Os Institutos Seculares em Portugal deram início à preparação da celebração dos 80 anos da constituição apostólica ‘Provida Mater Ecclesia’, documento através do qual o Papa Pio XII reconheceu oficialmente, a 2 de fevereiro de 1947, esta forma de consagração no seio da Igreja. O caminho de mobilização arrancou no dia 19 de setembro, na Casa da Sagrada Família, em Coimbra, por iniciativa da CNISP – Conferência Nacional dos Institutos Seculares de Portugal.
O grande momento comemorativo está agendado para 30 de janeiro de 2027, em Fátima, e pretende reunir não apenas os membros dos diferentes institutos, mas também familiares, amigos e sacerdotes, dando maior visibilidade a uma vocação que vive a consagração no coração das realidades seculares.
“Gostávamos que cada instituto e cada membro dos institutos levasse pessoas amigas, sacerdotes amigos, e que isso fosse um grande encontro a nível nacional, de forma a dar visibilidade aos institutos seculares”, afirmou Conceição Vieira, presidente da CNISP e coordenadora-geral do Instituto Secular das Cooperadoras da Família (ISCF).

Equipa diretiva da CNISP: Rosário Virgílio, Conceição Vieira, José Carlos Coelho (da esquerda para a direita)
O programa previsto para a celebração inicia-se às 11h00 com uma Eucaristia na Basílica da Santíssima Trindade. A parte da tarde será vivida na casa de Retiros do ISCF e começa com um almoço, seguido de uma conferência a cargo da teóloga Sónia da Silva Monteiro. O final da tarde é reservado a um momento de ação de graças com um Te Deum e um Porto de Honra.
Mais do que assinalar uma efeméride, a iniciativa pretende reforçar a identidade e a missão dos Institutos Seculares num contexto marcado por desafios significativos, mas também por sinais de esperança. “Os institutos têm os seus problemas, estão envelhecidos, mas isso não nos deve fazer parar, porque Deus chama, continua a chamar. Nós temos é que anunciar esta vocação com alegria e com entusiasmo”, sublinhou Conceição Vieira.
Ecos de Madrid: uma mensagem de esperança
O encontro de Coimbra foi também ocasião para partilhar as reflexões trazidas do Congresso e Assembleia da Conferência Mundial dos Institutos Seculares (CMIS), realizados em agosto, em Madrid, sob o tema «No coração do mundo. Qual profecia de esperança?».
Segundo Conceição Vieira, os participantes portugueses regressaram com uma mensagem de “esperança, confiança e motivação”, num momento em que a realidade mundial dos Institutos Seculares apresenta contrastes. Um inquérito internacional apresentado no congresso revelou o envelhecimento de muitos institutos, especialmente na Europa, mas mostrou também o seu crescimento e expansão em várias regiões do mundo, sobretudo em África e na América.
Foi este horizonte de esperança que marcou os testemunhos apresentados em Coimbra por duas consagradas seculares que participaram no encontro internacional: Angélica Galvão, do Instituto Secular das Cooperadoras da Família, e Magda Magano, do Instituto Secular Missionário Servas do Apostolado.

Angélica Galvão, do Instituto Secular das Cooperadoras da Família e Magda Magano, do Instituto Secular Missionário Servas do Apostolado (da esquerda para a direita)
«viver dentro» do mundo e com o coração dentro de Deus
No seu testemunho, Angélica Galvão confessou que a palavra que melhor resume a experiência de Madrid é “esperança”. O contacto com homens e mulheres provenientes de diferentes continentes, culturas e formas diferentes de viver a consagração secular levou-a a descobrir uma comunhão capaz de ultrapassar todas as diferenças.
“Não precisávamos de ser iguais para nos reconhecermos. E isso foi, para mim, uma experiência muito concreta de esperança”, referiu.
“Deus continua a chamar, o Espírito continua a agir e o Evangelho continua a ter alguma coisa a dizer ao mundo, hoje”, acrescentou.
Entre as reflexões que mais a marcaram destacou-se a expressão italiana Vivere dentro (“viver dentro”), apresentada pela Ir. Simona Brambilla, prefeita do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica. Para Angélica, esta fórmula traduz a essência da vocação dos Institutos Seculares: viver plenamente inseridos no mundo, nas famílias, profissões e instituições, sem perder o enraizamento em Deus.
Através das imagens evangélicas da semente, do fermento e das vidas de Simeão e Ana, a participante portuguesa salientou ainda a importância de reconhecer os sinais discretos da ação de Deus e de cultivar uma presença capaz de cuidar, reconciliar e gerar esperança.
Daí a imagem que trouxe consigo de ser “pessoas-remédio”, presenças que levam “esperança onde há desânimo”, presenças que “ajudam a vida a respirar”.
Angélica regressou de Madrid com mais perguntas do que respostas, mas também com uma confiança renovada. Acredita que, apesar das fragilidades e desafios dos Institutos Seculares, o Espírito Santo continua a suscitar vida, a semear futuro e a fazer crescer o Reino de Deus de forma discreta, mas eficaz. A grande mensagem que traz consigo é um convite a «viver dentro» do mundo e das suas mudanças, sempre com o coração dentro de Deus, tornando-se presença de cuidado e esperança junto das pessoas.
“a força silenciosa da secularidade consagrada”
Também Magda Magano regressou de Madrid com a convicção de que a esperança continua presente no quotidiano das pessoas. No testemunho apresentado em Coimbra, sublinhou que o congresso foi uma experiência que tocou profundamente a vida dos participantes.
A consagrada destacou particularmente o ambiente de comunhão vivido desde a abertura dos trabalhos e a riqueza dos testemunhos provenientes da Europa, Ásia, África e Américas, unidos pela mesma fidelidade à missão secular.
“A esperança não nasce apenas dos grandes acontecimentos. Nasce sobretudo da vida concreta de pessoas que, no seu local de trabalho, na família, na sociedade ou nas periferias existenciais, continuam a acreditar que o Evangelho pode transformar o mundo a partir de dentro. Aí reside a força silenciosa da secularidade consagrada”, referiu.
Os trabalhos realizados permitiram, acrescentou, viver uma verdadeira experiência “de escuta, discernimento e comunhão”. A visita a Ávila, berço espiritual de Santa Teresa de Jesus, reforçou ainda o convite à interioridade e à confiança na ação de Deus.
“Volto a casa mais consciente de que a nossa vocação é precisamente esta: permanecer no coração do mundo, com o coração de Cristo, sendo presença humilde, discreta e fiel”, concluiu.
IM





