A Europa, após a devastação da Segunda Guerra Mundial, não necessitava apenas de um plano económico, mas de uma revolução moral que travasse o regresso da violência e do totalitarismo. O Vaticano posicionou-se, então, como uma das primeiras vozes institucionais a advogar pela integração europeia. Longe de ser um ator político direto, a sua influência manifestou-se na esfera ética e intelectual, fornecendo o quadro de valores para os líderes que se tornaram os pais fundadores da Comunidade Europeia, como Robert Schuman, Konrad Adenauer e Alcide De Gasperi, que não só partilhavam a fé católica, mas que traduziram ativamente os princípios da Doutrina Social da Igreja em arquitetura de Estado. A proposta de Schuman, em 1950, de partilhar os recursos de carvão e aço, foi, de facto, um ato de solidariedade política e moral concebido para tornar a guerra na Europa “materialmente impossível”. A partir deste momento, a Igreja endossou a unificação não como uma aliança, mas como um projeto de paz com raízes éticas profundas.
Ao longo do século XX, o apoio dos Papas à causa europeia foi constante. Pio XII já alertava para a necessidade de união, mas foi com o Papa João Paulo II que o papel da Santa Sé ganhou uma dimensão geopolítica sem precedentes. Com a queda do Muro de Berlim e o fim da Guerra Fria, o Papa articulou uma visão continental que via a Europa dividida como incompleta, apelando à sua unificação cultural e espiritual para que a Europa Ocidental e Oriental “respirassem” juntas. Este apelo não se limitava à geografia, mas defendia o reconhecimento da herança cristã como um dos pilares inegáveis da identidade europeia, uma força coesiva para além das fronteiras e das ideologias. A diplomacia vaticana apoiou e acompanhou ativamente as transições democráticas nos antigos países comunistas, vendo o alargamento da União Europeia (UE) como uma garantia de estabilidade e de respeito pela dignidade humana, valores duramente conquistados após décadas de opressão.
Hoje, no diálogo contínuo com as instituições de Bruxelas, a Santa Sé reitera o seu papel de “voz moral”. Isso é pertinente à luz dos futuros alargamentos da UE, que incluem países com complexas realidades históricas e religiosas, como os Balcãs Ocidentais e a Europa Oriental, cuja integração será uma oportunidade para consolidar a estabilidade e a justiça. A Igreja Católica, muitas vezes como minoria, atua como agente de reconciliação e diálogo inter-religioso, essenciais para a coesão social e política. Assim, o Vaticano não só espera que os princípios fundadores da UE (a subsidiariedade e a solidariedade) guiem a sua governação interna, mas que sejam aplicados no acolhimento dos novos membros.
A Europa foi concebida por ideais que transcendem o cálculo económico; o seu futuro, e a sua capacidade de integrar novas nações, dependerá da sua vontade de se manter fiel a essa vocação ética original. O diálogo entre o Vaticano e a UE permanece, portanto, uma questão de destino histórico, focado em assegurar que o projeto europeu não seja apenas uma zona de mercado, mas uma comunidade de valores e esperança para todo o continente.
Murillo Missaci
missacimb@gmail.com
Artigo da edição de dezembro de 2025 do Jornal da Família
Foto: Pixabay





