Escrevo estas linhas no Aeroporto Fumicino (Roma/Itália), enquanto espero o embarque no voo que me levará de regresso a Lisboa.
Estive a participar num Seminário Internacional promovido pela Conferência Internacional Católica do Escutismo (CICE). Representantes de 23 países estiveram reunidos para desenvolverem o projeto «Levedura na Massa. Impulsionar a transformação social através do escutismo». Foram dias muito intensos de trabalho, durante os quais pudemos escutar-nos uns aos outros, procurando critérios de discernimento para a realização das ações a desenvolver nos diversos países.
O método sinodal foi utilizado nos diversos trabalhos de grupo e respetivos plenários, possibilitando a todos uma experiência muito enriquecedora, porque capaz de nos abrir à escuta, ao diálogo, à atenção e acolhimento dos dons dos outros.
«Levedura na Massa» foi também o marco simbólico que serviu de enquadramento para todos os trabalhos. A farinha, a água, a levedura são elementos necessários e indispensáveis para fazer a massa que, depois, se transformará em pão.
Todos sabemos como as farinhas são muitas e variadas, delas dependendo, em grande medida, a qualidade e o sabor do pão. Mas só com as farinhas não se faz o pão. Precisamos também da água, que é aquele elemento que, combinado com a farinha e o fermento, facilitará o começo do processo de transformação. A levedura, que é um tipo de fermento, é o agente do crescimento. Trabalhando de um modo silencioso e invisível permite ir realizando a transformação. De toda esta combinação irá surgir a massa que, em verdade, não existe sem nenhum desses elementos, mas que é muito mais do que a simples soma dos mesmos. Mas para ser pão, a massa precisa ainda de ir para o forno de modo que a transformação possa ser completada e consolidada. Só no fim de todo este processo o pão pode ser alimento vital.
Todo este marco simbólico, que nos ajudou a entender a beleza e a complexidade de ser levedura na massa, pode igualmente ajudar a entender melhor como a missão das comunidades cristãs é também a de favorecer e possibilitar o processo de transformação social que é tão necessário no momento histórico que estamos a viver.
Ser levedura na massa é colocar os diversos dons e capacidades ao serviço dos outros. É aceitar viver, no meio do mundo, o encontro com o Senhor Ressuscitado, deixando-se alimentar pela água-viva que dele brota e alimentando também a comunidade humana da qual fazemos parte. Ser levedura na massa é envolver-se e comprometer-se, com convicção, na construção de uma sociedade mais justa e sustentável.
Sinceramente, parece-me que só deste modo os cristãos e as suas comunidades poderão ser facilitadores da transformação a que o Evangelho nos convoca.
Enquanto escrevo estas linhas, vou olhando e vendo a multidão de pessoas que circula por este aeroporto. Certamente que muitas delas, tal como eu e todos os participantes do seminário, tiveram a oportunidade de passar pela Porta Santa, no contexto do Jubileu da esperança. E se todos eles e se cada um de nós pudesse ser essa levedura de esperança no meio do mundo?
E como estamos todos precisados da esperança. Não daquela que espera que as coisas aconteçam, mas daquela que nos faz saber sustentados e alimentados pelo encontro com Aquele que nos transforma e faz crescer, interpelando-nos a fazer acontecer as coisas que esperamos.
Juan Ambrosio
juanamb@ucp.pt
Artigo da edição de dezembro de 2025 do Jornal da Família
Foto: D.R.





