Resiliência

Num mundo acelerado, onde a pressa mina a capacidade de esperar e enfrentar contrariedades, a resiliência torna-se vital. Furtado Fernandes aponta caminhos práticos para fortalecer essa força interior tão necessária ao quotidiano.

Como é sabido, há pessoas que conseguem superar situações altamente penosas. Outras, ao invés, soçobram, ficando com grandes limitações para responderem aos desafios do quotidiano.

Esta constatação remete-nos para o conceito de resiliência, assim definida pela Associação Americana de Psicologia:

“O processo de se adaptar bem diante da adversidade, trauma, tragédia, ameaças ou fontes significativas de stress – como problemas familiares e relacionais, questões sérias de saúde ou situações delicadas no âmbito laboral ou financeiro”.

Como bem explica Nuno Lemos Pires, em Os Resistentes, a definição de resiliência é distinta de resistência. Resistir é conseguir aguentar o impacto, enquanto ser resiliente implica superar e recuperar do revés.

O objetivo deste artigo é sinalizar alguns aspetos que possam concorrer para aumentar a resiliência. Por contraste, começamos por abordar as sequelas da “sociedade líquida” – em que tudo é precário – o que, obviamente, nos fragiliza, qual “virose” que ataca as nossas defesas.

  1. A vertigem da gratificação imediata

Querer tudo já é uma “moda” que obstaculiza o desenvolvimento da resiliência.

“A nossa cultura, que mitifica (ingenuamente) a eficácia e o utilitarismo, há muito cancelou o valor da espera. Os prazos sôfregos que incorporamos consideram-na um atraso de vida, uma excrescência irritante, bota-de-elástico e obsoleta. Esperar porquê? Do pronto a vestir ao pronto a comer, da comunicação em tempo real ao experimentalismo instantâneo dos afetos: a espera tornou-se um peso morto, com o qual não sabemos lidar, e que é preciso descarregar borda fora. Talvez este desejo de instantaneidade seja em nós um dissimulado reflexo defensivo, o medo crescente de que num mundo acelerado não exista afinal ninguém nem coisa nenhuma que nos espere. Quando todos vivem altamente pressionados, tudo se torna arriscadamente precário – é o que vamos constatando” (D. José Tolentino de Mendonça, em A Mística do Instante).  

2. Medidas para desenvolver a resiliência

Enrique Rojas, em Não te rendas, destaca cinco medidas para desenvolver a resiliência.

  • Procurar novos objetivos

Evitar cair num “mar de lamentações” que, inevitavelmente, conduzem à inação. É fundamental definir novas prioridades que mobilizem a nossa vontade para o desempenho de atividades que se venham a tornar gratificantes;

  • Confiar no círculo protetor

A adversidade gera, conforme os casos, medo, tristeza e/ou irritação. Tratando-se de reações normais, elas precisam de ser partilhadas. Quem tem medo quer ser tranquilizado, quem está triste quer ser consolado e quem está irritado quer ser compreendido;

  • Renunciar à miragem das gratificações imediatas

A vida hodierna caracteriza-se, muitas vezes, por uma corrida insana atrás da “cenoura”. A paciência é um grande recurso, só ela cria as condições necessárias para discernir qual a melhor estratégia para podermos lidar com o infortúnio;

  • Virar-se para o sofrimento alheio

Um dos melhores “tónicos” para desenvolvermos a resiliência é sermos solidários com o sofrimento dos outros. Não estamos sozinhos no mundo, outros passaram por provações semelhantes ou mais graves que as nossas. Cuidar do próximo, para além do mais, “liberta-nos de nós”, para usar as palavras do padre Michel Quoist no seu livro Poemas para Rezar;

  • Tirar partido das oportunidades

Pedirmos ao Senhor que nos dê Esperança revela-se indispensável para prosseguirmos o caminho, apesar dos obstáculos, das vicissitudes e até das tribulações. Esta é base para desenvolvermos um saudável otimismo, que nos permita descortinar novas oportunidades e tirar partido delas.

“Ser cristão é poder dar um segundo sentido, muito mais profundo, ao que já tem sentido (como a amizade, o amor, a cultura, a música, até a simples camaradagem) e é poder dar um sentido ao que não o tem. Era o que eu dizia àquela rapariga do hospital (…) contra o sem-sentido da sua morte prematura” (François Varillon, S.J., em Alegria de Crer e de Viver).

Furtado Fernandes
j.furtado.fernandes@sapo.pt
Artigo da edição de janeiro de 2026 do Jornal da Família

Foto: Pixabay

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