Reforçar a educação dos filhos

Num dos Relatórios Mundiais da Educação, escrito há aproximadamente 20 anos, tive a oportunidade de ler uma das frases que considero mais clarividentes no que diz respeito à ligação existente entre a educação e o futuro que estamos a construir. Sem a intenção de a traduzir literalmente, deixo aqui aquele que é o seu sentido: «O futuro que queremos deixar às nossas crianças depende das crianças que formos capazes de deixar a esse futuro.» O sentido da afirmação parece-me óbvio, mas porque o considero da maior importância, reforço-o dizendo-o de novo por outras palavras. Nenhum de nós tem dúvidas que vivemos num mundo de profundas transformações, onde as decisões que tomarmos terão a maior relevância para o nosso futuro. É neste preciso momento, parece-me a mim de uma maneira muito clara, que estamos a traçar os caminhos que marcarão a vida das próximas gerações. Precisamos urgentemente de construir um mundo mais solidário, mais justo e mais fraterno, no fundo um mundo mais humano onde não haja lugar nem para ‘descartados’, nem para ‘sobrantes’. Ora bem, um mundo desses só pode ser edificado se educarmos essas mesmas gerações na linha de uma maior solidariedade, justiça e fraternidade. A educação surge, assim, como uma daquelas realidades mais importantes e mais decisivas em todo este processo.

Num texto dedicado à família e à importância que esta tem para o futuro do mundo e da Igreja, como é a Exortação Amoris Laetitia, não é, pois, de estranhar que exista um capítulo, o sétimo, que tenha como temática a educação dos filhos. Logo nas suas primeiras linhas podemos encontrar uma afirmação, onde o papa Francisco situa a questão: “Os pais incidem sempre, para bem ou para mal, no desenvolvimento moral dos seus filhos. Consequentemente, o melhor é aceitarem esta responsabilidade inevitável e realizarem-na de modo consciente, entusiasta, razoável e apropriado.” (nº 259)

Mais claro não se poderia ser. Na educação dos filhos, ou se quisermos para ligar com o que anteriormente dizia, na educação das próximas gerações, o papel da família, e no seu contexto o papel dos pais, é absolutamente fundamental. A este propósito o texto da Exortação chama-nos a atenção para alguns aspetos decisivos, dos quais faço aqui referência apenas a alguns. No contexto do acompanhamento dos filhos diz-nos, por exemplo, que,

“a grande questão não é [saber] onde está fisicamente o filho, com quem está neste momento, mas onde se encontra em sentido existencial, onde está posicionado do ponto de vista das suas convicções, dos seus objetivos, dos seus desejos, do seu projeto de vida.” (nº 262)

Pessoalmente não tenho dúvidas de que o ‘sítio’ onde repousa o coração de cada um é onde se joga, com verdade, o sentido da vida. Por isso a tarefa dos pais não pode deixar de incluir a educação da vontade e o desenvolvimento dos hábitos, para que os filhos se habituem a querer e a fazer o bem para si e para os outros (cf. nº 264). A este propósito, lembra ainda que “esta formação deve ser realizada de forma indutiva, de modo que o filho possa chegar a descobrir por si mesmo a importância de determinados valores, princípios e normas, em vez de lhos impor como verdades indiscutíveis.” (nº 264)

Em toda esta dinâmica, a liberdade, como não poderia deixar de ser, tem um lugar de destaque. Neste sentido diz-se explicitamente que “o que interessa acima de tudo é gerar no filho, com muito amor, processos de amadurecimento da sua liberdade, de preparação, de crescimento integral, de cultivo da autêntica autonomia.” (nº 261)

E para que não restem dúvidas, insiste, afirmando que:

“A educação envolve a tarefa de promover liberdades responsáveis, que, nas encruzilhadas, saibam optar com sensatez e inteligência; pessoas que compreendam sem reservas que a sua vida e a vida da sua comunidade estão nas suas mãos e que esta liberdade é um dom imenso.” (261)

A missão da família na tarefa da educação em todos os seus âmbitos, também no da proposição e transmissão da fé, tem nesta Exortação um lugar de destaque. Também neste contexto temos de aprender a olhar e ensinar a olhar a partir daquela beleza e daquela bondade que são capazes de transformar o mundo.

Texto: Juan Ambrosio – Jornal da Família – Edição julho

Partilhar:

Facebook
Twitter
Pinterest
LinkedIn
Relacionado

Outras Notícias

O primeiro lugar onde aprendemos a amar

No Dia Internacional da Família somos convidados a olhar para o lar como o primeiro espaço onde se aprende a amar. Entre gestos de escuta, partilha, perdão e cuidado, é no quotidiano familiar que se formam os laços e se constrói, dia após dia, a educação do coração.

Ler Mais >>

O contexto histórico da ‘Provida Mater Ecclesia’

Tornar mais conhecida a Consagração Secular é o objetivo de uma série de artigos que o Jornal da Família vai publicar ao longo dos próximos meses. A iniciativa tem no horizonte o dia 30 de janeiro de 2027, data em que os Institutos Seculares Portugueses vão celebrar os 80 anos da Constituição Apostólica Provida Mater Ecclesia. Este documento, publicado pelo Papa Pio XII, reconhece a Consagração Secular como uma forma legítima de vocação na Igreja. No primeiro artigo olhamos para o ano de 1947 para “O contexto histórico da Provida Mater Ecclesia”

Ler Mais >>

Redes sociais degradam bem-estar dos adolescentes

À medida que estudos e relatórios revelam o impacto negativo das redes sociais no bem‑estar dos adolescentes, torna‑se claro que a família, a escola e a sociedade têm um papel fundamental a desempenhar: educar para o amor, para os limites e para um uso responsável da tecnologia. Opinião de Jorge Cotovio.

Ler Mais >>