Esta é a hora do amor – Leão XIV

A escolha do nome e as primeiras intervenções do novo Papa indicam um caminho. Juan Ambrosio revisitou as primeiras intervenções de Leão XIV e traça as primeiras impressões sobre o novo Papa.

No passado dia 8 de maio o fumo que saiu da Capela Sistina foi branco e todos ficámos a conhecer quem era o novo Papa e que nome iria tomar.

A escolha do nome no início de um pontificado não é apenas o seguir uma linda tradição, é algo de muito mais fundo que dá já um claro sinal de orientação para o exercício do ministério que se vai iniciar. Todos estamos ainda bem lembrados da opção de Jorge Mario Bergolglio, que escolheu chamar-se Francisco ao escutar aquela interpelação do Cardeal Claudio Hummes: «não te esqueças dos pobres». O nome é, assim, muito mais do que uma possibilidade de evocação que nos permite chamar alguém, indicando uma missão que acaba por marcar a identidade daquele que assume ser chamado por esse nome e que com ele assina documentos, textos, mensagens.

O cardeal Robert Francis Prevost escolheu chamar-se Leão XIV, tendo explicado na audiência aos membros do Colégio Cardinalício, no dia 10 de maio, o motivo por que o fez.

Nessa ocasião, a primeira em que se reunia com os Cardeias depois da eleição, afirmou:

“gostaria que hoje renovássemos juntos a nossa plena adesão a este caminho, que a Igreja universal percorre há décadas na esteira do Concílio Vaticano II. O Papa Francisco recordou e atualizou magistralmente os seus conteúdos na Exortação Apostólica Evangelii gaudium, da qual gostaria de sublinhar alguns pontos fundamentais: o regresso ao primado de Cristo no anúncio (cf. n. 11); a conversão missionária de toda a comunidade cristã (cf. n. 9); o crescimento na colegialidade e na sinodalidade (cf. n. 33); a atenção ao sensus fidei (cf. nn. 119-120), especialmente nas suas formas mais próprias e inclusivas, como a piedade popular (cf. n. 123); o cuidado amoroso com os marginalizados e os excluídos (cf. n. 53); o diálogo corajoso e confiante com o mundo contemporâneo nas suas várias componentes e realidades (cf. n. 84; Concílio Vaticano II, Const. past. Gaudium et spes, 1-2).”

É para mim muito significativo que o papa tenha explicitamente referido o Concílio Vaticano II e a Exortação Apostólica Evangelli Gaudium, onde claramente se destaca a importância e a aposta no diálogo com o mundo contemporâneo.

E é precisamente no contexto deste diálogo que se apresenta a escolha do nome:

“Justamente por me sentir chamado a seguir nessa linha, pensei em adotar o nome de Leão XIV. Na verdade, são várias as razões, mas a principal é porque o Papa Leão XIII, com a histórica Encíclica Rerum novarum, abordou a questão social no contexto da primeira grande revolução industrial; e, hoje, a Igreja oferece a todos a riqueza de sua doutrina social para responder a outra revolução industrial e aos desenvolvimentos da inteligência artificial, que trazem novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho.”

Leão XIV, pois, para continuar a dialogar com o mundo contemporâneo apontando-lhe o horizonte da paz e da união. São a esse propósito muito significativas as suas primeiras palavras ao saudar a multidão que, reunida na Praça de S. Pedro, queria conhecer o novo Papa: “Esta é a paz de Cristo Ressuscitado, uma paz desarmada e uma paz que desarma, que é humilde e perseverante. Que vem de Deus, do Deus que nos ama a todos incondicionalmente.”

Também nessa altura, dirigindo-se a todos os que o viam e escutavam em todo o mundo, afirmou: “queremos ser uma Igreja sinodal, uma Igreja que caminha, uma Igreja que procura sempre a paz, que procura sempre a caridade, que procura sempre estar próxima, sobretudo dos que sofrem.”

E, de novo, na homília da celebração eucarística para o início do Ministério Petrino do Bispo de Roma, a 18 de maio, voltou a salientar a importância do compromisso pela construção da paz e pela procura da união:

“Com a luz e a força do Espírito Santo, construamos uma Igreja fundada no amor de Deus e sinal de unidade, uma Igreja missionária, que abre os braços ao mundo, que anuncia a Palavra, que se deixa inquietar pela história e que se torna fermento de concórdia para a humanidade.”

Sinceramente julgo que estas primeiras intervenções nos revelam já um rumo e uma direção e nos pedem um determinado compromisso, como também afirmou nesta celebração:

“Este é o espírito missionário que nos deve animar, sem nos fecharmos no nosso pequeno grupo nem nos sentirmos superiores ao mundo; somos chamados a oferecer a todos o amor de Deus, para que se realize aquela unidade que não anula as diferenças, mas valoriza a história pessoal de cada um e a cultura social e religiosa de cada povo.”

Juan Ambrosio
juanamb@ucp.pt
Artigo da edição de junho de 2025 do Jornal da Família

Foto: Vatican Media

 

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