A Grandeza da Pessoa Humana

A ‘Magnifca Humanitas’ convoca-nos para a “apaixonante missão de dar forma ao nosso tempo”, afirma Juan Ambrosio na análise que faz da primeira Encíclica do Papa Leão XIV. Para o professor de teologia da Universidade Católica Portuguesa o documento papal convida-nos a construir uma história onde “a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justiça seja promovida e a fraternidade seja possibilitada”, onde “o progresso deve estar ao serviço da pessoa e nunca contra ela”.

 

Num tempo marcado por profundas transformações sociais, culturais e tecnológicas, torna-se urgente e necessária uma palavra de esperança que possa ser útil na procura das melhores respostas para os desafios que enfrentamos enquanto humanidade. A Encíclica Magnifica Humanitas, assinada pelo papa Leão XIV no dia 15 de maio – dia em que se assinalava o 135º aniversário da Encíclica Rerum novarum de Leão XIII – surge precisamente neste contexto, como um convite renovado a redescobrir a grandeza da pessoa humana e o seu lugar no coração do projeto de Deus.

Logo no primeiro número do texto podemos encontrar, bem identificado, o motivo que levou o papa a escrevê-lo e a partilhá-lo:

A Magnífica Humanidade criada por Deus encontra-se hoje perante uma escolha decisiva: erguer uma nova torre de Babel ou construir a cidade onde Deus e a humanidade habitam juntos. Cada geração recebe em herança a tarefa de dar forma ao seu tempo: de fazer amadurecer a história como um lugar onde a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justiça promovida e a fraternidade possibilitada. Sobre cada época, porém, paira o risco de construir um mundo desumano e mais injusto. Onde a humanidade corre o perigo de perder a sua identidade, nós, cristãos, erguemos os olhos para o Deus feito carne, sabendo que «o mistério do homem só no mistério do Verbo encarnado se esclarece verdadeiramente». Em Jesus Cristo, esta magnífica humanidade torna-se o Caminho, a Verdade e a Vida, abrindo a cada um de nós a via para crescermos até à plenitude.

Somos, de facto, convocados para a apaixonante missão de dar forma ao nosso tempo construindo uma história onde, como se afirma, a dignidade de cada pessoa seja salvaguardada, a justiça seja promovida e a fraternidade seja possibilitada. Por isso, a reafirmação de que toda a pessoa humana possui uma dignidade própria, que não depende das suas capacidades, condição social ou utilidade, mas radica no facto de ser muito amada e querida por Deus é um dos pontos centrais do texto, ajudando-nos a compreender que, para a comunidade cristã, o ser humano nunca pode deixar de ser o centro da sua atenção e do seu cuidado. É, também, por isso que a Encíclica alerta para as ameaças contemporâneas que reduzem as pessoas a objetos, seja através de ideologias utilitaristas, seja pela lógica do descarte que atinge os mais frágeis. Frente a estas realidades, a Encíclica é clara: uma sociedade justa constrói-se reconhecendo e protegendo a dignidade de todos, sem exceção.

Outro eixo fundamental é a articulação entre liberdade e responsabilidade. O texto sublinha que a verdadeira liberdade não consiste em fazer tudo o que se deseja, mas em escolher o bem. A grandeza do ser humano manifesta-se precisamente na capacidade de orientar a sua vida segundo a verdade e o amor. Neste ponto, o documento chama a atenção para os perigos de uma cultura que absolutiza o individualismo e relativiza os valores. Sem referência à verdade e ao bem comum, a liberdade perde o seu sentido e pode tornar-se fonte de conflito e desumanização.

A Encíclica não ignora os avanços científicos e tecnológicos do nosso tempo. Pelo contrário, reconhece neles sinais positivos da criatividade humana. Contudo, recorda que todo o progresso deve estar ao serviço da pessoa e nunca contra ela. Questões como a inteligência artificial, a biotecnologia ou a economia digital são abordadas sob o prisma da ética, sublinhando a necessidade de critérios que coloquem o ser humano no centro. O progresso autêntico é aquele que promove integralmente a pessoa e respeita a sua dignidade.

Mais do que um texto escrito acerca da Inteligência Artificial e dos muitos desafios que dela decorrem, a Encíclica Magnifica Humanitas constitui um forte apelo à esperança, baseado numa reflexão profunda sobre a condição humana e uma forte interpelação a assumirmos a bela e inadiável tarefa de cuidarmos uns dos outros e de dar forma – cada vez mais digna da humanidade amada por Deus – ao nosso tempo.

Juan Ambrosio
juanamb@ucp.pt
Artigo da edição de julho de 2026 do Jornal da Família

Ilustração:

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