Cultura do descarte

“A cultura do descarte é uma das mais significativas sequelas do vírus do narcisismo”, escreve Furtado Fernandes num artigo que reflete sobre o provisório e o efémero que caracterizam a atualidade.

Vivemos atualmente em sociedades que se caracterizam pelo endeusamento do provisório. O sociólogo polaco Zygmunt Bauman fala, a este propósito, dos Tempos Líquidos caracterizados pela incerteza e instabilidade.

“Quando tudo é encarado como instável e transitório, surgem emoções tão tóxicas como o desassossego, a angústia e o mal-estar, pois o ser humano precisa de um fundamentum para poder viver, precisa de uma terra firme onde se estabelecer e sentir-se protegido. Quando tudo é provisório, receia-se perder o que se tem, receia-se a solidão; também não faz sentido entregar a vida a algo efémero e volátil” (Francesc Torralba, Dicionário do Papa Francisco).

Cria-se, então, um círculo vicioso; porquanto as pessoas, temerosas das ameaças que impendem sobre elas, fecham-se cada vez mais e, por isso, ficam cada vez mais sós.

Como mecanismo de defesa ativa-se a autorreferencialidade que dá lastro ao crescimento do narcisismo. Gilles Lipovetsky (G. L.), autor do livro A Era do Vazio, fala do hiperindividualismo. “Hoje, as pessoas colocam-se num palco como se fossem estrelas e falam e partilham o que fazem e o que acontece na vida delas de modo permanente” (G. L., Jornal Expresso, 2023).

Como se compreende, a cultura do descarte, tão assertivamente denunciada pelo Papa Francisco, é uma das mais significativas sequelas do vírus do narcisismo.

Sem pretendermos ser exaustivos, enunciamos a perversidade de algumas das suas manifestações:

  • Abandono dos pobres à sua desdita, corroborando o aforismo “muito tens muito vales, nada tens nada vales”;
  • Trabalhadores injustamente remunerados, condenados a trabalhos precários, que não lhes permitem ter uma vida digna para si e para as suas famílias;
  • Não prestação dos cuidados requeridos às pessoas doentes, portadoras de deficiência, idosas e outras que se encontrem em situação de fragilidade ou de vulnerabilidade. Ainda recentemente, a propósito do Dia Mundial do Doente, que se assinala a 11 de fevereiro, o Papa Francisco lembrou que “há duas palavras que, quando alguns falam em doenças terminais, as confundem: incurável e in-cuidável. E não são a mesma coisa”;
  • Outro grupo vítima da cultura de descarte são aqueles seres humanos que, tendo sido concebidos, foi-lhes negado o direito de nascer. Para além das considerações que se possam fazer no plano religioso importa relevar, desde logo, que está em causa o cumprimento do artigo terceiro da Declaração Universal dos Direitos Humanos onde se estatui que “todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal”;
  • Muitas famílias também sucumbem às vicissitudes da vida e às contingências do tempo. “E assim é numa cultura consumista como a nossa, que favorece o produto pronto para uso imediato, o prazer passageiro, a satisfação instantânea, resultados que não exijam esforços prolongados, receitas testadas, garantias de seguro total e devolução do dinheiro. A promessa de aprender a arte de amar é a oferta (falsa, enganosa, mas que se deseja ardentemente que seja verdadeira) de construir a «experiência amorosa» à semelhança de outras mercadorias, que fascinam e seduzem exibindo todas essas características e prometem desejo sem ansiedade, esforço sem suor e resultados sem esforço. Sem humildade e coragem não há amor” (Zygmunt Bauman, Amor Líquido).

Como antídoto à cultura do descarte, induzida pela autorreferencialidade e pelo hermetismo da consciência, o Papa Francisco propõe a cultura do encontro, “reivindica que saiamos de nós mesmos, que realizemos o movimento, sempre incerto e de consequências desconhecidas, de ir para fora, o que significa abrir-se ao outro e estar disposto a acolhê-lo” (Francesc Torralba, Dicionário do Papa Francisco).

Furtado Fernandes
j.furtado.fernandes@sapo.pt
Artigo da edição e abril de 2024 do Jornal da Família

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