Sevilha, entre a liturgia e as tradições populares

“É uma mistura de arte, espiritualidade, cultura e folclore”, afirma Cristiano Cirillo ao descrever as celebrações da Semana Santa em Sevilha. Uma viagem pelas tradições e devoções sevilhanas à volta de toda uma cenografia da Paixão de Cristo.

Há um ditado que diz: “Quién no ha visto Sevilla no ha visto maravilla”, e é de facto verdade, porque Sevilha é uma cidade com muitas maravilhas, muitas almas, uma das quais é a forte espiritualidade, especialmente a que se respira na época da Páscoa.

Esta celebração está entranhada na sua alma porque a Semana Santa é o lado mais autêntico de toda a Espanha. No final do período quaresmal, Sevilha revive os ritos da Semana Santa com duas grandes imagens, La Esperanza Macarena e o Cristo del Gran Poder, que passam em procissão por todas as ruas da cidade. O povo sevilhano está muito ligado a estas tradições populares começando este evento no Domingo de Ramos e termina no Domingo de Páscoa. Neste percurso, vão 60 irmandades e levam em procissão as imagens relacionadas com a Paixão de Cristo.
A Basílica de la Macarena, de estilo barroco, alberga a estátua da Virgem da Esperança, do século XVII. Como todas as Virgens espanholas, parece mais uma rainha do que uma mãe, mas é a sua expressão de dor, o choro e as suas mãos viradas para o observador que impressionam. E, é impressionante também, olhar para o seu rosto emoldurado por este manto, que começa na cabeça e atinge um comprimento de 10 metros, todo de veludo bordado a ouro, que muda consoante as circunstâncias da festa ou da Quaresma, quase a chamar todo o povo sob a sua proteção: “Sub tuum praesídium confúgimus”.

A noite entre a Quinta-feira Santa e a Sexta-feira Santa (la Madrugá) é o momento mais importante da Páscoa em Sevilha. Durante estas horas, as imagens mais veneradas, como o Cristo del Gran Poder, a Macarena, a Esperanza de Triana e o Cristo de los Gitanos, são levadas em procissão. Durante toda a noite e o dia, as ruas da cidade enchem-se de gente, de oração e de sentimento. Muitos habitantes de Sevilha acompanham as imagens vestindo o traje nazareno e usando o capirote, o caraterístico toucado pontiagudo na cabeça. Alguns transportam velas, cruzes, incensários onde arde o incenso; outros, chamados costaleros, carregam aos ombros as andas, sobre as quais se erguem as estátuas sagradas. Durante a Semana Santa, a Macarena percorre grande parte do centro histórico de Sevilha, numa grande carruagem de prata luxuosamente vestida com o manto grande e comprido e uma infinidade de velas e flores brancas.

Através dos inúmeros sítios, é possível apreciar os momentos altos e o folclore das procissões. É de facto uma grande emoção poder viver esta atmosfera particular, que se respira durante o período da Quaresma. Nestes rituais cénicos, Sevilha revive a paixão do Senhor, uma mistura de arte, espiritualidade, cultura e folclore, que dá ao visitante, bem como aos habitantes desta bela cidade, um verdadeiro oásis, que convida a viver numa atmosfera penitencial próprio da Semana Santa.

Desejo a todos os leitores, uma boa e santa Páscoa.

Texto e fotos: Cristiano Cirillo
Artigo da edição de abril de 2025 do Jornal da Família

 

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