Volto, de novo, ao tema da paz, pois aquilo que continuamos a ver e ouvir por estes dias está cheio da sua ausência. As imagens que mais vemos transmitem-nos violência, sofrimento, morte e as palavras que mais ouvimos pertencem também a esse universo. Dia após dia, um número enorme de peritos e comentadores falam-nos da guerra. Nunca imaginei que houvesse tantos especialistas em guerra. Explicam-nos tudo ao detalhe, mesmo que estejam muito longe dos acontecimentos, mesmo que nunca tenham lá posto os pés. Sinceramente, muitas vezes me pergunto como é que este batalhão de especialistas e comentadores podem saber tantas coisas e com tantas certezas. Também a este nível a guerra alimenta um negócio.
Nesta voracidade de imagens, de análises e comentários vejo como as palavras pesam muito. E elas são tantas vezes ditas com tão pouco cuidado. E elas são tantas vezes ditas para magoar e diminuir. E em vez de esclarecer, de aproximar, de procurar pontes, de abrir novas possibilidades, acabam por ter o efeito contrário, afastando e dividindo. Pelas palavras o ser humano diz e constrói a história e diz-se e constrói-se a si mesmo. As palavras (ditas, escritas, insinuadas, simbolizadas, …) são realidade e dinâmica maior na edificação da sua humanidade e da sua existência. E tantas vezes e em tantas ocasiões, como bem testemunha o momento que estamos a viver, elas são, de facto, tão pouco cuidadas.
Nesse sentido, parece-me tão certeira a proposta do Papa Leão XIV para esta Quaresma.
Por isso, gostaria de vos convidar a uma forma de abstinência muito concreta e frequentemente pouco apreciada, ou seja, a abstinência de palavras que atingem e ferem o nosso próximo. Comecemos por desarmar a linguagem, renunciando às palavras mordazes, ao juízo temerário, ao falar mal de quem está ausente e não se pode defender, às calúnias. Em vez disso, esforcemo-nos por aprender a medir as palavras e a cultivar a gentileza: na família, entre amigos, nos locais de trabalho, nas redes sociais, nos debates políticos, nos meios de comunicação social, nas comunidades cristãs. Assim, muitas palavras de ódio darão lugar a palavras de esperança e paz.
Igualmente certeira me parece a ideia partilhada na sua Carta Apostólica Desenhar novos mapas de esperança, onde, por ocasião do sexagésimo aniversário da Declaração Conciliar Gravissimum Educationis, destaca a extrema importância e atualidade da educação na vida e na história do ser humano:
É necessária uma educação que envolva a mente, o coração e as mãos; novos hábitos, estilos comunitários, práticas virtuosas. A paz não é ausência de conflito: é força suave que rejeita a violência. Uma educação para a paz «desarmada e desarmante» ensina a depor as armas da palavra agressiva e do olhar que julga, para aprender a linguagem da misericórdia e da justiça reconciliada.
E ao apontar caminhos concretos para esta educação, lembra e assume como fundamento, os sete percursos propostos pelo Papa Francisco no Pacto Educativo global (colocar a pessoa no centro; ouvir as crianças e os jovens; promover a dignidade e a plena participação das mulheres; reconhecer a família como primeira educadora; abrir-se ao acolhimento e à inclusão; renovar a economia e a política ao serviço do humano; cuidar da casa comum), aos quais acrescenta mais três, referindo de novo a educação para a paz desarmada e desarmante: «eduquemos para linguagens não violentas, para a reconciliação, para a construção de pontes e não de muros; «Felizes os pacificadores» (Mt 5, 9) torne-se o método e o conteúdo da aprendizagem.» (os outros dois são a vida interior e o domínio humano digital).
Precisamos, com urgência, de cuidar das palavras. Precisamos, com urgência de palavras de paz, que sejam capazes de construir pontes, promover a reconciliação, abrir novos horizontes, ensaiar novas possibilidades.
Juan Ambrosio
juanamb@ucp.pt
Artigo da edição de abril de 2026 do Jornal da Família
Ilustração IA





