Como acontece todos os anos, desde 1968, celebrou-se a 1 de janeiro o Dia Mundial da Paz. Foi o 58º depois da iniciativa de Paulo VI de consagrar o primeiro dia de cada novo ano à causa da Paz. Desde então, os Papas têm tido o cuidado de prepará-lo com uma Mensagem que reflete as circunstâncias e perspetivas da paz no clima de guerras que proliferam por todo o mundo e os momentos de celebrações que a Igreja vai vivendo, favorecendo a mobilização e a promoção de novas atitudes entre as pessoas, instituições e nações.
A Mensagem deste ano tem como mote uma súplica “Perdoa-nos as nossas ofensas, concede-nos a tua paz”. O Papa Francisco situa-nos de imediato no clima jubilar de esperança dirigindo num tom pessoal os seus “votos de paz a cada mulher e a cada homem, especialmente àqueles que se sentem prostrados pela sua condição existencial, condenados pelos seus próprios erros, esmagados pelo julgamento dos outros e já não veem qualquer perspetiva para a sua própria vida”. A paz começa em cada um pela conversão individual que se compromete na pacificação da sociedade a que pertence.
O Jubileu, “o ano de júbilo”, é uma instituição bíblica do Antigo Testamento (Lev., cap. 25). Simbolicamente afirmava o domínio soberano de Deus sobre pessoas e bens e prescrevia que, de cinquenta em cinquenta anos, os campos ficassem de pousio e as pessoas e os bens regressassem à posse das famílias que os tinham alienado por necessidades económicas. O jubileu tinha um sentido de renovação e justiça social, através da redistribuição de bens, de libertação e reconciliação entre as pessoas, de reconhecimento da comum dignidade e fundamental igualdade de todos os homens, criaturas de Deus.
“Também nos dias de hoje, o Jubileu é um acontecimento que nos impele a procurar a justiça libertadora de Deus em toda a terra” – lembra o Papa Francisco na Mensagem e concretiza: há injustiças que estão institucionalizadas nas práticas sociais que o Papa João Paulo II designa por “estruturas de pecado” que suscitam uma cumplicidade geral e acrítica (2). Francisco concretiza em alguns exemplos da atualidade: as “desigualdades de todos os tipos, o tratamento desumano dispensado aos migrantes, a degradação ambiental, a confusão gerada intencionalmente pela desinformação, a rejeição a qualquer tipo de diálogo, o financiamento ostensivo da indústria militar”.
Para fazer frente a essas práticas institucionalizadas não basta apelar a “atos de filantropia esporádicos”, são necessárias transformações culturais e estruturais, para uma mudança duradoura (5). O Papa apela a mudanças estruturais derivadas de uma modalidade de pensamento que aceite a responsabilidade pessoal nas decisões institucionais: “Somos todos devedores”.
“A mudança cultural e estrutural para superar esta crise ocorrerá quando finalmente reconhecermos que somos todos filhos do mesmo Pai e, perante Ele, confessarmos que somos todos devedores, mas também todos necessários uns aos outros, segundo uma lógica de responsabilidade partilhada e diversificada. Poderemos descobrir, enfim, «que precisamos e somos devedores uns dos outros»” (8).
O Papa sugere três ações inspiradas pela prática do jubileu:
– A redução da dívida internacional tendo como hipótese o perdão em alguns casos, e como meta “uma nova arquitetura financeira que conduza à criação de um acordo financeiro global, baseado na solidariedade e na harmonia entre os povos”;
– Um firme compromisso de promover o respeito pela dignidade da vida humana, desde a conceção até à morte natural; em especial, eliminação da pena de morte em todas as nações;
– O encaminhamento de “uma percentagem fixa do dinheiro gasto em armamento para a criação de um fundo mundial que elimine definitivamente a fome e facilite a realização de atividades educativas nos países mais pobres que promovam o desenvolvimento sustentável, lutando contra as alterações climáticas”.
O Papa Francisco conclui a Mensagem para o Dia Mundial da Paz deste ano insistindo na responsabilidade de todos e cada um na tarefa de construir perseverantemente a paz universal:
“Desarmar o coração é um gesto que compromete a todos, do primeiro ao último, do pequeno ao grande, do rico ao pobre. Por vezes, é suficiente algo simples como «um sorriso, um gesto de amizade, um olhar fraterno, uma escuta sincera, um serviço gratuito» (23). Com estes pequenos-grandes gestos, aproximamo-nos da meta da paz, e lá chegaremos mais depressa quanto mais, ao longo do caminho, ao lado dos nossos irmãos e irmãs reencontrados, descobrirmos que já mudámos em relação ao nosso ponto de partida. Com efeito, a paz não vem apenas com o fim da guerra, mas com o início de um mundo novo, um mundo no qual nos descobrimos diferentes, mais unidos e mais irmãos do que poderíamos imaginar.”
Octávio Morgadinho
Artigo da edição de janeiro de 2025 do Jornal da Família
Foto ilustrativa: Pixabay




