Desafios da adoção

A adoção é sempre um desafio, mas o desafio torna-se ainda maior na adoção de crianças mais velhas, o que leva os pais adotantes a preferir crianças ainda bebés. Furtado Fernandes relata um caso de adoção de dois irmãos, com mais de 6 anos, que contraria a ideia que a adoção de crianças mais velhas é mais problemática.

“Todos aqueles que se abrem a acolher a vida através da via da adoção praticam um comportamento generoso, bonito. S. José mostra-nos que este tipo de vínculo não é secundário, não é uma alternativa. Este tipo de escolha está entre as formas mais elevadas de amor e de paternidade e maternidade. Quantas crianças no mundo estão à espera de alguém que cuide delas! E quantos cônjuges desejam ser pais e mães, mas não conseguem por razões biológicas; ou, embora já tenham filhos, querem partilhar o afeto familiar com quantos não o têm. Não devemos ter medo de escolher o caminho da adoção, de assumir o “risco” do acolhimento” (Papa Francisco).

Adotar é um desafio, tal é incontestável, para quem tem o privilégio de ser mãe e pai e para quem, finalmente, pode sentir-se filho/a e pertencer a uma família. Esta é uma questão, portanto, que tem de ser analisada quer do lado dos pais – das dificuldades que atravessam durante o processo de adoção – quer do lado dos filhos – que são levados por uns “estranhos” a quem dizem ser a mãe e o pai, para um sítio que nunca viram, e sem conhecerem ninguém, sendo que, para as crianças, todo este processo as marcará profundamente para o resto da sua vida.

A maioria das famílias habilitadas para adoção deseja crianças sem irmãos, saudáveis e com idade até aos 2 anos – esse é o chamado perfil clássico.

Trata-se, neste caso, de constituir famílias pela adoção de bebés e, nesse contexto, ver os seus primeiros passos e sentir um encanto semelhante à maternidade/paternidade biológica. Contudo, sabemos que há um passado e, mesmo nestes casos, há que lidar com todos os questionamentos num futuro mais ou menos próximo. Este é um enorme desafio: o de acolher na nova família, uma outra família que não se conhece, que se calhar nunca se conhecerá, que possivelmente nem se quererá conhecer, mas que será sempre a outra história dos filhos. E vai estar lá sempre. Para o resto da vida. Não vale a pena negar. O segundo desafio é assim o de aceitar e saber que, por causa dessa família, pelo que fizeram certo e pelos erros cometidos, permitiram que outros fossem pais.

Apresentamos, em seguida, um casal que adotou uma fratria de duas crianças com mais de seis anos. Diremos, por conseguinte, tratar-se de uma adoção que, estatisticamente, se distingue do padrão “normal”.

Supostamente esta seria uma adoção mais problemática, assim considerada pela grande maioria dos casais que, como referimos anteriormente, prefere outra opção.

Ora o que constatámos, neste caso, de acordo com o que alguma literatura da especialidade vem sinalizando, foi que esta adoção, em concreto, apresentou vantagens:

  • O irmão mais velho assumiu, de alguma forma, uma função de protetor do mais novo, o que, obviamente, teve um impacto positivo no processo de vinculação;
  • Uma maior celeridade no processo de adoção, porquanto é menor o número de candidatos para este perfil de adoção. “Tudo correu bem e, mais surpreendente, rápido! Pensamos que este facto se relaciona, sobretudo, com o fator idade. Ser pais de crianças com mais de 6 anos era mais do que um critério que acelerava o processo, mas um desejo, porque sabíamos que eram esses mesmos meninos que, infelizmente, têm menor probabilidade de sair de uma instituição”.

Para todos os filhos – quer biológicos, quer adotados – é sempre importante relembrar as palavras do Papa Francisco na sua Exortação Apostólica A Alegria do Amor:

“Os pais necessitam também da escola para assegurar uma instrução de base aos seus filhos, mas a sua formação moral nunca pode ser delegada totalmente. O desenvolvimento afetivo e ético duma pessoa requer uma experiência fundamental: crer que os próprios pais são dignos de confiança. Isto constitui uma responsabilidade educativa: com o carinho e o testemunho, gerar confiança nos filhos, inspirar-lhes um respeito amoroso. Quando um filho deixa de sentir que é precioso para os seus pais, embora imperfeito, ou deixa de notar que nutrem uma sincera preocupação por ele, isto gera feridas profundas que causam muitas dificuldades no seu amadurecimento”.

Furtado Fernandes
j.furtado.fernandes@sapo.pt
Artigo da edição de julho de 2024 do Jornal da Família

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