A vida nascente (e mais uma mãe para a cadeia…)

Educação para o respeito integral pela vida humana, desde a conceção à morte, e educar para a sexualidade e para o amor/afetos. As premissas de Jorge Cotovio que devem estar no coração de todas as famílias para um novo ano de renovada esperança.

Pela segunda vez, nestas páginas, convoco a reflexão para a problemática da vida nascente, quando ainda decorre esta quadra natalícia que tanto nos encanta, comove e inspira. Recentemente, uma mãe foi condenada a dez anos de cadeia porque tentou matar o seu bebé, quando se encontrava no hospital.  Presumo que a pena teria sido ainda mais gravosa se o filho, então com cinco meses, tivesse efetivamente morrido.

Como são lestos os tribunais a condenar uma jovem mãe de vinte anos, por comprovado ato infame, alegadamente inserido num “quadro de egoísmo”, como terá sublinhado o juiz!
Todos nós nos revoltamos com o comportamento inqualificável desta mãe, pouco nos importando das razões pessoais, emocionais, psicológicas, materiais ou familiares que a terão levado a tal loucura. Não. Esta mãe merece “ir para a cadeia” – diremos todos e assim decidiu o tribunal.

Paradoxalmente, se este ato infame tivesse sido cometido, por vontade desta mesma mãe, uns meses antes do nascimento, no seu próprio seio, teria tido todo o apoio logístico e financeiro dos serviços de saúde, pago, claro está, por todos nós, contribuintes. Estariam, assim, garantidos todos os cuidados para que a morte fosse rápida, segura e eficaz. O bebé deixaria de viver na total discrição, quando, supostamente, habitava e se desenvolvia no seu abrigo natural mais seguro e protegido. E tudo isto de forma “legal”, mesmo quando o artigo 24.º da Constituição da República Portuguesa estabelece que “A vida humana é inviolável”.

Contradições da nossa sociedade, que nos devem fazer parar e refletir. Paradoxos que nos devem fazer atuar a montante, na prevenção, com uma adequada educação para o respeito integral pela vida humana – desde a conceção à morte natural –, a par de muitas outras educações que temos, forçosamente, de valorizar e priorizar.

Quando parece que “tudo está perdido” a este respeito, não percamos – sobretudo os pais e os avós – a oportunidade de ir educando os mais novos para a sexualidade – uma educação devidamente integrada na educação para o amor/ afetos. Deixar esta tarefa para a escola, com as ciências/ biologia e as aulas de cidadania, saberá a pouco, pois ela não consegue chegar a tantas solicitações. E as informações, a este respeito, vindas dos colegas, das redes sociais ou da Internet são, certamente, aligeiradas, redutoras e despidas da integralidade que uma saudável sexualidade, obrigatoriamente, exige.

Se desde pequenos educarmos as nossas crianças para o autodomínio/ autocontrolo das emoções e dos instintos/ pulsões, haverá, seguramente, mais probabilidade de, quando maiorzinhos (e maiores), não haver mães de vinte anos a tentar matar os seus filhos e de não haver rapazes a manchar a honra e a dignidade de raparigas (com a agravante de rapidamente desaparecerem de cena…).

Quando ainda ecoa nos nossos corações a Festa da Sagrada Família, convoco o Papa Leão para nos pedir que “nas famílias não falte a coragem de tomar decisões sobre a maternidade e a paternidade” e os casais “não tenham receio de acolher e defender cada criança concebida, anunciando e servindo o Evangelho da vida” (Audiência pública semanal de 26/11/2025).

Para terminar, um olhar a 2026. Este novo ano – que aparentemente nos surge “sem júbilo e sem esperança” – seja o melhor ano da nossa existência. Podemos prescindir do “chifre de carneiro” (shofar) para anunciar o Ano Santo (que não é), mas temos de ter, obrigatoriamente, em 2026, renovada esperança. A começar pela esperança da “Paz na Terra”, anunciada, com júbilo, pelo Anjo aos pastores de Belém…

Jorge Cotovio
jfcotovio@gmail.com
Artigo da edição de janeiro 2026 do Jornal da Família

Foto: Pexels

Partilhar:

Facebook
Twitter
Pinterest
LinkedIn
Relacionado

Outras Notícias

Pessoas que vivem com demência

Estantes que abanam, memórias que caem, emoções que permanecem. Foi esta simples metáfora que marcou Juan Ambrosio num encontro dedicado ao tema da demência. Viver com demência é perder memórias, sim, mas é, acima de tudo, continuar a ser pessoa. E, nesse território frágil, o carinho, a presença e a ternura deixam marcas que a doença não apaga.

Ler Mais >>

O elogio milagroso

“Um elogio justo e honesto” pode ser milagroso. A convicção é da professora Goretti Valente, que em época de exames convida a redescobrir o poder de dizer “Tu podes! Tu consegues!”, para levantar ânimos, fortalecer relações e transformar ambientes.

Ler Mais >>

Família é “terreno fértil” para uma cultura do cuidado

O Vaticano publicou o documento ‘A ecologia integral na vida da família’, reafirmando que “os valores que crescem na família são o terreno fértil de onde brota a vida da sociedade”. A nova publicação, fruto do trabalho conjunto de dois dicastérios, quer ajudar as famílias a “viver melhor o cuidado da Criação e de cada pessoa”.

Ler Mais >>

Inteligência artificial e educação – Que pensar? Que fazer?

A inteligência artificial (IA) entrou na escola com as suas potencialidades, mas também com riscos que não podemos ignorar. Entre o artificial e o natural, torna se essencial refletir sobre o lugar desta tecnologia na educação. E, sobretudo, recordar que nenhuma inovação pode substituir a relação humana que sustenta o ato de ensinar e aprender. A reflexão é do professor Carlos Campos.

Ler Mais >>