No momento em que escrevo, não posso deixar de falar das calamidades que recentemente assolaram o nosso país, afetando milhares de famílias e instituições.
Inesperadamente, surgiu um “comboio de tempestades”, com uma Ingrid, um Joseph, uma Kristin, um Leonardo, uma Marta e um Nils incrivelmente bem alinhados. Nunca algo semelhante terá sido visto e sentido neste “jardim à beira-mar plantado”. Vemos isso, sim, na televisão, comodamente sentados no sofá, com um cobertor sobre as pernas, ao lado de uma lareira ou aquecedor, ou com o ar condicionado regulado nos 22º. E sempre tudo bem longe de nós.
Agora, porém, a “desgraça” caiu-nos em cima: entrou em nossas casas e instituições com uma força nunca vista, pelo menos nas últimas décadas. Felizmente, choramos poucas mortes (ainda que uma única já seja de lamentar). Mas ficámos seriamente marcados por tanta destruição que a todos afetou e continua a afetar. E, como normalmente sucede a outros níveis, os mais pobres e os mais afastados dos grandes centros são sempre os que mais sofrem.
Compreendo as reações inflamadas, carregadas de emoção, de autarcas, políticos ou simples cidadãos. Mas refuto as acusações levianas de que o Estado não está preparado para calamidades desta dimensão. Nenhum Estado do mundo está preparado para imprevistos “monumentais”. Nem os países mais ricos e poderosos. Veja-se os EUA, com o ataque às torres gémeas e ao Pentágono, em 2001, ou os sistemáticos incêndios na Califórnia; ou a série de acidentes ferroviários em Espanha numa só semana; ou a discoteca que ardeu na pacífica e segura Suíça, denunciando graves problemas de segurança; ou Israel, com todo o seu moderníssimo armamento de defesa, deixando-se ingenuamente invadir, com as terríveis consequências que tão bem conhecemos; etc.
Tudo isto causou imensas mortes e elevadíssimos prejuízos. E, em todas estas situações, os governos foram acusados de não estar prevenidos, de não terem os meios necessários e de não atuarem com celeridade.
Tal e qual o que se passa entre nós – quer na saga dos incêndios, quer agora.
Emoções à parte, temos de reconhecer que estarmos preparados para todos os imprevistos, até para ventos e marés nunca observados, sai muito caro. É “incomportável”. Para não falar de pontes e barragens (que têm índices de segurança excecionais), ficariam também mais caros os edifícios (incluindo as nossas casas), a eletricidade e as telecomunicações, as vias de comunicação, etc. E, claro, aumentariam os encargos com a Proteção Civil. E quem pagaria esta fatura por fenómenos “imprevistos” e “excecionais”? Cada contribuinte.
Em momentos catastróficos, deve haver solidariedade coletiva: o Estado, as seguradoras e cada um de nós (doando e/ou doando-se). Mas também deve haver lições a aprender – a tal “aprendizagem coletiva” de que falava a ex-ministra Lúcia Amaral – na qual cada um de nós está envolvido, porque devemos fazer parte da solução: não plantando árvores de grande porte junto a estradas, casas ou fios de alta e média tensão; mantendo telhados, portas e portões em bom estado de conservação; em dias de tempestade, seguindo as recomendações das autoridades, evitando estacionar viaturas perto de árvores e em zonas inundáveis, e não fazendo deslocações desnecessárias; possuindo em casa kits de emergência (que podem incluir plásticos, lonas e cordas…); contratando seguros de risco; amealhando uma reserva para imprevistos; etc. Como cidadão, fico por aqui (e já não é pouco…). E depois, nesta tal “aprendizagem coletiva”, competirá ao Estado (governos, autarquias, proteção civil, forças de segurança, serviços de saúde) verificar o que poderá fazer para melhor nos proteger e ajudar, quiçá sem grandes gastos, fazendo deslocar rapidamente para as zonas mais atingidas o material e os meios humanos indispensáveis. Talvez seja (quase) tudo uma questão de organização e de boa gestão/ coordenação (infelizmente, somos muito maus nisto…).
Está bem patente, mais uma vez, a nossa vulnerabilidade perante a natureza e as circunstâncias adversas. Não vale a pena continuarmos a pensar que, com tanta ciência e tecnologia, agora aliada à “Inteligência Artificial”, somos os “donos do mundo”. Não, não somos. Pelo menos a mim, a fé, alicerçada na Palavra de Deus, ajuda-me a ser humilde, a aceitar pacientemente as fragilidades e as contrariedades. E a ser generoso, solidário e fraterno. Talvez resida aqui a solução para muitos dos múltiplos problemas (e tensões) que nos assolam.
Jorge Cotovio
jfcotovio@gmail.com
Artigo da edição de março de 2026 do Jornal da Família
Foto: Pixabay




