O teletrabalho e o apoio à família

O teletrabalho é “uma ferramenta e oportunidade para as famílias organizarem o apoio à família”, defende Goretti Valente. Para as crianças em idade escolar, é uma oportunidade de, no regresso da escola, encontrarem sempre um adulto em casa que os acolhe e os acompanha.

A ideia de que os jovens preferem estar sozinhos a ter companhia em casa não parece ser tão evidente como pensamos. Gostam do seu cantinho para jogar, ver um filme, pesquisar na Internet, mas acusam em alguns comportamentos a falta de alguém em casa para os acolher, conversar e tranquilizar. Na falta de melhor transferem para os telemóveis e computadores, e, consequentemente, tudo o que os envolve, o vazio caseiro, a falta de companhia quando chegam a casa após um dia ou uma manhã de aulas. Não há muito tempo havia sempre alguém em casa, os avós, os tios ou primos chegados ou mesmo alguns vizinhos de confiança para atender nestes momentos sem ninguém. Hoje estão em lares ou regressaram às terras que os viram nascer, pelos mais variados motivos. No agregado familiar todos trabalham ou estudam longe de casa. A única solução é o telemóvel para servir de entretenimento.

 Acredito que para os alunos do secundário esta situação não seja tão preocupante, apesar de relevante, e até mais fácil de resolver tendo em conta já alguma maturidade e capacidade de resolução de problemas. Para os mais novos, em escolaridade básica, a situação requer maior reflexão e cuidado. O cuidado ou acolhimento de alguém da família é muito importante para a formação e crescimento. A modalidade de teletrabalho pode ser uma opção temporária a considerar, para a tranquilidade de todos e o bem-estar familiar.

 A epidemia do Covid 19 veio acentuar esta forma de trabalho à distância. Manteve-se mesmo após o período pandémico. Como em tudo há vantagens e desvantagens. Para proporcionar um melhor acompanhamento aos jovens em idade escolar é uma modalidade a pensar e refletir. Consegue conciliar a atividade profissional com os deveres familiares. Os mais jovens agradecem embora muitas vezes não o deixem percepcionar. Naturalmente que evita a escolha de caminhos ou companhias menos salutares para o seu crescimento e também por isto é uma opção a viabilizar. A gestão dos tempos livres requer alguma responsabilidade, maturidade e discernimento para todos, muito mais para os mais novos, que estão em fase de aquisição destas competências. E como se teriam evitado tantos caminhos desastrosos e nada salutares para as famílias e para a sociedade em geral, havendo alguém em casa nestes espaços vazios!

A frase “Já são crescidos, não precisam de ninguém” muitas vezes referida pelos adultos como forma de justificar a capacidade destes para se auto-organizarem e cuidarem e, portanto, ficarem sozinhos, merece uma pausa, bem grande, para refletir e avaliar. Estão num caminho de formação, crescimento e aprendizagem com pouca experiência de vida para saberem fazer escolhas acertadas e tomarem boas decisões. Precisam de alguém mais experiente em quem confiem e lhes transmita segurança. Não estão preparados para a solidão porque são humanos e gostam e precisam de socializar.

O teletrabalho ou trabalho remoto está previsto na lei, claro que com algumas condicionantes, mas é mais uma ferramenta e oportunidade para as famílias organizarem o apoio à família. Deverá ser motivo de reflexão e ponderação. Implica, naturalmente, uma mudança no ritmo de vida, mas constata-se que os resultados alcançados são inquestionáveis para a formação humana e escolar dos mais jovens. Ninguém gosta de estar sozinho. Precisamos todos de cuidados e de saber cuidar uns dos outros, e, deste modo colaborar na construção de um mundo melhor.

Há momentos em que temos de tomar decisões importantes. Ponderar, refletir e atuar. Escolher ou não o teletrabalho é uma delas.

 Acompanhar os mais novos no seu crescimento na escola ou em casa é uma oportunidade excelente de enriquecermos também a nossa formação e postura perante a vida e agradecermos a dádiva de ter uma família. Fazer escolhas, tomar decisões e fazer opções não é fácil, mas é uma realidade com que temos de conviver todos os dias.

Boas escolhas!!!

Goretti Valente
Artigo da edição de novembro de 2024 do Jornal da Família

Foto ilustrativa: Pexels/Vitaly Gaviev

Partilhar:

Facebook
Twitter
Pinterest
LinkedIn
Relacionado

Outras Notícias

Uma vida a “tecer” gestos de cuidado

A Cooperadora da Família Custódia Lopes tem 98 anos de vida, 52 dos quais ao serviço do CCF – O Botãozinho, em Carcavelos. Depois de décadas a “tecer” gestos de cuidado, Custódia iniciou uma nova etapa no CCF – Lar Betânia, em Fátima, para o merecido descanso. Antes da partida, recebeu uma sentida homenagem das colaboradoras d’O Botãozinho, num gesto de gratidão por uma vida marcada pela dedicação às famílias.

Ler Mais >>

Institutos Seculares: Celebrar 80 anos entre os desafios e a esperança

A preparação da celebração dos 80 anos da constituição apostólica ‘Provida Mater Ecclesia’ já está em marcha. Reunidos a 19 de setembro, em Coimbra, os Institutos Seculares portugueses lançaram o caminho rumo ao encontro nacional de 30 de janeiro de 2027, em Fátima, numa iniciativa que pretende reforçar a identidade e a visibilidade desta vocação na Igreja.

Ler Mais >>

Pastoral Familiar – “Tenho a impressão que já se fez mais”, afirma o padre José Alves

Dez anos após a publicação da ‘Amoris Laetitia’, o padre José Augusto Gonçalves Alves teme que a pastoral familiar tenha perdido o impulso que já teve. “Tenho a impressão que já se fez mais”, afirma o sacerdote vicentino e assistente espiritual do núcleo de Viseu do Movimento por um Lar Cristão. O padre José Alves defende uma pastoral “missionária “e “em saída”, em que a formação dos agentes da pastoral deve ir além da formação filosófica e teológica.

Ler Mais >>

“O amor nunca foi feito para ficar fechado entre duas pessoas”

Ana Bem e Hélder da Silva celebram este ano 25 anos de casamento e 34 de namoro. São eles que nos ajudam a refletir sobre o Capítulo V da ´Amoris Laetitia’ – O Amor que se torna fecundo. Por entre a vida familiar, a vida profissional e o serviço à Igreja e à comunidade, afirmam que “o amor nunca foi feito para ficar fechado entre duas pessoas” e “nunca fica mais pequeno quando é partilhado”.

Ler Mais >>

Retalhos de amor que dão vida

No Centro de Cooperação Familiar | Lar Betânia, em Fátima, as marchas dos Santos Populares não são apenas uma festa: são um encontro de memórias e afetos que continuam a dar vida aos dias. Este ano, sob o lema “Vidas com História – Retalhos de Amor”, os utentes desfilaram no espaço exterior da instituição levando consigo meses de dedicação, figurinos feitos em conjunto e, sobretudo, pedaços das suas próprias histórias. São fragmentos de coragem, perdas, fé e superação que emocionaram colaboradores e famílias.

Ler Mais >>