Reduzir – Reutilizar – Reciclar

Os “três erres” só são eficazes se forem aplicados com sensatez, inteligência e persistência, escreve Carlos Campos na rubrica do Jornal da Família a Terra e os Homens.

A “política dos três erres” – Reduzir, Reutilizar, Reciclar é referida desde há pelo menos três décadas para recordar algumas regras destinadas a evitar os efeitos negativos da produção de resíduos. Estas regras podem ser aplicadas a todos os níveis, desde a legislação e atuação do Estado até às nossas casas. 

Reduzir
A melhor forma de evitar o efeito negativo dos resíduos é evitar produzi-los. Como a produção de resíduos está associada ao consumo, quanto menos se consumir, menos resíduos se produzem. Contrariar o consumismo e o descarte é uma forma de atacar o problema da poluição na sua origem. A ideia deve ser aplicada com bom senso e inteligência. Por vezes, os motivos ambientais são usados para “justificar” medidas de restrição do consumo que acabam por não ter eficácia ambiental ou mesmo por provocar efeitos negativos para o ambiente. Na realidade, não é o consumo que causa a poluição, mas o excesso e a irresponsabilidade no consumo. Um exemplo prático: imaginemos que, para contrariar a tendência para o aumento dos resíduos de embalagens, se proíbe a utilização das embalagens de determinados produtos. O efeito das medidas deste género é normalmente o contrário ao desejado: reduz-se a produção de resíduos de embalagens, mas como os produtos deixam de ser protegidos e conservados pelas embalagens, aumentam os resíduos de produtos (estragados, danificados, rejeitados). Bem mais sensato e inteligente é utilizar embalagens adequadas, isto é, com a dimensão adequada e as caraterísticas indispensáveis para proteger e conservar o produto. Isto pode ser feito pelo consumidor (escolher o produto com a embalagem mais adequada) mas é sobretudo uma tarefa de quem concebe as embalagens.

Reutilizar
Se utilizarmos o mesmo material ou utensílio várias vezes, conseguimos dois efeitos: produzimos menos resíduos e adiamos o momento em que esse material ou utensílio se converte em resíduo (quando deixar de poder ser utilizado). É o que acontece com a roupa que vestimos, eu pode ser usada centenas de vezes antes de se converter em resíduo. Por razões práticas, começaram a proliferar materiais e utensílios descartáveis, isto é, que se transformam em resíduos logo que são usados uma só vez. Também aqui se devem tomar decisões com sensatez e inteligência. A reutilização é, em princípio, preferível, mas isso não significa que não se deva avaliar cada situação concreta. Nos anos 70 do século passado, lembro-me de ir de manhã buscar o leite do dia, distribuído em garrafas de vidro reutilizáveis, com uma simples tampa de folha de alumínio não hermética e fácil de remover com o polegar. No dia seguinte, voltava à loja e trazia as garrafas vazias. Hoje, não é assim. Praticamente todo o leite é distribuído em embalagens herméticas e descartáveis. Deveremos voltar à solução tradicional? Na realidade, essa medida afigura-se praticamente impossível e produziria ainda mais resíduos. O leite vem de locais muito mais distantes, pelo que o risco de deterioração é maior. É distribuído por circuitos diferentes e diferenciados, o que aumenta o risco de contaminação. Além disso, a reutilização implica transporte de embalagens vazias e mais consumo de água e detergentes para lavar as garrafas. Os estudos mostram que a reutilização só tem vantagem económica e ambiental se ocorrer abaixo de uma determinada distância entre a origem (enchimento) e o destino (consumo). Nem sempre a reutilização é vantajosa. Isso não impede que, na nossa vida diária, não se deva procurar reutilizar tudo o que ainda pode ser reutilizado, mesmo que seja um material descartável. 

Reciclar
O hábito de deixar o lixo à porta, na via pública ou, simplesmente, no primeiro contentor do lixo que se encontra é a razão principal do peso e do volume dos resíduos domésticos ou urbanos. Na realidade, a quase totalidade dos resíduos é composta por materiais que ainda têm valor e que só são inutilizados porque são misturados, contaminados e abandonados até que os “serviços do lixo” os venham buscar. Os resíduos orgânicos (restos de alimentos) são recuperáveis para produção de composto (produto com valor para agricultura e jardinagem). Os resíduos não orgânicos (papéis, cartões, plásticos, vidro, metais, madeira, e outros) podem ser reciclados, isto é, transformados em novas matérias-primas para dar lugar a novos produtos. A “chave” para a reciclagem é a separação. Quanto mais limpos e separados por espécies forem os materiais, maior é o seu valor económico. É por isso que existem contentores diferenciados. Isto significa que o problema dos resíduos não está nos materiais (recicláveis por natureza), mas sim na conduta das pessoas, ou seja, na EDUCAÇÃO. Este é o fator que mais conta na “política de resíduos”.

Voltaremos a estes temas com mais exemplos práticos, nas próximas edições. Por agora, podemos ficar com a ideia de que os “três erres” só são eficazes se forem aplicados com sensatez, inteligência e persistência, ou seja, com Responsabilidade (o 4.º R!).

                   Carlos Campos
                      Advogado

Artigo da edição de julho do Jornal da Família

Partilhar:

Facebook
Twitter
Pinterest
LinkedIn
Relacionado

Outras Notícias

Retalhos de amor que dão vida

No Centro de Cooperação Familiar | Lar Betânia, em Fátima, as marchas dos Santos Populares não são apenas uma festa: são um encontro de memórias e afetos que continuam a dar vida aos dias. Este ano, sob o lema “Vidas com História – Retalhos de Amor”, os utentes desfilaram no espaço exterior da instituição levando consigo meses de dedicação, figurinos feitos em conjunto e, sobretudo, pedaços das suas próprias histórias. São fragmentos de coragem, perdas, fé e superação que emocionaram colaboradores e famílias.

Ler Mais >>

Férias com afetos

As férias passam depressa, mas aquilo que vivemos em família permanece. Neste verão, queremos mais do que destinos e fotografias: queremos pais e filhos juntos, presentes, atentos uns aos outros, a criar memórias que o tempo não apaga. Porque as melhores férias são sempre as que fortalecem o afeto que nos une.

Ler Mais >>

A Santa Sé perante a crise do multilateralismo

Num tempo em que o multilateralismo parece perder fôlego perante a fragmentação global, Murillo Missaci propõe uma leitura do papel da Santa Sé na diplomacia contemporânea. Sem depender de poder económico ou militar, o Vaticano mantém-se como voz de diálogo e de equilíbrio, recordando que a credibilidade das instituições internacionais nasce da fidelidade à pessoa humana e da perseverança na cooperação.

Ler Mais >>

A secularidade consagrada refrescada pela ‘Magnifica Humanitas’ de Leão XIV

A secularidade consagrada ganha hoje um novo fôlego, iluminada pela visão humanista e missionária da ‘Magnifica Humanitas’. Num tempo marcado pela busca de sentido, pela necessidade de diálogo e pela urgência de reconstruir vínculos humanos, os consagrados seculares surgem como testemunhas de uma Igreja que se faz próxima e que assume a missão de humanizar cada espaço onde a vida acontece.

Ler Mais >>

Livros e leituras

A leitura acompanha Juan Ambrosio no trabalho e na vida, mas ganha novo sentido nos momentos partilhados com o neto. Entre livros que alargam o pensamento e histórias que despertam a imaginação, Juan Ambrosio sublinha a importância de criar nas crianças o gosto pelos livros.

Ler Mais >>