Há mais de três séculos que a Igreja cuida da formação dos seus diplomatas com um rigor que poucos países conseguem igualar. No centro dessa tradição está a Pontifícia Academia Eclesiástica, em Roma, fundada em 1701 sob o Papa Clemente XI. Nasceu como “Academia dos Nobres Eclesiásticos”, dedicada à formação diplomática de jovens ligados a famílias nobres, e só em 1850 assumiu definitivamente a sua vocação atual: o lugar onde se preparam padres para o serviço diplomático da Santa Sé.
É uma instituição que depende diretamente da Secretaria de Estado: a sua supervisão cabe ao Cardeal Secretário de Estado, enquanto a gestão quotidiana é confiada a um Presidente, sempre um Núncio Apostólico com larga experiência diplomática. Os candidatos, pouco mais de uma dezena por ano, são padres diocesanos enviados pelos seus bispos de todo o mundo. Prosseguem estudos nas universidades pontifícias até à obtenção do doutoramento, frequentemente em Direito Canónico, e depois um curso interno de dois anos, só para alunos da Academia, centrado em história da diplomacia, estilo diplomático, direito internacional e línguas estrangeiras. Em 2025, o Papa Francisco reformou a instituição, alinhando-a com o “Processo de Bolonha” e dando-lhe a capacidade de conferir graus académicos de mestrado e doutoramento em Ciências Diplomáticas.
É justo considerá-la uma das escolas diplomáticas mais sólidas do mundo, mas a sua força não está só na erudição. Por ali passaram homens que depois se tornaram Papas — Leão XIII, Pio XII, que também foi professor de diplomacia eclesiástica, e Paulo VI — o que mostra a importância desta formação dentro da própria Igreja.
É aqui que está a diferença essencial em relação à diplomacia dos outros países: um diplomata negocia em nome de interesses nacionais, económicos ou estratégicos; um diplomata da Santa Sé representa uma realidade espiritual que não dispõe de exército nem persegue interesses nacionais, não é apenas um especialista em técnicas de negociação, mas alguém chamado a viver a sua fé enquanto procura superar barreiras culturais, políticas e ideológicas, construindo pontes de paz e de justiça entre os povos.
Essa ligação ao Evangelho não é somente simbólica, é o motor de toda a diplomacia vaticana. Os representantes pontifícios são chamados a testemunhar valores universais, promovendo o diálogo entre povos, religiões e culturas — uma missão ainda mais relevante num mundo fragmentado. Ao assinalar os 325 anos da Academia, o Papa Leão XIV foi claro: a diplomacia não é simplesmente uma profissão, mas uma vocação pastoral, e deve ser interpretada como um autêntico serviço, aberto ao diálogo entre todos.
Por isso, a diplomacia da Santa Sé é singular: dispõe de Nunciaturas Apostólicas — equiparadas às embaixadas, mas distintas delas por exercerem simultaneamente uma missão pastoral junto das Igrejas locais — e participa em organizações internacionais como qualquer sujeito de direito internacional. O seu critério último, porém, não é a busca de vantagens geopolíticas, mas o serviço ao Evangelho e à dignidade da pessoa humana.
Murillo Missaci
missacimb@gmail.com
Artigo da edição de julho de 2026 do Jornal da Família
Foto: JF





