“A Terra não é herdada dos nossos antepassados, nós pedimo-la emprestada para os nossos filhos” (Saint-Exupéry).
Bom seria se respeitássemos este imperativo.
Ao invés, os 10 anos com as temperaturas mais elevadas de sempre, ocorreram naúltima década (2015-2025), sendo certo que este ano, com a canícula conhecida, irá, seguramente, figurar neste “ranking”.
“O aquecimento influencia o ciclo do carbono. Cria um círculo vicioso que agrava ainda mais a situação e que incidirá sobre a disponibilidade de recursos essenciais como a água potável, a energia e a produção agrícola das áreas mais quentes, e provocará a extinção de parte da biodiversidade do Planeta. O derretimento das calotas polares e dos glaciares a grande altitude ameaça com uma libertação, de alto risco, de gás metano, e a decomposição da matéria orgânica congelada o que poderá acentuar ainda mais a emissão de anidrido carbónico. Entretanto a perda das florestas tropicais piora a situação, pois estas ajudam a mitigar a mudança climática. A poluição produzida pelo anidrido carbónico aumenta a acidez dos oceanos e compromete a cadeia alimentar marinha. Se a tendência atual se mantiver, este século poderá ser testemunha de mudanças climáticas inauditas e duma destruição sem precedentes dos ecossistemas, com graves consequências para todos nós. Por exemplo, a subida do nível do mar pode criar situações de extrema gravidade, dado que um quarto da população mundial vive à beira-mar ou muito perto dele, e a maior parte das megacidades estão situadas em áreas costeiras” (Papa Francisco, Laudato Si).
As consequências para a saúde são devastadoras, designadamente para as crianças e para os idosos.
No que concerne às crianças, Kitty van der Heijden , subsecretária-geral da Unicef, numa entrevista dada ao Público em 12 julho, é bem clara:
“Há 1,5 milhões de crianças que estão expostas a ondas de calor e 1,2 milhões de crianças que estão regularmente expostas ao que chamamos calor extremo. (…). Esse impacto começa antes de nascerem. (…). As mulheres têm gravidezes mais curtas, com nascimentos prematuros. Uma onda de calor extremo também tem impacto no modo como o feto está a crescer. (…). O feto não recebe nutrientes suficientes através da placenta, o que compromete o seu desenvolvimento cognitivo. As conexões neurológicas não são feitas bem, e isso leva a mudanças nos gânglios de base, que modulam as nossas faculdades motoras e comportamentais e a nossa regulação emocional”.
Como diz D. José Tolentino de Mendonça, em Para os Caminhantes tudo é Caminho, “Precisamos de nos tornar cuidadores, praticando uma responsabilidade operativa por tudo o que é comum e não apenas pelo que é nosso. Precisamos de escutar os gemidos da terra como escutamos os gemidos do próprio corpo”.
Lamentavelmente estamos longe de cumprir com este desiderato!
“Já passaram oito anos desde a publicação da carta encíclica Laudato Si, quando quis partilhar com todos vós, irmãs e irmãos do nosso maltratado planeta, a minha profunda preocupação pelo cuidado da nossa Casa Comum. Mas, com o passar do tempo, dou-me conta de que não estamos a reagir de modo satisfatório, pois este mundo que nos acolhe, está-se esboroando e talvez aproximando dum ponto de rutura, não há dúvida que o impacto da mudança climática prejudicará cada vez mais a vida de muitas pessoas e famílias. Sentiremos os seus efeitos em termos de saúde, emprego, acesso aos recursos, habitação, migrações forçadas e noutros âmbito” (Papa Francisco, Laudate Deum).
O desenvolvimento da Inteligência Artificial (IA) coloca, também, nesta sede, desafios a que urge responder, como refere o Papa Leão XIV, na Carta Encíclica Magnifica Humanitas:
“Ao alargar o olhar para a utilização da IA nas nossas sociedades, constatamos que está já presente nos processos de tomada de decisão em todos os domínios e a vários níveis: na comunicação, na gestão e no controle. As vantagens em termos de eficiência e o potencial de melhoria de alguns serviços são evidentes; todavia, uma adoção rápida e acrítica expõe-nos a vários riscos, entre os quais o de subestimar o seu impacto ambiental. Os atuais sistemas de IA requerem grandes quantidades de energia e água, têm um impacto significativo nas emissões de dióxido de carbono e consomem recursos de forma intensiva. Com o aumento da complexidade, sobretudo nos grandes modelos linguísticos, crescem também as necessidades de poder de cálculo e capacidade de armazenamento, que se apoiam num conjunto de máquinas, cabos, centros de dados e infraestruturas consumidoras de muita energia. Por isso, é essencial desenvolver soluções tecnológicas mais sustentáveis para reduzir o impacto ambiental e cuidar da nossa Casa Comum”.
Furtado Fernandes
j.furtado.fernandes@sapo.pt
Artigo da edição de outubro de 2026 do Jornal da Família
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