Buen Camino!

“Foram dias intensos de esforço físico, mas sobretudo de densidade espiritual”. Juan e Cristina concretizaram este verão uma experiência há anos adiada: percorrer um dos caminhos que leva a Santiago de Compostela. Uma experiência partilhada no Jornal da Família.

Este ano tive a oportunidade de realizar, durante as férias, uma experiência que teve, para mim, um grande impacto. Já há bastante tempo que ela estava no radar, já por várias vezes esteve pensada, mas por várias razões nunca se chegou a concretizar. Desta vez começámos a prepará-la com grande antecedência e pensámos mesmo envolver mais pessoas na sua realização. Entretanto, as datas previstas não eram as mais oportunas para essas pessoas pelo que tivemos de tomar a decisão de avançarmos só os dois (a Cristina e eu).

E ainda bem que tomámos essa decisão!

No início de agosto, fomos de camioneta em direção à primeira etapa de um caminho que nos levou a Santiago de Compostela. Foram dias intensos de esforço físico, mas sobretudo de densidade existencial. Pensámos nos amigos e família, rezámos por eles. Vimos muitas coisas, muitas bonitas, algumas não. Cruzamo-nos com muitas pessoas, falámos com algumas. Revimos projetos em que estamos envolvidos, sonhámos alguns novos. Muita coisa aconteceu ao longo das muitas horas e dos muitos quilómetros do caminho. No fim ficou, e permanece, aquela sensação de agradecimento, de ação de Graças ao Bom Deus, que, sabemos, sempre nos ter acompanhado, não só neste caminho, mas em toda a nossa existência, cumulando-a de tantas coisas boas que nunca podemos, nem queremos, deixar de agradecer.

Ao longo do caminho várias vezes me senti interpelado pelo próprio exercício de caminhar. Aconteceu em várias momentos e situações, mas todas elas relacionadas com o próprio caminhar. Logo nos primeiros dias percebi que o ritmo da caminhada era verdadeiramente fundamental. Não podia ser nem demasiado rápido, nem demasiado lento, pois as jornadas eram longas. Escolher o ritmo certo revelou ser tarefa fundamental, ainda que nem sempre fácil.

A medida como contávamos os quilómetros também foi motivo de interpelação. Não é o mesmo dizer ainda faltam tantos quilómetros, ou já percorremos tantos, e até podemos estar a falar do mesmo quilómetro. Ambas as perspetivas se revelaram importantes, ainda que nem sempre as tenhamos utilizado da maneira mais sábia.

Ao longo do caminho é fácil perceber que umas vezes íamos lado a lado, outras não. Umas vezes um ia à frente, ‘animando o ritmo’, outras atrás, ‘acalmando a marcha’. E tudo foi necessário. Também aqui nem sempre acertámos, mas no fim fica a certeza de que o caminho foi feito em conjunto. Caminhámos os dois, ajudando-nos. Partimos juntos, chegámos juntos e isso reforçou aquela opção de vida: é juntos que queremos continuar a percorrer o caminho da existência.

Muito importante se revelou também o exercício de olhar onde colocar os pés. O caminho não é particularmente difícil, não sendo exigidas grandes aptidões técnicas, mas temos de ter cuidado para ver onde pisamos. A esse nível os descuidos podem pagar-se caro, pondo em perigo o restante da jornada. Mas se formos obcecados com esse cuidado, se só olhamos para o chão, procurando o melhor apoio para os pés, então certamente perdemos toda a beleza que nos rodeia, correndo mesmo o risco de não ver os sinais que nos vão indicando a direção a tomar.  Olhar perto, olhar longe, olhar o chão, alargar o horizonte, esse balanço é mesmo fundamental no exercício de caminhar.

Mais do que um exercício físico, que também o foi, este caminho foi também uma importante etapa de vida, não tanto porque nos tenha revelado coisas totalmente desconhecidas, mas sobretudo por nos ajudar a aprofundar uma opção de vida e a ter a consciência de tantas bênçãos recebidas, sendo que a imensa maioria delas tem nome e rosto concreto.

Quando penso e revejo tudo isto, percebo melhor a força interpelante daquela expressão tantas vezes dita e escutada: buen caminho!

Juan Ambrosio
juanamb@ucp.pt
Artigo da edição de outubro de 2025 do Jornal da Família

Foto: D.R.

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