Queridos Pais,
Eu não sou a vossa mensageira.
Pai, mãe, há uma coisa que eu preciso que entendam.
Eu sou vossa filha. Não sou a vossa mensageira, nem a pessoa que deve levar recados de um para o outro.
Não me digam: “Diz ao pai…”
Não me digam: “Diz à mãe…”
Se têm alguma coisa para dizer um ao outro, por favor, falem diretamente um com o outro.
Não me peçam para transmitir mensagens, fazer perguntas, dar respostas ou explicar o que o outro quis dizer.
Quando me dizem “diz ao pai que…”, eu sinto que tenho de escolher um lado.
Quando me dizem “diz à mãe que…”, eu sinto que estou no meio de uma conversa que não é minha.
E eu não quero estar no meio.
Mesmo que vivam na mesma casa, eu não devo ser o caminho entre os dois.
E se já não vivem juntos, isso não muda nada.
Eu continuo a ser filha dos dois.
Não quero ouvir coisas como:
“O pai não fez…”
“A mãe nunca…”
“Diz-lhe que eu…”
“Pergunta-lhe porquê…”
Se estão zangados, resolvam os vossos problemas entre os dois.
E se falar um com o outro é difícil, então encontrem outra forma.
Podem escrever uma mensagem.
Podem escrever uma carta.
Podem mandar um e-mail.
Podem deixar por escrito aquilo que precisam de dizer.
Mas, por favor, não me usem para fazer chegar as palavras ao outro.
Eu não quero ser o caminho entre os dois.
Se precisam de esclarecer alguma coisa, conversem.
Se não conseguem conversar naquele momento, escrevam.
Se precisam de tempo, tenham esse tempo.
Não me coloquem a carregar palavras que não são minhas, sentimentos que não são meus ou conflitos que não me pertencem.
Eu não quero ser obrigada a guardar segredos.
Não quero ter de escolher o que contar a cada um.
Não quero sentir que, quando estou com um, estou a trair o outro.
Quero poder amar o meu pai sem sentir que estou a magoar a minha mãe.
Quero poder amar a minha mãe sem sentir que estou a magoar o meu pai.
Eu não sou o vosso campo de batalha.
Não me façam escolher lados.
Não me façam tomar partido.
Não me façam sentir responsável pela vossa relação.
Eu sou apenas uma criança — ou, mesmo quando crescer, continuarei a ser vossa filha.
Preciso que sejam os dois a resolver aquilo que é vosso.
Eu preciso de poder ser criança.
Preciso de poder falar com os dois.
Preciso de poder estar com os dois sem medo de dizer algo errado.
Por isso, digam diretamente. Falem. Escrevam. Encontrem a vossa forma.
Mas deixem-me ser apenas vossa filha.
Porque eu não sou a vossa mensageira.
Eu sou vossa filha. E preciso que me deixem ser apenas isso.
Marina Amaro
Artigo da edição de outubro de 2026 Jornal da Família





