Tenho ouvido com preocupação várias afirmações proferidas por líderes a nível internacional. O que dizem e o modo e o tom com que o dizem não nos podem deixar indiferentes, pois claramente indiciam caminhos onde a procura do bem comum, a cooperação e o diálogo não parecem ser critérios a ter em conta.
Por isso dei por mim a reler o capítulo VI da Encíclica Fratelli Tutti do Papa Francisco, dedicado ao diálogo e à amizade social.
O capítulo começa assim:
Aproximar-se, expressar-se, ouvir-se, olhar-se, conhecer-se, esforçar-se por entender-se, procurar pontos de contacto: tudo isto se resume no verbo «dialogar». Para nos encontrar e ajudar mutuamente, precisamos de dialogar. Não é necessário dizer para que serve o diálogo; é suficiente pensar como seria o mundo sem o diálogo paciente de tantas pessoas generosas, que mantiveram unidas famílias e comunidades. O diálogo perseverante e corajoso não faz notícia como as desavenças e os conflitos; e contudo, de forma discreta mas muito mais do que possamos notar, ajuda o mundo a viver melhor. (nº 198)
Nele podemos encontrar sugeridas atitudes que me parecem ser verdadeiramente fundamentais: aproximar-se, ouvir-se, conhecer-se, esforçar-se por entender-se e procurar pontos de contacto. Atitudes que estruturam o exercício e a experiência do diálogo que é absolutamente necessário na edificação de um futuro diferente daquele que as afirmações a que me refiro apontam.
Ao longo do capítulo, o diálogo é refletido como condição indispensável para a construção da paz, da justiça e da fraternidade. Não se trata apenas de negociar interesses ou de alcançar compromissos pragmáticos, mas de criar um verdadeiro encontro entre pessoas e povos, fundado no respeito pela dignidade humana e na busca sincera da verdade.
Colocar a dignidade humana no centro das decisões e não os interesses estratégicos das partes, procurando sempre a proteção das pessoas, sobretudo dos mais vulneráveis; privilegiar a cooperação sobre o confronto, promovendo a escuta mútua e a corresponsabilidade global; promover espaços permanentes de diálogo, mais do que encontros ocasionais em momentos de crise, favorecendo a confiança, a mediação e a construção paciente de consensos; valorizar a verdade com atitudes de transparência e honestidade e combater a desinformação, que enfraquece a confiança entre povos e governos; cultivar uma linguagem de respeito e amabilidade, renunciando a discursos ofensivos, humilhantes ou polarizadores e procurando construir pontes em vez de levantar muros; apostar na cultura do encontro, que não ilumina as diferenças, mas as procura integrar numa visão mais ampla do bem comum, ajudando a entender que a diversidade pode tornar-se numa riqueza quando vivida no respeito e na fraternidade, são citérios destacados e a ter em conta no exercício do verdadeiro diálogo
Estes critérios, tão simples quanto exigentes, não são apenas orientações para as relações entre Estados ou para a diplomacia internacional. Podem ser, também, um programa de vida para cada um de nós e das nossas famílias. Também nas nossas famílias, comunidades e lugares de trabalho somos chamados a aproximar-nos uns dos outros, a escutar com atenção, a compreender antes de julgar e a procurar aquilo que nos une, em vez de nos fixarmos apenas naquilo que nos separa. Julgo ser deste modo que podemos construir uma verdadeira cultura do encontro.
Perante um mundo onde tantas vozes parecem apostar na divisão, no confronto e na lógica da força, a experiência do verdadeiro diálogo continua a ser o caminho mais humano e mais eficaz para construir o futuro.
Os cristãos e as suas comunidades são chamados a ser artesãos da fraternidade e da paz no quotidiano, cultivando palavras que aproximam, gestos que reconciliam e atitudes que geram confiança. Talvez estes gestos não ocupem as manchetes dos jornais, mas ajudam, dia após dia, a tornar o mundo mais humano, mais justo e mais fraterno.
Juan Ambrosio
juanamb@ucp.pt
Artigo da edição de outubro de 2026 do Jornal da Família
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