Nos últimos tempos tem vindo a público notícias alarmantes sobre a geração mais nova, que nos devem fazer refletir. Uma delas referia que 41% dos adolescentes tem sintomas depressivos, com “tristeza permanente, baixa autoestima, perda de interesse e prazer ou pensamentos negativos”, muitos deles com comportamentos suicidários. E não pensemos que isto sucede principalmente nas famílias mais carenciadas ou inseridas em bairros problemáticos. Não caiamos nesta ilusão, caso contrário podemos ter surpresas desagradáveis.
A resposta política a este quadro deveras preocupante é apostar mais em programas de prevenção do suicídio ou em apoios acrescidos nas escolas. A resposta social é a ocupação dos tempos livres da malta nova, com um leque tão extenso de ofertas sedutoras, que deixa de haver tempo para brincar, para ler, para viver e conviver (e até para estudar). A resposta do mundo do consumo e do mercado é aliciar os jovens sempre com coisas novas para comprar e usar (e deitar fora), como roupa e o “meu querido telemóvel”. E qual a resposta da Igreja? Costuma ser a tradicional: catequese seguindo o modelo escolar (com cada vez menos catequistas bem preparados), com celebrações dirigidas para um público adulto, com ritos pouco compreensíveis para a malta nova e utilizando-se uma linguagem que nem a maioria dos adultos percebe bem (valerá a estes a sua fé para ouvir o que não entendem). As pouquíssimas crianças que sobrevivem à catequese de seis anos, lá entram nas etapas seguintes até ao Crisma e depois dizem adeus à Igreja, tais as seduções do mundo terreno. A par da catequese, mas sem a substituir, também temos o escutismo, com atividades mais consonantes com o estilo da rapaziada. É uma excelente oferta da Igreja, mas com a secularização da sociedade tudo o que cheira a religioso é desvalorizado.
Perante este panorama que nos devia (pre)ocupar profundamente – porque a geração nova é o futuro da sociedade e da Igreja – que fazemos nós, cristãos honestos, pais, mães, avós, Igreja hierárquica e não hierárquica? É certo que vai havendo, aqui e ali, novas experiências/ iniciativas aparentemente bem-sucedidas, a maioria das quais fruto de entusiasmos pontuais (jornadas, peregrinações, retiros, acampamentos, festivais, etc.) e não tanto de medidas/ações estruturais, que perdurem no tempo – como seria o desejável.
Mas a raiz do problema está a montante: reside na família. E na forma como os pais educam os filhos. Julgou-se (e continua a julgar-se) que quanto mais coisas se oferecerem aos filhos, mais mimos lhes dermos, mais os superprotegermos, e quanto menos os contrariarmos, os responsabilizarmos e os fizermos esforçar, mais felizes eles serão. Sim, aparentemente as crianças ficam satisfeitas e, com tanta mordomia diária, até aprendem facilmente a mandar, não só em casa, como também na escola (também ficámos a saber que somos dos países da Europa com mais indisciplina nas salas de aula!!!). Pelos vistos, esta ilusão de felicidade está a gerar muita amargura na adolescência (e por aí diante).
É óbvio que atitudes e comportamentos tão errados e desajustados só podem conduzir a resultados desastrosos como os que estamos a assistir.
Se assistirmos a tudo isto “comodamente sentados”, seguramente este quadro tenebroso não se alterará, antes pelo contrário. E irá atingir cada vez mais adolescentes (e crianças, e jovens), quem sabe, os nossos filhos, netos, bisnetos, sobrinhos, amigos. Urge, pois, “levantarmo-nos” e agir, assumindo cada um de nós – pais, avós, educadores – a nossa função com coragem e ousadia e fé, sabendo, de antemão, que esta ação suscitará, nas crianças e nos adolescentes, reações impulsivas incómodas, tais como birras, amuos, choros, chantagens, etc., que exigirão dos adultos assertividade e muita paciência. E amor. Sim, tudo isto só resultará se os nossos filhos, netos, alunos se sentirem estimados, valorizados, “amados” por nós. E para isto, é necessário os pais darem tempo aos filhos, passearem e brincarem com eles, sobretudo quando são pequenose os consideram uns ídolos. E para isto, é necessário os pais usarem menos o telemóvel ou o computador ou o tablet, moderarem o trabalho profissional e os seus hobbies, darem exemplo de verdade, de honestidade, de responsabilidade.
Se tudo isto for banhadopela espiritualidade, pela intimidade com Deus – que nos ajuda a sermos perseverantes, pacientes, amorosos – certamente teremos resultados bem diferentes.
Por isso mesmo, o Pe. Alves Brás, há sessenta e tal anos, perscrutando os “sinais dos tempos”, pedia insistentemente para se “cristianizar”/ evangelizar as famílias.
Hoje, este (insistente) apelo tem ainda mais pertinência. Cuidemos, pois, dos nossos gestos e das nossas atitudes. E das nossas famílias.
Jorge Cotovio
jfcotovio@gmail.com
Artigo da edição de novembro de 2025 do Jornal da Família
Foto: Pexels





