O Capítulo IV da ‘Amoris Laetitia’ fala do amor no matrimónio como um caminho paciente, feito de pequenos gestos. Na conversa com o casal João dos Santos Silva e Margarida Bogalheiro essa visão ganha voz. Para este casal, com nove anos de matrimónio e dois filhos, o amor não é uma ideia abstrata: é a entreajuda diária, a amizade que se foi construindo, a fé que amarra o barco quando o mar fica mais agitado.
Margarida refere que são “as pequenas coisas” que seguram um casamento. Não são feitos grandiosos, mas o gesto simples de “entreajuda” no dia a dia. Para João, atrás do amor tem de haver sempre amizade. Não uma amizade qualquer, mas aquela que se constrói ao longo dos anos e que lhes permite reencontrarem-se mesmo quando o ritmo da vida acelera, quando os horários não batem certo, quando os filhos exigem mais. No meio de tudo, procuram sempre um pequeno momento de conversa, aquele instante que reequilibra o dia.
O Papa Francisco recomenda que os casais não terminem o dia sem fazer as pazes. João e Margarida reconhecem a beleza da proposta, mas também a dificuldade. Margarida admite que “nem sempre é fácil”. João, com humor e verdade, diz: “Eu sou o orgulhoso da família… já aconteceu deitarmo-nos sem fazer as pazes”. Mas ambos sabem que o orgulho é um peso que não cabe no amor. Quando a reconciliação tarda, o dia seguinte começa mais tenso, mais pesado, e é preciso coragem para quebrar esse ciclo.
A fé ocupa um lugar decisivo na vida do casal. João descreve Deus como alguém que lança “uma corda” quando “o barco está a afundar” para continuarem a lutar pelo “barco do amor”. Essa imagem acompanha-os nos momentos mais exigentes. A rotina da missa, o compromisso do matrimónio, o Movimento por um Lar Cristão, tudo lhes oferece um chão onde pousar quando o equilíbrio parece fugir.
Com a chegada dos filhos, o amor não se dividiu, multiplicou-se. Mas multiplicaram-se também os desafios. João reconhece que, sem cuidar do amor conjugal, “a roda do amor deixa de ser construída e começa a ser destruída”. Por isso, procuram sempre um espaço para o casal, mesmo que pequeno, mesmo que raro.
O amor vivido em casa transborda para a comunidade. João fala dos gestos simples: um sorriso, um “bom dia”, uma porta aberta, que contagiam os vizinhos e criam uma espécie de “bola de neve” de bondade. O que se vive no lar não fica fechado: passa para fora, transforma relações, inspira outros.
Na educação dos filhos, a fé é ensinada com simplicidade. João recorda a filha a rezar: “Espero que a romãzeira do meu avô dê muitas romãs.” Uma oração pequena, pura, que mostra como a fé se aprende no concreto da vida, nos afetos, nas memórias, nos gestos.
Quando se dirigem a noivos, Margarida deixa um conselho: não desistam “nunca”, sejam “pacientes” e “tolerantes”. João acrescenta que tolerância não é aceitar tudo, mas reconhecer que a vida a dois “não é perfeita” e a beleza do matrimónio reside no “ter a humildade para conseguir aceitar isso”.
O podcast “’Amoris Laetitia’: 10 anos depois” – Episódio 5 já está disponível e pode ouvi-lo na integra aqui:
Cada novo episódio estreia a 19 de cada mês, até ao final do ano, fazendo memória do dia da publicação da exortação apostólica ‘Amoris Laetitia’ – 19 de março de 2016.
IM
26 do Jornal da Família





