Ser Levedura na Massa

O Projeto “Levedura na Massa” reuniu, recentemente em Roma, representantes de 23 países num seminário internacional promovido pela Conferência Internacional Católica do Escutismo. Juan Ambrosio foi um dos participantes e conta-nos os pormenores de um projeto que quer impulsionar a transformação social através do escutismo.

Escrevo estas linhas no Aeroporto Fumicino (Roma/Itália), enquanto espero o embarque no voo que me levará de regresso a Lisboa.

Estive a participar num Seminário Internacional promovido pela Conferência Internacional Católica do Escutismo (CICE). Representantes de 23 países estiveram reunidos para desenvolverem o projeto «Levedura na Massa. Impulsionar a transformação social através do escutismo». Foram dias muito intensos de trabalho, durante os quais pudemos escutar-nos uns aos outros, procurando critérios de discernimento para a realização das ações a desenvolver nos diversos países.

O método sinodal foi utilizado nos diversos trabalhos de grupo e respetivos plenários, possibilitando a todos uma experiência muito enriquecedora, porque capaz de nos abrir à escuta, ao diálogo, à atenção e acolhimento dos dons dos outros.

«Levedura na Massa» foi também o marco simbólico que serviu de enquadramento para todos os trabalhos. A farinha, a água, a levedura são elementos necessários e indispensáveis para fazer a massa que, depois, se transformará em pão.

Todos sabemos como as farinhas são muitas e variadas, delas dependendo, em grande medida, a qualidade e o sabor do pão. Mas só com as farinhas não se faz o pão. Precisamos também da água, que é aquele elemento que, combinado com a farinha e o fermento, facilitará o começo do processo de transformação. A levedura, que é um tipo de fermento, é o agente do crescimento. Trabalhando de um modo silencioso e invisível permite ir realizando a transformação. De toda esta combinação irá surgir a massa que, em verdade, não existe sem nenhum desses elementos, mas que é muito mais do que a simples soma dos mesmos. Mas para ser pão, a massa precisa ainda de ir para o forno de modo que a transformação possa ser completada e consolidada. Só no fim de todo este processo o pão pode ser alimento vital.

Todo este marco simbólico, que nos ajudou a entender a beleza e a complexidade de ser levedura na massa, pode igualmente ajudar a entender melhor como a missão das comunidades cristãs é também a de favorecer e possibilitar o processo de transformação social que é tão necessário no momento histórico que estamos a viver.

Ser levedura na massa é colocar os diversos dons e capacidades ao serviço dos outros. É aceitar viver, no meio do mundo, o encontro com o Senhor Ressuscitado, deixando-se alimentar pela água-viva que dele brota e alimentando também a comunidade humana da qual fazemos parte. Ser levedura na massa é envolver-se e comprometer-se, com convicção, na construção de uma sociedade mais justa e sustentável.

Sinceramente, parece-me que só deste modo os cristãos e as suas comunidades poderão ser facilitadores da transformação a que o Evangelho nos convoca.

Enquanto escrevo estas linhas, vou olhando e vendo a multidão de pessoas  que circula por este aeroporto. Certamente que muitas delas, tal como eu e todos os participantes do seminário, tiveram a oportunidade de passar pela Porta Santa, no contexto do Jubileu da esperança. E se todos eles e se cada um de nós pudesse ser essa levedura de esperança no meio do mundo?

E como estamos todos precisados da esperança. Não daquela que espera que as coisas aconteçam, mas daquela que nos faz saber sustentados e alimentados pelo encontro com Aquele que nos transforma e faz crescer, interpelando-nos a fazer acontecer as coisas que esperamos.

Juan Ambrosio
juanamb@ucp.pt
Artigo da edição de dezembro de 2025 do Jornal da Família

Foto: D.R.

Partilhar:

Facebook
Twitter
Pinterest
LinkedIn
Relacionado

Outras Notícias

Pastoral Familiar – “Tenho a impressão que já se fez mais”, afirma o padre José Alves

Dez anos após a publicação da ‘Amoris Laetitia’, o padre José Augusto Gonçalves Alves teme que a pastoral familiar tenha perdido o impulso que já teve. “Tenho a impressão que já se fez mais”, afirma o sacerdote vicentino e assistente espiritual do núcleo de Viseu do Movimento por um Lar Cristão. O padre José Alves defende uma pastoral “missionária “e “em saída”, em que a formação dos agentes da pastoral deve ir além da formação filosófica e teológica.

Ler Mais >>

“O amor nunca foi feito para ficar fechado entre duas pessoas”

Ana Bem e Hélder da Silva celebram este ano 25 anos de casamento e 34 de namoro. São eles que nos ajudam a refletir sobre o Capítulo V da ´Amoris Laetitia’ – O Amor que se torna fecundo. Por entre a vida familiar, a vida profissional e o serviço à Igreja e à comunidade, afirmam que “o amor nunca foi feito para ficar fechado entre duas pessoas” e “nunca fica mais pequeno quando é partilhado”.

Ler Mais >>

Retalhos de amor que dão vida

No Centro de Cooperação Familiar | Lar Betânia, em Fátima, as marchas dos Santos Populares não são apenas uma festa: são um encontro de memórias e afetos que continuam a dar vida aos dias. Este ano, sob o lema “Vidas com História – Retalhos de Amor”, os utentes desfilaram no espaço exterior da instituição levando consigo meses de dedicação, figurinos feitos em conjunto e, sobretudo, pedaços das suas próprias histórias. São fragmentos de coragem, perdas, fé e superação que emocionaram colaboradores e famílias.

Ler Mais >>

Férias com afetos

As férias passam depressa, mas aquilo que vivemos em família permanece. Neste verão, queremos mais do que destinos e fotografias: queremos pais e filhos juntos, presentes, atentos uns aos outros, a criar memórias que o tempo não apaga. Porque as melhores férias são sempre as que fortalecem o afeto que nos une.

Ler Mais >>

A Santa Sé perante a crise do multilateralismo

Num tempo em que o multilateralismo parece perder fôlego perante a fragmentação global, Murillo Missaci propõe uma leitura do papel da Santa Sé na diplomacia contemporânea. Sem depender de poder económico ou militar, o Vaticano mantém-se como voz de diálogo e de equilíbrio, recordando que a credibilidade das instituições internacionais nasce da fidelidade à pessoa humana e da perseverança na cooperação.

Ler Mais >>