Pela segunda vez, nestas páginas, convoco a reflexão para a problemática da vida nascente, quando ainda decorre esta quadra natalícia que tanto nos encanta, comove e inspira. Recentemente, uma mãe foi condenada a dez anos de cadeia porque tentou matar o seu bebé, quando se encontrava no hospital. Presumo que a pena teria sido ainda mais gravosa se o filho, então com cinco meses, tivesse efetivamente morrido.
Como são lestos os tribunais a condenar uma jovem mãe de vinte anos, por comprovado ato infame, alegadamente inserido num “quadro de egoísmo”, como terá sublinhado o juiz!
Todos nós nos revoltamos com o comportamento inqualificável desta mãe, pouco nos importando das razões pessoais, emocionais, psicológicas, materiais ou familiares que a terão levado a tal loucura. Não. Esta mãe merece “ir para a cadeia” – diremos todos e assim decidiu o tribunal.
Paradoxalmente, se este ato infame tivesse sido cometido, por vontade desta mesma mãe, uns meses antes do nascimento, no seu próprio seio, teria tido todo o apoio logístico e financeiro dos serviços de saúde, pago, claro está, por todos nós, contribuintes. Estariam, assim, garantidos todos os cuidados para que a morte fosse rápida, segura e eficaz. O bebé deixaria de viver na total discrição, quando, supostamente, habitava e se desenvolvia no seu abrigo natural mais seguro e protegido. E tudo isto de forma “legal”, mesmo quando o artigo 24.º da Constituição da República Portuguesa estabelece que “A vida humana é inviolável”.
Contradições da nossa sociedade, que nos devem fazer parar e refletir. Paradoxos que nos devem fazer atuar a montante, na prevenção, com uma adequada educação para o respeito integral pela vida humana – desde a conceção à morte natural –, a par de muitas outras educações que temos, forçosamente, de valorizar e priorizar.
Quando parece que “tudo está perdido” a este respeito, não percamos – sobretudo os pais e os avós – a oportunidade de ir educando os mais novos para a sexualidade – uma educação devidamente integrada na educação para o amor/ afetos. Deixar esta tarefa para a escola, com as ciências/ biologia e as aulas de cidadania, saberá a pouco, pois ela não consegue chegar a tantas solicitações. E as informações, a este respeito, vindas dos colegas, das redes sociais ou da Internet são, certamente, aligeiradas, redutoras e despidas da integralidade que uma saudável sexualidade, obrigatoriamente, exige.
Se desde pequenos educarmos as nossas crianças para o autodomínio/ autocontrolo das emoções e dos instintos/ pulsões, haverá, seguramente, mais probabilidade de, quando maiorzinhos (e maiores), não haver mães de vinte anos a tentar matar os seus filhos e de não haver rapazes a manchar a honra e a dignidade de raparigas (com a agravante de rapidamente desaparecerem de cena…).
Quando ainda ecoa nos nossos corações a Festa da Sagrada Família, convoco o Papa Leão para nos pedir que “nas famílias não falte a coragem de tomar decisões sobre a maternidade e a paternidade” e os casais “não tenham receio de acolher e defender cada criança concebida, anunciando e servindo o Evangelho da vida” (Audiência pública semanal de 26/11/2025).
Para terminar, um olhar a 2026. Este novo ano – que aparentemente nos surge “sem júbilo e sem esperança” – seja o melhor ano da nossa existência. Podemos prescindir do “chifre de carneiro” (shofar) para anunciar o Ano Santo (que não é), mas temos de ter, obrigatoriamente, em 2026, renovada esperança. A começar pela esperança da “Paz na Terra”, anunciada, com júbilo, pelo Anjo aos pastores de Belém…
Jorge Cotovio
jfcotovio@gmail.com
Artigo da edição de janeiro 2026 do Jornal da Família
Foto: Pexels





