A palavra, na sua essência, é a ponte fundamental que conecta o pensamento, o ser humano e o mundo. Para nós, o seu peso é sagrado e eterno, como expressa em João 1,1: «No princípio era a Palavra e a Palavra estava junto de Deus e a Palavra era Deus». Ela não é apenas uma ferramenta de comunicação, mas a própria manifestação da essência divina e da razão criadora. Historicamente, essa visão conferiu à palavra uma seriedade imensa, refletida na reverência com que os monges copistas reproduziam os textos sagrados. A palavra era vista como viva, capaz de criar e transformar a realidade, e um veículo de comunhão com o sagrado.
No campo da filosofia, a palavra também sempre teve um papel central. Os gregos antigos, com o conceito de logos, viam-na como a razão universal que ordena o cosmos. Para eles, a palavra não era meramente um som, mas o princípio da verdade e do conhecimento. Pensadores como Sócrates utilizavam a dialética (diálogo) para buscar a verdade, mostrando que a palavra, quando usada com rigor e honestidade, pode desvendar a realidade. Na Roma Antiga, a retórica se tornou uma arte política e jurídica, onde a palavra, com sua capacidade de persuadir e mover multidões, era a base do poder público e da democracia.
Essa valorização histórica da palavra contrasta com a realidade atual. Nunca se falou tanto, nunca se escreveu tanto — e, no entanto, nunca se comunicou tão pouco. A palavra perdeu densidade. Entre redes sociais, algoritmos e ciclos de notícias acelerados, o discurso tornou-se fragmentado, superficial e muitas vezes manipulador. A desinformação, o discurso de ódio e a banalização da linguagem são sintomas de uma crise mais profunda: a perda de sentido. Palavras que deveriam unir, curar e orientar são usadas para dividir, ferir ou confundir. O excesso de informação gera ruído, e o ruído sufoca o silêncio necessário para escutar o essencial.
Diante dessa crise, é urgente que reflitamos sobre o poder da palavra. A fé cristã, então, pode oferecer uma solução: redescobrir o silêncio, a escuta e a palavra verdadeira. Não se trata de uma crítica à era digital, mas de um convite a resgatar a intenção e a responsabilidade na nossa linguagem. Resgatar o sentido da palavra significa valorizar a verdade e a clareza, em vez da velocidade e do espetáculo. É um desafio para todos nós de fazer com que as palavras voltem a ter peso, a construir pontes e a manifestar a verdade, em vez de se perderem no vasto e vazio oceano do ruído. A crise da comunicação não é um fim, mas um chamado a reavaliar a nossa relação com a linguagem, tornando-a novamente uma força para o bem e para a união entre o povo de Deus.
Murillo Missaci
missacimb@gmail.com
Artigo da edição de outubro de 2025 do Jornal da Família





