Concede-nos, Senhor, a tua Paz!

Os desafios de um novo ano que começa com “nuvens sombrias” e “as ações concretas que nos possam ajudar a esperançar”. Juan Ambrosio parte da mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial da Paz para implicar todos através de gestos construtores de paz.

Entramos em 2025 com uma série de nuvens sombrias a pairar sobre as nossas cabeças.

A afirmação que encabeça este texto não traduz certamente a perspetiva mais desejável para um começo de ano. O ideal seria uma afirmação positiva e carregada de esperança. E, em certo sentido, podia começar por ela, pois já estamos em pleno Jubileu da Esperança. Prefiro, no entanto, ensaiar outro caminho, começando por um convite a reconhecer os desafios que enfrentamos e que não desapareceram no início deste ano. Depois, uma vez reconhecidos, podemos então identificar algumas ações concretas que nos possam ajudar a esperançar, ou seja, a fazer com que aquilo que esperamos possa acontecer com o nosso contributo e com o suporte, a ajuda e a interpelação do Deus encarnado, que ainda estamos a celebrar.

Nesse exercício recorro à mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial da Paz (1 janeiro de 2025). Nela somos convidados a reconhecer desafios e a assumir responsabilidades:

 “Cada um de nós deve sentir-se, de alguma forma, responsável pela devastação a que a nossa casa comum está sujeita, a começar pelas ações que, mesmo indiretamente, alimentam os conflitos que assolam a humanidade. […]. Refiro-me, em particular, às desigualdades de todos os tipos, ao tratamento desumano dispensado aos migrantes, à degradação ambiental, à confusão gerada intencionalmente pela desinformação, à rejeição a qualquer tipo de diálogo e ao financiamento ostensivo da indústria militar. Todos estes são fatores de uma ameaça real à existência de toda a humanidade. No início deste ano, portanto, queremos escutar este grito da humanidade para nos sentirmos chamados, todos nós, juntos e de modo pessoal, a quebrar as correntes da injustiça para proclamar a justiça de Deus. Alguns atos esporádicos de filantropia não serão suficientes. Em vez disso, são necessárias transformações culturais e estruturais, para que possa haver também uma mudança duradoura.”

Reconhecendo, sem medo, os desafios e as responsabilidades, será então mais fácil compreender as mudanças culturais e estruturais que temos de urgentemente realizar, para fazer acontecer a esperança.

E o Papa aponta três ações possíveis nessa direção.

A redução, ou mesmo perdão, da dívida internacional:

“que se pense numa «consistente redução, se não mesmo no perdão total da dívida internacional, que pesa sobre o destino de muitas nações». Reconhecendo a dívida ecológica, os países mais ricos sentir-se-ão chamados a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para perdoar as dívidas dos países que não estão em condições de pagar o que devem. Certamente, para que não se trate de um ato isolado de beneficência, que corre o risco de desencadear de novo um ciclo vicioso de financiamento-dívida, é necessário, ao mesmo tempo, desenvolver uma nova arquitetura financeira que conduza à criação de um acordo financeiro global, baseado na solidariedade e na harmonia entre os povos.”

O respeito pela dignidade da vida humana e a eliminação da pena de morte:

“faço apelo a um firme compromisso de promover o respeito pela dignidade da vida humana, desde a conceção até à morte natural, para que cada pessoa possa amar a sua vida e olhar para o futuro com esperança, desejando o desenvolvimento e a felicidade para si e para os seus filhos. Com efeito, sem esperança na vida, é difícil que surja no coração dos jovens o desejo de gerar outras vidas. Particularmente neste sentido, gostaria de convidar, uma vez mais, para um gesto concreto que possa favorecer a cultura da vida. Refiro-me à eliminação da pena de morte em todas as nações. Em realidade, esta punição, além de comprometer a inviolabilidade da vida, aniquila toda a esperança humana de perdão e de renovação.”

A criação de um fundo mundial para eliminar a fome e realizar atividades educativas:

“neste tempo marcado pelas guerras: utilizemos pelo menos uma percentagem fixa do dinheiro gasto em armamento para a criação de um fundo mundial que elimine definitivamente a fome e facilite a realização de atividades educativas nos países mais pobres que promovam o desenvolvimento sustentável, lutando contra as alterações climáticas. Devemos tentar eliminar qualquer pretexto que possa levar os jovens a imaginar o seu futuro sem esperança, ou como uma expectativa de vingar o sangue derramado por seus entes queridos. O futuro é um dom que permite ultrapassar os erros do passado e construir novos caminhos de paz.”

Estas ações são, em primeira mão, interpelação aos dirigentes das Nações e das diversas instâncias internacionais, mas podem e devem ser traduzidas a outros níveis, mesmo os mais micro, como são cada uma das nossas famílias.

Estes e outros gestos concretos permitirão que empreendamos o caminho da esperança que nos leve à transformação do mundo e nos aproxime, também, da paz tão desejada e necessária.

E termino com um desejo e um pedido que recolho da mensagem:

“Que 2025 seja um ano em que a paz cresça.

[…]

Concede-nos, Senhor, a tua paz!”

Juan Ambrosio
juanamb@ucp.pt
Artigo da edição de janeiro de 2025 do Jornal da Família

Foto ilustrativa: Pixabay

Partilhar:

Facebook
Twitter
Pinterest
LinkedIn
Relacionado

Outras Notícias

“Parece que estamos a ler a nossa própria vida”

Dez anos depois da publicação, a ‘Amoris Laetitia’ continua a soar menos como um documento e mais como um espelho. “Parece que estamos a ler a nossa própria vida”, conta o casal Betina Rodrigues e João Miguel Nogueira, que nos mostram como o Capítulo II – dedicado à realidade e aos desafios das famílias – permanece atual.

Ler Mais >>

O primeiro lugar onde aprendemos a amar

No Dia Internacional da Família somos convidados a olhar para o lar como o primeiro espaço onde se aprende a amar. Entre gestos de escuta, partilha, perdão e cuidado, é no quotidiano familiar que se formam os laços e se constrói, dia após dia, a educação do coração.

Ler Mais >>

O contexto histórico da ‘Provida Mater Ecclesia’

Tornar mais conhecida a Consagração Secular é o objetivo de uma série de artigos que o Jornal da Família vai publicar ao longo dos próximos meses. A iniciativa tem no horizonte o dia 30 de janeiro de 2027, data em que os Institutos Seculares Portugueses vão celebrar os 80 anos da Constituição Apostólica ‘Provida Mater Ecclesia’. Este documento, publicado pelo Papa Pio XII, reconhece a Consagração Secular como uma forma legítima de vocação na Igreja. No primeiro artigo olhamos para o ano de 1947, para “O contexto histórico da ‘Provida Mater Ecclesia’”

Ler Mais >>