Redes sociais degradam bem-estar dos adolescentes

À medida que estudos e relatórios revelam o impacto negativo das redes sociais no bem‑estar dos adolescentes, torna‑se claro que a família, a escola e a sociedade têm um papel fundamental a desempenhar: educar para o amor, para os limites e para um uso responsável da tecnologia. Opinião de Jorge Cotovio.

Era este o título de uma recente reportagem transmitida num dos canais televisivos, a propósito de mais um estudo internacional que confirma o que o senso comum perceciona (e já previa há muito): o mau uso das redes sociais está a contribuir para a infelicidade dos nossos adolescentes (que serão futuramente jovens e depois adultos), levando-os, muitas vezes, a cometer crimes.

O mesmo estudo dá conta de uma deterioração geral do contexto digital dos adolescentes ao longo dos anos – o que também não nos surpreende. Se aliarmos este efeito aos novos impactos – ainda não devidamente investigados – da má utilização da Inteligência Artificial (IA), temos os ingredientes ideais para um quadro deveras preocupante.

As consequências vão estando à vista. Além do aumento de casos depressivos – como já tive ocasião de partilhar em anterior apontamento – há o gradual aumento do desinteresse pela escola e pelas aprendizagens, que gera, naturalmente, casos de indisciplina, e uma delinquência precoce, que afeta toda a sociedade. A este propósito, já não podemos estranhar que um quinto dos arguidos por violação tenha menos de 20 anos de idade, tendo aumentado a violência sexual dos rapazes contra as raparigas “à boleia da cultura digital e da pornografia”, como referia o jornal Público em recente reportagem sobre o julgamento dos quatro jovens influenciadores acusados de violação agravada de uma menor, e baseado nos dados do Relatório Anual de Segurança Interna (RASI), referentes a 2025.

Nada disto, infelizmente, surpreende quem conhece a vulnerabilidade própria de um adolescente, ainda à procura da sua verdadeira personalidade. Se não foi “bemeducado”, facilmente resvala para o sensorial, na busca sôfrega do que lhe dá prazer imediato, odiando tudo o que lhe causa esforço e sacrifício – porque, na família, não foi educado para estes princípios.

Mas, segundo o RASI, “estes números são a ponta do iceberg porque a esmagadora maioria dos casos de violação, como da violência sexual em geral, não são reportados”, acrescentando que os autores e vítimas são, em geral, menores de 16 anos, “concentrando-se a prática delituosa na faixa etária dos 14-15 anos”.

Não, não pensemos que estas coisas só sucedem com adolescentes que crescem em ambientes suspeitos. Aliás, o RASI esclarece muito bem esta perceção: “Os intervenientes envolvidos, tanto suspeitos como vítimas, pertencem, em geral, a núcleos perfeitamente integrados em termos sociais e frequentam o ensino regular, sobretudo ao nível do secundário, sem prejuízo de haver aqui também casos marcados por contextos familiares disfuncionais”.

São, sem dúvida, “alarmantes”, mais estes sinais. E merecem reflexão e mudança de atitudes da parte de todos, a começar pelos adolescentes (que já têm pensamento, capacidade de decisão e personalidade), mas comprometendo, igualmente, a família, a escola, as políticas públicas e as instituições estatais, a Igreja, a sociedade.

Se o RASI comprova que “muitas vezes os crimes associam-se ao consumo de álcool em festas”, há que investir na fiscalização. Mas, a montante, está, sem dúvida, e em primeiríssimo lugar, a família – onde verdadeiramente se deve educar para o amor e a responsabilidade (o afeto e os limites…) – e a escola – onde se estimulam as (boas) aprendizagens, se desenvolve o raciocínio, se promove a socialização.

Está também nas nossas mãos inverter estas tendências dramáticas. E se muito do que já hoje acontece entre nós e pelo mundo fora é consequência de uma deficiente educação dada pelos pais que agora têm cabelos grisalhos ou brancos (mesmo com famílias bem estruturadas, muito religiosas e muito certinhas…), não queiramos complicar ainda mais o futuro dos nossos filhos e netos. Cada um de nós tem, pois, a “gravíssima” obrigação de cuidar deste seriíssimo problema, atuando na sua família, no seu local de trabalho e de ação pastoral, na sua rede de amigos e conhecidos.

Para que quadros desta natureza deixem de ser notícia. E para formarmos gerações capazes de amar, de respeitar, de pensar e de escolher o bem, mesmo quando isso exige esforço. Como recordou recentemente o Papa Leão XIV, “a tecnologia só serve verdadeiramente o homem quando o aproxima da verdade, da responsabilidade e do encontro com o outro”. Eis o desafio do nosso tempo: humanizar o digital, recuperar a autoridade educativa da família e da escola, e devolver aos mais novos razões para esperar, crescer e viver com sentido. Só assim teremos um futuro “como deve ser”.

Jorge Cotovio
jfcotovio@gmail.com
Artigo da edição de maio de 2026 do Jornal da Família

Foto: Freepick

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