prazo, das novas tecnologias digitais? E que impacto terão elas sobre a vida dos indivíduos e da sociedade, sobre a estabilidade e a paz?”

Estou certo de que a resposta a estas questões é fundamental para o futuro que estamos a construir, uma vez que não me parece ser possível a sua simples proibição, ou diabolização, nem sequer estou convencido que pudéssemos ganhar muito com isso.

Sem sermos ingénuos, julgo que se devem aproveitar todas as possibilidades que podem ajudar a construir um mundo melhor e a promover a dignidade de todo o ser humano. Para isso será necessário perceber que este caminho não está somente relacionado com as possibilidades tecnológicas, mas deve ser também percorrido a partir de uma perspetiva ética, ou seja, o critério não pode ser somente fazer o que já é possível fazer, mas sim perceber se esse possível promove e dignifica o ser humano.

É nesse sentido que uma vez mais somos alertados para a importância decisiva da responsabilidade pela promoção do bem comum:

“Assim, a imensa expansão da tecnologia deve ser acompanhada por uma adequada formação da responsabilidade pelo seu desenvolvimento. A liberdade e a convivência pacífica ficam ameaçadas, quando os seres humanos cedem à tentação do egoísmo, do interesse próprio, da ânsia de lucro e da sede de poder. Por isso temos o dever de alargar o olhar e orientar a pesquisa técnico-científica para a prossecução da paz e do bem comum, ao serviço do desenvolvimento integral do homem e da comunidade.”

Quando pensamos estas questões no âmbito da paz e da guerra elas tornam-se, porventura, ainda mais evidentes, como se pode depreender do texto da mensagem:

“Nestes dias, contemplando o mundo que nos rodeia, não se pode ignorar as graves questões éticas relacionadas com o setor dos armamentos. A possibilidade de efetuar operações militares através de sistemas de controle remoto levou a uma perceção menor da devastação por eles causada e da responsabilidade da sua utilização, contribuindo para uma abordagem ainda mais fria e destacada da imensa tragédia da guerra.”

Os desafios educativos que, neste contexto, se levantam são evidentes, no sentido de preparar as novas gerações para a utilização responsável destas tecnologias, tal como se torna igualmente importante apontar critérios de discernimento ético a todos os criadores de tecnologias digitais, a partir da identificação daqueles valores humanos que devem ser tidos em conta na edificação das nossas sociedades.

No fim da mensagem, Francisco partilha o seu desejo a modo de interpelação para o novo ano que se inicia:

“No início do novo ano, a minha oração é que o rápido desenvolvimento de formas de inteligência artificial não aumente as já demasiadas desigualdades e injustiças presentes no mundo, mas contribua para pôr fim às guerras e conflitos e para aliviar muitas formas de sofrimento que afligem a família humana. Possam os fiéis cristãos, os crentes das várias religiões e os homens e mulheres de boa vontade colaborar harmoniosamente para aproveitar as oportunidades e enfrentar os desafios colocados pela revolução digital, e entregar às gerações futuras um mundo mais solidário, justo e pacífico.”

Fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para a construção deste mundo mais solidário, justo e pacífico, julgo que pode ser um bom compromisso a assumir durante este ano.

A todos os leitores desejo um feliz 2024.

Juan Ambrosio
juanamb@ucp.pt
Artigo da edição de janeiro de 2024 do Jornal da Família

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